Renê Garcia, Lauro Vieira e Jack Schechtman

Economistas

ECONOMISTAS DA FGV ENTREVISTAM LORDE J. M. KEYNES

Uma certa apreensão toma conta do ambiente. São 17 horas e 2 minutos. É hora do english tea. Estamos nós aqui, Renê Garcia, Lauro Vieira de Faria e Jack Schechtman, reunidos em volta de boa porcelana. Estranho; afinal, John Maynard nunca tinha se atrasado antes. Da mesma forma que as outras vezes, colocamos, próximo da mesa de chá, um botijão de Taittinger de boa safra. Quando o assunto é etilismo, Lorde Keynes faz questão de discrição. Mas será que ele viria? Ou nos abandonaria de vez, conforme promessa inúmeras vezes repetida? O silêncio cresce na sala. O único ruído é o do nervosismo. Se não sabem, a tensão tem o seu barulho próprio. Mas, uma suave brisa, quase um respiro, traz a fragrância do vinho espumante e prenuncia a sua iminente chegada.

O espectro do economista está bem mais esmaecido do que no último encontro. Keynes parece realmente estar sumindo do mundo. Ele senta-se com suavidade no sofá da sala, que é para onde nos dirigimos também. Há formalidade e cerimônia no ar. O ectoplasma de John Maynard procura o balde do champanhe com o olhar. Encontrado o dito, faz um sinal para que comecemos a conversação. Tem início então a entrevista com Keynes.

Lorde Keynes, V.Sa. tinha noção, ou ideia, do alcance da vossa obra no tempo e no espaço?

Eu nunca tive dúvida, que estava desenvolvendo uma interpretação original e revolucionária do mundo, a teoria econômica, e a economia política do século XX seria marcada pela minha contribuição. Há inclusive um episódio em 1934, que revela minha percepção do alcance de minha obra: em correspondência com meu amigo George B. Shaw, teci comentários sobre o meu estado de espírito à época, afirmei que me encontrava muito angustiado e em período de forte introspecção, pois estava escrevendo uma obra que iria revolucionar a teoria econômica e a percepção do mundo sobre os assuntos e os problemas econômicos.

O senhor poderia então nos dizer que ingredientes devem fazer parte da composição ou a fórmula para ser um bom economista?

Eu não me considero um economista, pelo menos não sou um profissional de economia, sou quando muito um pensador de economia, alguém que pensa de forma integrada, mas acredito que o processo de formação intelectual de um economista deve partir de uma profunda análise sobre a natureza das questões econômicas. O processo começa por uma avaliação das causas e efeitos; conhecer história, matemática, filosofia e o fundamental é ter uma profunda intuição econômica e uma combinação pouco comum entre inspiração, no sentido de intuição e rigor científico. É preciso que o estudioso de economia mantenha a mente sempre aberta para o quadro mutante das experiências e esteja sempre ligado na realidade, para que assim seja capaz de aplicar constantemente à sua interpretação corrente os princípios do pensamento acadêmico – a economia é uma ciência que ajuda a pensar em termos gerais, em modelos, pensar em economia e o exercício de uma escolha de e entre modelos alternativos, aliada à arte de selecionar desta cesta de ferramentas aquelas que são as mais pertinentes ou que melhor se encaixam com o mundo contemporâneo.

Falando assim parece fácil, mas qual o motivo para termos tão poucos bons economistas?

Meu caro, vocês latinos como sempre são muitos afetados pelas palavras, para lhe ser mais claro. Os bons economistas são raros porque o dom de usar uma “observação”, entendê-la, compreender todo o conjunto de informações para em seguida processar e transformar essa massa em algo concreto é difícil, sendo portanto uma tarefa complexa, pois, adicionalmente a essa fase, é necessário que o economista tenha uma grande capacidade para que, a partir das informações obtidas, esse ser pensante seja capaz de escolher os modelos adequados ou criar alternativos… e usá-los de forma consistente; talvez seja essa a razão para a explicação do porquê: produzir bons economistas em academias seja um evento tão raro e difícil.

