Wanderley Guilherme dos Santos

Cientista político

O EPÍLOGO DA CONCILIAÇÃO: A SUPREMACIA DO “EU” SOBRE O “NÓS”

“Os governos atuais dos países mais evidentes, em todo o mundo, estão desarmados de estratégias criativas diante da insatisfação generalizada do planeta. Exceção feita, naturalmente, daquele 1% de ricos de cada um deles, de notória ostentação. Mas reduzir o sentido da crise contemporânea a desequilíbrios econômicos constitui outra variante da mesma incapacidade avaliativa. Liberais em política e moderados neokeynesianos em economia, tanto quanto radicais de toda espécie, manifestam inquietação quanto ao que não se parece com crises passadas, embora não esteja evidente qual o tipo de totalidade econômica, social e política em formação.

Em todas as crises anteriores da sociedade industrial, a superação era integrada por investimento público, políticas sociais de atenção ao emprego, proteção ao trabalho e inclusão de populações periféricas. Ao contrário, observa-se, hoje, a debandada do poder público e a esterilização, quando não a completa revogação, da legislação de integração pactuada das grandes massas destituídas de capital.

A crise contemporânea compromete a infra e a superestrutura da sociedade industrial, seus valores cívicos e códigos de conduta. O que se desfaz é a sociedade organizada e produtiva dos últimos três séculos, incluindo a viga fundacional de sua racionalidade operacional: a transitividade tácita nas relações econômicas, políticas, sociais, institucionais e pessoais. Encontra-se a história em trabalho de parto da sociedade intransitiva, subvertendo práticas e expectativas secularmente vigentes. Creio possível esboçar uma descrição sumária de como se está produzindo tal ruptura; não obstante, ainda que sumária a descrição, a coerência exija complexa exposição. Isso é assunto para um livro ainda em andamento.

Para compreender o conceito de sociedade intransitiva é preciso começar pela gênese. Quando da queda do Muro de Berlim, sucedida pelo desmantelamento da sociedade socialista, tive a percepção de que não se tratava apenas de uma vitória do capitalismo sobre socialismo. Era algo de muito maior transcendência histórica: o desenlace de um conflito sobre a melhor maneira de organizar a vida em coletividade, iniciado lá na baixa Idade Média, que começou a ganhar formas mais agudas a partir do Renascimento, quando da disputa entre o pensamento laico e o religioso. Foi, então, que o capitalismo comercial emergente buscou mecanismos de compatibilização com os princípios éticos religiosos representados pela Igreja, que não se pejava de condenar a usura, porque ainda não tinha aceitado o modo mercantil de produção. Os mercadores eram assombrados pelo fantasma do pecado. Daí as ofertas à Igreja para a construção de altares, doações, estátuas de santos, como forma de comprar absolvição.

Do ponto de vista filosófico, essa tensão se manifestou posteriormente na oposição entre pensadores que dignificavam os mecanismos de mercado, de produção, distribuição, locação de bens, e de outro, aqueles que repudiavam ou tinham reservas em relação à extensão ilimitada da liberdade de enriquecer e tentavam conciliá-la buscando um compromisso moral, baseado em preceitos como a solidariedade, a empatia com o semelhante. Tratava-se de conciliar o individualismo com o bem comum. Esse compromisso é perceptível na teoria política de um dos primeiros pensadores liberais, o filósofo inglês John Locke, para quem legitimidade da acumulação dependia da capacidade de exploração da terra pelo proprietário.

No século XVIII, o problema da compatibilização do individualismo com o bem comum, entendido como vontade geral, foi enfatizado por Rousseau, que fez certa ginástica mental para diferenciá-la da mera soma das vontades individuais, entendida como vontade de todos. No fundo, o que essas formulações exprimem é o conflito entre o interesse ou o egoísmo individual, de um lado, e a solidariedade, os imperativos de bem comum, de outro. Immanuel Kant retoma a dimensão propriamente ética do problema, formulando-o em termos laicos: não faça ao outro aquilo que não deseja que seja feito a você. Era também uma forma de tentar compatibilizar o crescente individualismo com a moral pública.

Essa dicotomia é mantida na sociedade industrial. O operário busca ação coletiva, solidária entre os seus iguais, para a defesa dos seus interesses. O empresário compete com outros empresários, mas também compete com os trabalhadores para enriquecer. Seu interesse se opõe àquele do trabalhador. A partir do século XIX, essa oposição se exprime principalmente pela filosofia do utilitarismo. Jeremy Bentham chega a ser cruel: o que o cidadão deve buscar única e exclusivamente é a sua satisfação pessoal. A tensão entre indiferença e simpatia, egoísmo e altruísmo, fica cada vez mais clara, até se exprimir de modo definitivo a partir da Revolução Russa na oposição entre capitalismo e socialismo. Os motivos pelos quais essa competição terminou pela supremacia do capitalismo não me compete explicar. O fato é que o desenlace da oposição se deu pela supremacia da visão de mundo utilitarista.

O desaparecimento do socialismo real representou o fracasso da primeira tentativa de criar uma sociedade com base do princípio do altruísmo ou da solidariedade. Foi um fracasso não apenas intelectual; os atores que defendiam a possibilidade de construção de uma sociedade em base de solidariedade também começam a desaparecer, o primeiro dos quais foram os sindicatos. Os empresários não levavam a sua competição com os empregados ao limite da coação porque havia um modelo alternativo de outra sociedade que lhe servia de espantalho. Da mesma forma, ele funcionava como orientador da ação política dos próprios países capitalistas, no sentido ético de buscar, pelo ideal da solidariedade, produzir uma ordem minimamente igualitária.

O fim da União Soviética foi um divisor de águas, gerando uma série de alterações na fábrica social que vai culminar na crise de 2008, que gerou um verdadeiro consenso no sentido de desmontar completamente o arcabouço de conciliação entre os interesses coletivos, montado a partir do século dezenove, de que eram os sindicatos a principal mola. Dali por diante, o egoísmo não tem mais adversário ou alternativa. O neoliberalismo, na forma do chamado libertarianismo, representado teoricamente por autores como Hayek, Mises ou Friedman, não tem nenhum compromisso com a solidariedade, proclamando a legitimidade única e exclusiva do individualismo e do egoísmo, próprios do utilitarismo. A felicidade de todos é a soma das felicidades individuais de cada um. Os atuais teóricos do capitalismo sustentam que não há alternativa.

Recapitulando: o que caracterizou esses séculos das sociedades comerciais e posteriormente sociedade industrial? Foi o princípio da transitividade, que é aquela da racionalidade matemática: se A é maior que B e B é maior que C, A é maior que C. Há uma presunção de confiança geral e recíproca, que decorre da solidariedade e jaz no fundo de todos os contratos da sociedade comercial e industrial. O preço da violação desse princípio é o risco de sofrer uma sanção a ser aplicada coercitivamente. Se eu sou seu amigo, o seu amigo será meu amigo; da mesma forma, seu inimigo será o meu. E a sociedade intransitiva é justamente aquela na qual semelhante princípio já não vige. Se eu sou seu amigo, não necessariamente seus amigos serão os meus amigos, ou os inimigos. A sociedade deixa de ser automaticamente transitiva. Não existe mais a confiança coletiva, porque se afirma o primado exclusivo do interesse privado.

Afora o respeito às leis, meu compromisso é somente com minha agenda privada, e é a partir da conformidade dos outros com ela ou não que defino meus amigos e inimigos. Não há mais uma ética, no sentido de uma moral coletiva, que obrigue a solidariedade para além daquilo exigido por lei. Coalizões sociais e econômicas são feitas assim nos dias de hoje, e aceitas como legítimas, porque cada vez menos vigora uma ética de solidariedade. O que o governo Temer e acólitos estão fazendo, nesse sentido, através da reforma trabalhista, é ajustar o Brasil a essa tendência contemporânea de pretender acabar com o ser coletivo, própria da sociedade pós-industrial e de um Estado descompromissado com o aspecto nacional.