Sir, vossa obra virou uma verdadeira bíblia para alguns seguidores. Correntes de pensamento e escolas lutam para expressar aquilo que entendem como sendo o significado preciso das ideias de V.Sa., ou seja, seguem suas proposições ao pé da letra. Qual a sua opinião sobre vosso legado intelectual?

Esse fundamentalismo travestido de iconografia perturba-me e chega a irritar-me, pois tive alunos de diversos matizes ideológicos e políticos. Diante de todos sempre guiei meus ensinamentos por uma postura de seriedade com serenidade. Nunca quis ou desejei criar uma seita, ou uma nova religião; todo o conteúdo de minha obra foi voltado para a compreensão do capitalismo; e posso até afirmar que o que desejei foi criar antídotos ou anticorpos para as doenças do capitalismo. Sou um liberal no sentido das ideias e um conservador nas ações de política. A imbecilidade de alguns políticos e o apego formal à tecnoburocracia dos escalões do serviço público norte-americano é que não entenderam o conjunto de minhas propostas nem a abrangência e o significado de minhas recomendações. Em minha conversa com Roosevelt, ficou evidente a total incapacidade e incompreensão da elite norte-americana para os fenômenos do mundo real. Voltando ao tema central da questão, eu acredito, aliás já escrevi, que todos somos escravos de filósofos e economistas, vivos ou mortos, e que o núcleo do pensamento das principais indagações e a forma de entender o mundo têm poucas mudanças no curso da História. Portanto não considero que deveria ser tido como o fundador de uma escola ou um grande ideólogo. Minha única preocupação é a saúde do capitalismo e a defesa dos mecanismos de mercado. O que não quer dizer que algumas vezes, por necessidade ou por desvios de curso, não possamos atuar para limitar o mercado, ou ainda para intervir na atividade econômica para pôr a economia de volta aos trilhos. Nesse aspecto, admito minha contribuição e o papel da Teoria Geral na reversão de conceitos, criei uma obra que de fato definiu novos paradigmas. Como escreveu um italiano laureado com o Nobel em economia, Franco Modigliani – agora todos somos keynesianos. Contudo, quero que todos saibam, e definitivamente, que: eu não deixei nem sou responsável pela obra de nenhum suposto herdeiro, seja legítimo ou bastardo.

Lorde Keynes, alternando o tema da nossa tertúlia, como V.Sa. vê o papel dos bancos e a verdadeira tirania do mercado financeiro sobre a economia mundial. O sistema financeiro hoje rege soberanamente o destino de países. Como o senhor analisa a questão?

Esse fenômeno não é novo, de fato ele é a essência do capitalismo financeiro; se tomarmos o final do século XIX, vamos observar a influência da City de Londres sobre o destino e o fluxo financeiro do mundo, De fato só para os senhores terem uma ideia dos números, entre 1890 e 1910 cerca de dois terços das companhias norte-americanas eram negociadas na Bolsa de Londres, e 70% do capital do mundo estavam depositados nos bancos ingleses. E praticamente 100% dos seguros eram feitos pelo Lloyds. A verdadeira globalização ocorreu em Londres. Quanto ao papel dos bancos e dos banqueiros, minha opinião sobre essa gente não mudou nos últimos setenta anos. Continuo achando que a atividade bancária é movida pela ganância e pelo lucro fácil. Os jovens operadores de New York e de Londres são movidos pela chama do dinheiro, pela busca vil e quase que servil do bônus. Se para tanto, países devem ser destruídos, bandas cambiais atropeladas – não que não mereçam ser destruídos, tudo pela remuneração extra. Eu até acho que de fato essas pessoas devam ser muito bem remuneradas, pois muitos desses indivíduos são atraídos para esses mercados e para essas atividades, motivados pelo amor ao jogo, pela natureza dominadora de suas personalidades, quase que por suas patologias; diria que são verdadeiros psicopatas. Se suas energias não encontrarem uma saída ganhando dinheiro, podem voltar-se para carreiras que envolvam crueldade gratuita e desenfreada. É muito melhor absorvê-los na City ou em Wall Street, do que deixá-los livres para praticarem toda sorte de ações ou até mesmo no comando do crime organizado.