A sociedade intransitiva é aquela em que a solidariedade faliu. A sociedade industrial transitiva contava com a adesão dos seus membros. O habitante da sociedade transitiva vive e adere à transitividade das relações. O habitante da sociedade intransitiva não gosta das relações intransitivas, mas não tem nenhuma condição de subverter. Há a apatia do conformismo. A pessoa é obrigada a se virar por si própria. O vizinho é um competidor. E não há qualquer arena de conciliação. A humanidade inteira pode estar indignada e não vai acontecer nada. Pode ser que mude, porque nós estamos entrando em um mundo novo, o desagradável mundo novo. Aquele outro não vale mais. Todo o universo da intransitividade está se difundindo com incrível velocidade, levando à morte, não só o modo de produção da sociedade industrial, mas também sua moral coletiva.

Estamos num período de extrema instabilidade, como foi o início da Revolução Industrial. Basta ver o processo de desnacionalização da produção, baseada em uma globalização que extingue os suportes materiais da solidariedade antiga, de claros suportes materiais. Você estava dentro de uma fábrica, ao lado de outros que faziam mais ou menos a mesma coisa. Hoje não há mais isso. As instituições da sociedade industrial estão desparecendo como despareceram, antes delas, as da sociedade mercantil. De acordo com a solução que vem sendo aplicada nos países nórdicos, na esteira da crise de 2008, órgãos que expressam uma vontade coletiva, como sindicatos e partidos, não existirão mais. Na sociedade intransitiva, a “nuvem” disponibilizará sua biografia e o currículo dos trabalhadores, individualmente; e ali serão escolhidos pelo empresário ou consumidor. Os apologistas da nova sociedade dizem que ela será ótima para os empregados, que nela gozarão da maior liberdade. Não terão as obrigações para com os patrões, nem os compromissos impostos pelo contrato coletivo. De fato, nesse novo regime, há certa retomada do crescimento. Mas é um crescimento com alto índice de desemprego.

A substituição da mão de obra é um problema seriíssimo, que os nossos economistas dizem não existir. Na periferia do mundo, como sempre, os contornos serão dramáticos, porque as fases se superpõem antes mesmo que acabem as anteriores. A África não fez ainda a Revolução Industrial, nem chegou luz elétrica em grandes partes. Mas o desenvolvimento se dará de outro modo, porque não vai ter empresa nacional com milhares de trabalhadores botando fiação debaixo da terra. Então não vão ter sociedade industrial. Ficarão com uma lacuna permanente. As pontes não serão feitas, mas haverá um sistema de comunicação cibernética ligada aos mercados europeus e asiáticos. A projeção do futuro dos países subdesenvolvidos não está no horizonte dos teóricos da sociedade nova. Elogiam-na porque, nos países desenvolvidos, ela dará ocupação na produção de itens aos desempregados pela automação. Mas esquecem de que os desempregados dos países subdesenvolvidos terão emprego precário e salários miseráveis na produção de itens que a sociedade desenvolvida vai deixar de fazer, embora ainda não esteja claro como essa exploração vai se dar.

Algumas coisas, no entanto, já estão claras. A divisão social do trabalho será totalmente reformulada. Não haverá como empregar todo mundo. Vai sobrar gente, inclusive de boa qualificação, porque, no mundo da sociedade digital, o vencedor cria o mercado por meio de um monopólio mundial, do tipo Google, Facebook, Microsoft. Então, os empregos de alta qualidade também serão finitos, como os grandes engenheiros de comunicação. Só haverá necessidade de dois mil deles, e não de cem mil. Uns poucos gênios ficarão encarregados desses empregos. O que você encontra na literatura? Alguns mostrando o problema do desemprego e outros dizendo que o problema previsto pela substituição da força de trabalho pela automação não vai acontecer. Assim como a sociedade industrial criou novos tipos de empregos e resolveu o problema, a sociedade digital também vai fazer. Mas isso é um wishful thinking. Toda indicação vai no sentido contrário a esse.

A sociedade digital será de imensa abundância, dizem os teóricos. Não há efeito decrescente da produção. Tudo amortizado. É certo que será um mundo com 50% de desempregados. Mas, se houver um programa de renda mínima, com tudo tão barato, dizem os teóricos, estará tudo resolvido. Especulativamente podemos imaginar que a renda mínima deverá ser aquela que permita ao indivíduo adquirir toda a nova cesta de produtos cujo consumo será indispensável para a manutenção e expansão das próprias empresas monopolistas. Assim viverão os desempregados da sociedade digital. O problema, penso, é que esqueceram de como será um mundo no qual metade das pessoas passa a vida sem ter o que fazer o dia inteiro. Seguramente não vai ser uma beleza. A internet vai dar os jogos eletrônicos para que a pessoa passe o dia inteiro vendo filmes e pornografia. Pior ainda. Será o mundo em que 95% da população se virarão com R$ 2 mil por mês e os outros 5% dominarão o planeta.

Esse é um mundo no qual a esquerda do século XX não tem mais lugar. Por isso, toda esquerda no mundo hoje é obsoleta, conservadora e reacionária. Ela se organizou em termos de pensamento e ação no século XIX para concorrer com o liberalismo em termos de imaginário futuro de organização social. O liberalismo oferecia o progresso; a esquerda oferecia a revolução pela ruptura. A queda do muro de Berlim destruiu esse projeto alternativo. A esquerda desde então tem estado na defensiva e não é à toa que sua palavra de ordem seja “resistência”.

A esquerda precisa se despedir do século XX e investigar como recompor o projeto de solidariedade dentro das novas condições. Há que se repensar a sua relação da ação coletiva com o tempo, de como é que se organiza temporalmente a ação coletiva em um esquema explicativo qualquer. É necessário levar em consideração o fato de que, com o crescente monopólio das grandes empresas no plano internacional e o arsenal infinito de informações que elas detêm sobre cada indivíduo, não haverá liberdade de escolha que preserve a autonomia ou a liberdade que as instituições políticas formalmente resguardam aos cidadãos. As esquerdas vão ter de repensar, se reinventar, deixar o conservadorismo, se refundar.

Outro desafio será, no plano da ação coletiva, aquele referente crescente à fragmentação das bandeiras, provocado pela individualização. Porque, se todo mundo é indivíduo, não existe mais massa. Se todos têm acesso a um mínimo de informação, maximizando suas diferenças e preferências individuais, não tem mais massa. A CUT já não faz mais greve. As últimas foram vergonhosas. A não ser em situações muito específicas e imprevisíveis, não vai haver mais movimento de massa. O fenômeno pode ser percebido não só pela substituição da identidade de classe por aquela de identidade étnica ou de gênero, nos atuais movimentos de esquerda, mas pelo seu espantoso grau de fragmentação. Não há um movimento feminista, mas dez. Os partidos vão se fragmentando até que sejam tantos quanto forem os habitantes do país. Também aí o grau de solidariedade se reduziu bastante.

Os participantes das jornadas de junho de 2013 não tinham nada em comum; era uma coalizão de veto. Quer dizer, a ação coletiva vai indo para o brejo. Sem dúvida, sempre haverá conflito, e vivemos hoje um alto grau de polarização. Mas a era digital parece elevar o grau de polarização ao mesmo tempo em que reduz as possibilidades de alternativa substantiva. O grau de politização aumenta, mas ninguém vai para a rua.

A facilidade do contato com o outro aumenta com a era digital, mas, paradoxalmente, essa facilidade reduz cada vez mais a necessidade de investimento emocional na constituição de amizades duradouras; porque, como hoje em dia ninguém mais corre o risco de viver na solidão e se tornou muito fácil encontrar pessoas com o mesmo perfil que o seu, tornou-se igualmente fácil descartá-las ou substituí-las na primeira oportunidade em que os interesses divergirem. Na sociedade intransitiva, a amizade muda de sentido. Lembre-se do que era a amizade no século XIX, expressa naquela subjetividade e isolamento profundos da correspondência epistolar. As pessoas viviam em função da família; a intimidade era uma esfera muito resguardada. Elas tinham poucos amigos; as oportunidades de contato eram raras, e ainda mais, as expressões de afeto. Mas o pouco que havia era de uma densidade transcendental. Tome-se, por exemplo, a forma por que Machado de Assis descreve o nível de envolvimento emocional que havia na amizade de dois solitários como eram Bentinho e Escobar em “Dom Casmurro”.