Mas, afinal, para ganhar dinheiro: bolsa, juros ou cambio?

Um homem de bem não deve perder mais de 20 minutos por dia se dedicando a tais atividades. Dito isso, prefiro a bolsa, naturalmente, pois é lá que pulsa o capitalismo. Ademais, onde podemos encontrar um mercado em que ganham não os que apostam na mulher mais bela, como num concurso de miss, mas os que apostam naquela mulher que a maioria considera a mais bela? É, portanto, um mercado fascinante onde, para lucrar, não basta ter conhecimentos específicos de economia e finanças, mas também de política, história, sociologia, psicologia social e até ciências ocultas. Por exemplo: um grande banqueiro da City, amigo meu – não direi o nome em deferência à sua memória –, nunca tomava decisões importantes de negócios sem antes consultar uma famosa sensitiva.

Como V.Sa. vê a situação atual da economia internacional?

Vejo com preocupação, evidentemente. No espaço de poucos meses, a economia dos Estados Unidos passou de um crescimento vigoroso para uma virtual estagnação, as ações do setor de novas tecnologias desabaram mais de 50%, produzindo o temor de uma diminuição catastrófica das propensões a investir e a consumir. A segunda maior economia do globo, a do Japão, encontra-se há anos patinando entre a recessão e uma taxa medíocre de crescimento do PIB, devido a um processo similar de deflação dos preços das ações e dos imóveis. Na Europa, alguma prosperidade ainda se mantém, mas, desde muitos anos, nosso continente deixou de liderar a economia mundial. E, lamentavelmente, voltou a ter graves problemas de desemprego depois que os governos deixaram de lado minhas recomendações. Para completar o quadro negativo, a procura mundial por bens e serviços sofreu enorme redução devido ao colapso das paridades cambiais em diversos países emergentes, tanto na Ásia quanto na América Latina. Há, portanto, uma sincronia de crises que pode, de fato, levar a uma séria recessão mundial.

Essa recessão poderia se transformar numa depressão como a da década de 30?

Certamente. Tenho observado que alguns economistas mostram-se céticos quanto a essa possibilidade. De um lado, existem os que continuam acreditando cegamente nas políticas de mercado livre como o melhor remédio. Sobre a puerilidade dessa tese, não preciso mais me manifestar. Mas, de outro lado, existem aqueles para quem o governo pode quase tudo, o que não é absolutamente verdade. Aliás, continua incrível a capacidade de erro dos governos na área econômica. Veja-se o caso do Japão. Em meu último livro mencionei a possibilidade de, numa situação de depressão e incerteza, a política monetária ser inócua. Chamei a isso “armadilha da liquidez”. É justamente o que está ocorrendo no Japão, onde a taxa de juros caiu a zero, mas a economia não melhora (nesse momento, Lorde Keynes sacode a cabeça, como que num gesto de vaidade). Nesse caso, o remédio da expansão fiscal é, sem dúvida, o único adequado e deve ser usado numa dose diretamente proporcional à gravidade da doença. Infelizmente, as autoridades japonesas têm errado na intensidade das medidas, na sua tempestividade e na consistência dessas com as outras políticas estruturais. Em suma, a teoria das políticas contracíclicas que enunciei em 1936 pode ser entendida em linhas gerais por qualquer cérebro mediano, mas a sua compreensão profunda e implementação bem-sucedida não são para qualquer um.