Hoje em dia multiplicou-se a possibilidade de se ter amigos por um milhão, mas as relações que se constituem são incomparavelmente mais rasas e não podem se tornar, elas também, insumos de solidariedade, porque predomina exclusivamente no vínculo a medida do interesse pessoal. Não se dá nada em público. Esse universo é privado. Ou é um público volátil, que se organiza para atingir fins muito específicos e desaparece depois. Mesmo o chamado crowdfunding é privado. Ali não se colegiam, não se compartilham um grupo com objetivos. Não existem mais aqueles grandes projetos totais, que implicavam homogeneidade na forma de comer, vestir ou cortar o cabelo.

O espaço público está acabando, tal como o conhecemos nos últimos séculos. É isso que faz com que essa comunidade de comunicação não tenha nenhum impacto coletivo; que ela não produza nada. A dimensão pública da vida exige que se vá para a rua, interferir na vida de terceiros que não estavam esperando essa intervenção. Hoje estão acabando com os canais pelos quais uma pessoa entrava em relação com o outro.”

Depoimento a Christian Lynch e Luiz Cesar Faro | Edição 79, 2017



A seguir, trecho inédito do primeiro capítulo do livro “Sociedade Intransitiva – Arqueologia Constitucional do Século XXI”, do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, obra ainda em fase de realização.

A SOCIEDADE INTRANSITIVA – ARQUEOLOGIA CONSTITUCIONAL DO SÉCULO XXI

Wanderley Guilherme dos Santos

O ARGUMENTO SINTÉTICO
A Constituição que a prática política universal está debatendo, capítulo a capítulo, artigos e parágrafos, regerá o período de infância das sociedades intransitivas, de que ultrapassamos o portal em ritmo de incomparável violência social, pelo vulto das vítimas e o ineditismo da indisfarçada advocacia jornalística e da pressão dos grupos de alta renda. Ineditismo não tanto pelos cassetetes e bombas de gás de pimenta, mas pela torrente de decisões governamentais legalmente adotadas, dando fim a mais de um milênio de permanente negociação entre o altruísmo, a apatia e o interesse egocêntrico. O recurso a ditaduras tradicionais revela-se antes como peculiaridades locais do que exigência operacional das políticas impostas. Época esta, nascitura, provê disciplina severa, ainda que imprevisível e volúvel em suas regras, sem prejuízo de punições com consequências até letais. Estou me referindo à brutalidade com que são governadas, depois da crise mundial iniciada em 2008, as classes médias dependentes do setor de serviços e os trabalhadores do setor industrial da economia de todas as democracias contemporâneas. A consistência do instante não distingue entre democracias ricas, remediadas ou pobres, do norte ou do sul, historicamente estabelecidas ou de instalação recente.

A descontinuidade civilizatória é a mesma em todas as latitudes. A sociedade industrial exauriu-se. Assim como as elites asfixiaram sem substituir sociedades economicamente arcaicas e politicamente oligárquicas e colonizadas, impondo-lhes, para ajustamento ao tempo histórico, retorcidas instituições da civilização industrial, do mesmo modo vários países, no presente, ingressam em etapa revolucionária de produção da vida, inteiramente desprovidos de infraestrutura material, social e cultural. Mas a adesão ao arcabouço da sociedade intransitiva é inevitável.

O projeto constitucional das sociedades intransitivas conta com a vantagem original de educar cidadãos crentes de que somente aderindo às normas constitucionais poderão opor-se a elas com alguma eficácia. Garantindo sua longevidade, portanto, pois inexiste uma “constituição” competidora à do status quo. Foi pela singularidade de admitir manifestações anunciando a urgência de superá-la que a democracia consagrou-se na comparação com organizações monárquicas e oligárquicas anteriores. Essa singularidade desapareceu.

Obviamente, tiranias nunca toleraram a propaganda de que deviam ser destruídas. Mas hoje, o acúmulo de minúsculas infrações legou ao sistema democrático-capitalista o condão de conseguir ajustar desapontamentos individuais, ou de grupos, aos filtros que os traduzem em demandas não contestatárias. Não há mais uma alternativa em disponibilidade. A periferia das relevantes arenas de poder abriga, sem dúvida, minúsculos agrupamentos, partidos estéreis, intelectuais visionários, preservados em seus direitos de oposição revolucionária. Em democracias-capitalistas atuais, é a impotência de todos que lhes assegura a legalidade no exercício do direito de oposição.

Na essência, esgota-se o combate intestino, núcleo da sociedade industrial, entre simpatia, empatia, solidariedade, egoísmo, indiferença, traição, ambição, ressentimento, frustração, torpezas – o inteiro catálogo bíblico de perversões e santidades, acrescido da galeria de heróis, heroínas, vilões e vilãs das tragédias, e ainda incorporando os censos de vilanias preparados por Thomas Hobbes, Maquiavel, os doutores da Igreja Católica e pregadores africanos, americanos, europeus e asiáticos de todas as denominações. A continuar, o combate seria, por certo, um épico sem fim natural, mantendo-se desconhecida a extensão do cardápio completo de mazelas ou generosidades que a humanidade teria a oportunidade de autorizar. E, contudo, a opulência dos futuros livros santos e opúsculos de contrição das sociedades intransitivas transformarão em singelos resumos os monumentais cartapácios religiosos indianos e em manual de primeiras letras o Velho e o Novo Testamento do Ocidente. As sementes estão à mostra para cultivo dos próximos oficiantes, as futuras elites.

A hierarquia da sociedade intransitiva se enriquecerá como ocorreu com a ordem que a precedeu, adulta de milênios, desde a primeira cidade reconhecida, a de Úrkút, na Suméria, há quatro mil anos. Daí, atravessando eras de crescente sofisticação organizacional, até a forma que a disputa entre as fraternas empatia e solidariedade, frente às tentações da antipatia, à volúpia do egoísmo e à comodidade da indiferença, adquiriu no Renascimento. A Revolução Industrial distendeu a competição até a ruptura, com o incontestável triunfo do interesse sobre a simpatia, simbolicamente celebrado na derrocada do Muro de Berlim, em novembro de 1989. Fim da competição.

Compaixão, simpatia e solidariedade pertencem à família de vocábulos que, distinguindo emoções singulares nas pipetas da subjetividade, se contrapõem, por definição e consequências, a esse outro ingrediente emocional: a satisfação do próprio interesse. Os primeiros concebem o “Outro” como sujeito receptor final dos gestos e palavras que lhes são dirigidos. No sonho de Immanuel Kant o “Outro” deve ser sempre tomado como fim, jamais como meio. Já o “interesse” de Jeremy Bentham e do iluminista escocês Adam Smith percebe o “Outro” como alavanca, suporte auxiliar à sua satisfação e contentamento. Se, antes, o Muro impunha separação física entre pessoas, sua espetacular derrubada fixou-o como metonímico monumento ao extermínio dos princípios de solidariedade e altruísmo. Contaminando todas as residências, túneis e cavernas das sociedades manufatureiras, as oficinas e máquinas produtivas, as vorazes moradas financeiras, todas ofegantes ao término dos últimos três séculos de ansiedade, a tensão finalmente explodiu e o princípio egocêntrico prevaleceu. Os espasmos de solidariedade, estes, foram constrangidos à periferia das relações econômicas, políticas e sociais. É a essa ruptura de magníficas proporções que a queda do Muro de Berlim remete por metonímia. A catadura ditatorial do experimento soviético escondeu a transcendência histórica da descontinuidade.

Simpatia, empatia e solidariedade ocupam modestas posições nas investigações sociais. Preservadas nos debates sobre a racionalidade do altruísmo na secura improdutiva da teoria dos jogos, minguam as hipóteses sobre as consequências maiores e de prazo longo de emoções como “apatia”, “antipatia” e “indiferença” distribuídas pelos milhões de pessoas acantonadas nas sociedades hodiernas. A ebulição do mundo contemporâneo, com a aleatória recorrência de belicosas manifestações coletivas, obriga à retomada das reflexões teóricas sobre os estimulantes de integração, tanto quanto os estampidos da desintegração social.

Enquanto as noções positivas de simpatia, empatia e solidariedade subentendem ações cooperativas, as noções antônimas são dadas como inócuas na construção de teias de relações sociais, patrocinando somente desvarios, desordem e excitação caótica. Contudo, a apatia é substancialmente distinta da antipatia em suas consequências comunitárias, bem como a antipatia difere da noção de conflito, particularmente do conflito aberto, posto que nem mesmo o conflito político, tendo o poder como prêmio, hospeda automaticamente o sentimento de antipatia, nem este se exprime exclusivamente por meio de confrontos. Se o catálogo de emoções em disputa pelo controle da subjetividade dos agentes deve algo à genética, não está provado tratar-se de débito exclusivo. No mundo comum a mais de um ego há razões que alimentam ora esta ora aquela emoção. Em algum momento antepassado se há de indiciar um fenômeno de exemplar grandeza como marco fundador do fio da história. Nesta investigação sobre a natureza e gênese da sociedade intransitiva, adota-se a moeda como o denominador universal das relações entre pessoas, grupos e nações.

A introdução da moeda produz irremediável ruptura entre o valor de uso e o valor de troca de todos os objetos de consumo, dos mais materialmente modestos aos mais simbolicamente preciosos. Moedas podem ser tribais, nacionais, sonantes ou de papel, mas a descontinuidade entre um e outro valor é universal. O fundamento do valor de uso é a simpatia e emoções aparentadas (solidariedade, compaixão, generosidade, caridade); o fundamento do valor de troca é o interesse e aparentados (segurança, avareza, egoísmo, ambição). Admitir a circulação simultânea das duas pautas de emoções pela subjetividade dos seres humanos, obrigando-os a permanente cálculo satisfazendo a equação simpatia/interesse = 1, ou vice-versa, não invalida a premissa operacional do mundo da mercadoria. Desde o início da tradução monetária, em sua trajetória para a tudo transfigurar, até o intervalo de tempo entre 1980 e 2010, sucederam-se os estratagemas visando a conciliar os dois valores – equivale a dizer, os dois conjuntos de emoções –, demonstrá-los compatíveis e em equilíbrios estáveis. Em vão. Hoje, a supremacia do interesse e do valor de troca é institucionalmente indisputada, e a equação prático-normativa interesse/simpatia = 1 desapareceu.

O poder libertário da subjetividade se manifesta na adesão a epistemologias subversivas, despindo a hegemonia do dinheiro de ritual sacralidade ou natural inevitabilidade. Em tese, um mundo alternativo é possível; por conseguinte, viabilizar sua materialização é matéria de pura tecnologia produtiva. A atomização radical dos indivíduos, desconsiderados os nichos sem poder transformativo, moldou a sociedade em mecânico império do privado. A ordem pública não indica o comum, o ordinário, mas a ordem jurídica, ou seja, o universo do conflito, sem lugar para a cooperação gratuita. A ordem pública contemporânea expressa a intransitividade das personas que a constituem.

Exponho, a seguir, as cláusulas pétreas da carta constitucional das sociedades intransitivas:

1) o amigo do meu amigo não é necessariamente meu amigo;
2) o inimigo do meu amigo não é necessariamente meu inimigo;
3) o amigo de meu inimigo não é necessariamente meu inimigo;
4) o inimigo do meu inimigo não é necessariamente meu amigo;
5) o amigo de meu amigo pode me ser indiferente;
6) o inimigo de meu amigo pode me ser indiferente;
7) o amigo do meu inimigo pode me ser indiferente;
8) o inimigo do meu inimigo pode me ser indiferente;
9) o indiferente ao meu amigo pode ser meu amigo;
10) o indiferente ao meu amigo pode ser meu inimigo;
11) o indiferente ao meu inimigo pode ser meu amigo;
12) o indiferente ao meu inimigo pode ser meu inimigo;

Naturalmente, disponho da liberdade de ser indiferente a amigo, inimigo ou outros indiferentes, preferindo o estatuto de mônada solitária, mas esta opção exclui a relação triangular sobre a qual incide a intransitividade – na realidade, ela contradiz a noção mesma de comunidade.

Nesta sociedade novidadeira, todas as coalizões são possíveis, visto que:

13) o amigo do meu amigo pode ser eventualmente meu amigo ou inimigo;
14) o inimigo do meu amigo pode ser eventualmente meu inimigo ou meu amigo;
15) o amigo de meu inimigo pode ser eventualmente meu inimigo ou amigo;
16) o inimigo do meu inimigo pode ser eventualmente meu amigo ou inimigo.

Em universo transitivo, se A é # de B, e se B é # de C, então A é # de C. O sinal # representa toda e qualquer de associação entre A, B e C, desde altura e peso de indivíduos à hierarquia de corporações e países. Sociedades transitivas se movem segundo a sólida e reiterada expectativa de que as relações que as associam obedecem à racionalidade básica. Existem, sem dúvida, violações às regras de transitividade, tanto no mundo dos negócios quanto no das relações entre indivíduos. O poder jurídico, em geral, dispõe de recursos para punir, na área dos contratos públicos, os sabotadores das expectativas consagradas, tácita ou documentalmente admitidas. No mundo privado, prevalecem os juízos condenatórios e degradantes daqueles caídos na tentação de trair regras que, se desidratadas, ofendem aos traídos. Mais do que os prejuízos materiais e emocionais atingindo vítimas específicas, a violação da transitividade fundamental fere seriamente a estabilidade do grupo considerado, cujos laços de solidariedade se diluiriam em sequência a impunes desafios à moral coletiva.

É sobre tal fundamento de confiança que se sustentam os acordos, alianças e coalizões entre pessoas, grupos e organizações, quando agem de comum acordo, ou seja, quando procedem a ações coletivas. Maior ou menor frequência na quebra de tais regras permite classificar as comunidades em hierarquias de litigiosidade. Com volumoso ou modesto currículo de litigiosidade, contudo, é de universal validade a proposição de que, em sociedades transitivas, o fundamento básico da comunidade mantém sólida supremacia hegemônica em relação à incidência de quebras de conduta, pública ou privada. A clandestina ou expressa manifestação dos conflitos intransitivos, minoritários, ainda que em sociedades de elevada litigiosidade comparativa, são impotentes para contaminar e comprometer a estabilidade e previsibilidade macroscópica dos grandes agregados populacionais. As regras de transitividade e intransitividade, incluindo episódicas substituições de umas por outras, dispõem sobre a evolução normal das sociedades, nas quais a propriedade do adjetivo “normal” se refere à ausência de violência generalizada na competição entre distintos conjuntos de valores.

Outro é o solo maleável e surpreendente sobre o qual vivem as sociedades intransitivas. As conexões vigentes entre A, B e C no dia anterior continuariam, em tese, em vigor, mas não será incomum que tenham sido essencialmente alteradas. O ineditismo histórico de tal fenômeno consiste em que cada indivíduo abrigado em tais comunidades não prefere, em absoluto, que a ordem do mundo, por assim dizer, seja “desordenada”, imprevisível, repleta de fraturas nas conexões entre indivíduos e grupos. De modo radicalmente oposto aos naturais do mundo transitivo, que são adeptos incondicionais da estrutura de conectividades, os nativos das sociedades intransitivas teriam preferência por outra dinâmica de relacionamentos. Todavia, lado trágico da supremacia intransitiva, nem mesmo a preferência majoritária de seus agentes é apta para transfigurar o mundo em que vivem. O poder intangível da instabilidade das normas é superior à capacidade dos agentes privados em substituí-la por acreditada previsibilidade. Embora paradoxal, a contrariedade existencial dos agentes resulta de inescapável drama expressando o dilaceramento subjetivo que lhes é imposto pela objetividade intransitiva.

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