Mas o governo japonês e os investidores argumentam que, com uma dívida pública de mais de 100% do PIB e um déficit fiscal de mais de 3%, não há possibilidade de continuar a expansão fiscal…

Bobagem. O problema aí é o financiamento dos gastos públicos numa situação em que, depois de dez anos de recessão ou estagnação econômica, há uma sólida expectativa de deflação. Não surpreende, pois, que a população desconfie dos ativos financeiros. Mas o fato é que ela ainda confia na moeda. Assim, a solução óbvia é o governo recomprar parte de seus títulos em poder do mercado e financiar parte dos gastos pela via da emissão de moeda. O governo se beneficiaria com isso, pois reduziria sua dívida, tornando-a palatável para os credores, e a população também seria beneficiada pois se manteria o estímulo ao consumo e ao investimento. Ademais, uma inflação moderada propiciada pelo aumento da quantidade de moeda seria bem-vinda, pois eliminaria a infeliz espiral da deflação com recessão e desemprego. Quando a situação é grave, tudo é válido. Uma vez, numa conjuntura de desemprego em massa na Grã-Bretanha, sugeri ao governo de meu país que contratasse trabalhadores para abrir buracos na terra e fechá-los em seguida. A prosperidade do Egito sob os faraós, com suas frenéticas construções de pirâmides e monumentos, é também uma brilhante demonstração da correção de minhas teorias.

Há, atualmente, uma impressão de grande desordem no sistema monetário internacional. O que senhor acha disso?

Não chegamos ainda aos extremos da década de 30 mas, de fato, a desordem monetária é evidente. Desde cedo percebi que o Acordo de Bretton Woods não seria tão maravilhoso quanto se pensava: o sistema tinha um viés deflacionário, pois dependia de uma relíquia bárbara, o ouro em paridade fixa com o dólar; o peso dos ajustes de balanço de pagamentos continuava a ser depositado unicamente sobre os países deficitários; e o sistema de taxas fixas de câmbio se tornou rígido demais devido à vaidade dos políticos e aos dividendos eleitorais (Keynes faz um parêntese e declara – “disseram-me que algo parecido ocorreu em seu país recentemente”). Mas, apesar disso, o acordo proporcionou 30 anos de expansão gloriosa do comércio internacional, das rendas e do emprego na maior parte dos países. Coisa muito diversa se vê hoje: o sistema atual apresenta uma tendência a extremos obviamente neuróticos – as moedas fortes não se ajustam, mas saltam violentamente entre si ao sabor de fluxos especulativos de capitais, e as moedas fracas só conseguem alguma estabilidade por meio de esquemas excessivamente rígidos, fadados ao insucesso. Veja-se o caso do peso argentino. Tudo isso fundamentado em velhas quimeras: as supostas virtudes estabilizadoras da especulação, os malefícios das intervenções dos bancos centrais, a possibilidade de isolamento das turbulências externas via taxas flexíveis de câmbio, os ganhos de credibilidade do padrão ouro etc. O que o mundo precisa é de um novo Bretton Woods que supere, ao mesmo tempo, as fragilidades tanto do padrão ouro-dólar quanto do atual período de taxas flexíveis e livre movimentação de capitais.

Mas, preto no branco, Lorde Keynes. Taxas fixas ou flutuantes de câmbio?

Sou a favor de taxas fixas de câmbio, mas ajustáveis de tempos em tempos. Taxas rígidas demais costumam ser recessivas e atraem a especulação desestabilizadora. O uso da taxa de juros acoplada a uma rígida paridade cambial é a mais perigosa técnica para a manutenção do equilíbrio que se pode imaginar. Isso significa eliminar completamente o objetivo de se ter taxas de juros consistentes com o pleno emprego em proveito da proteção da balança externa. Como na prática é impossível negligenciar o balanço de pagamentos, obriga-se a taxa interna de juros a flutuar ao sabor de forças cegas. Taxas flexíveis, por seu turno, criam volatilidade e incerteza desnecessárias e, portanto, prejudicam o desenvolvimento dos negócios internacionais e estão na raiz da transformação dos investidores de longo prazo em especuladores do dia a dia. Assim, como transformar beneméritos jogadores de bridge em cowboys viciados em pôquer.

Mas não foram justamente os capitais especulativos que explodiram o sistema de Bretton Woods e viabilizaram o sistema de câmbio flexível?

Não foi bem assim. Um dos grandes problemas de Bretton Woods foi a impossibilidade de obrigar os países credores e superavitários a revalorizarem suas moedas. Isto posto, todos os ajustamentos cambiais tinham de ser feitos pelos devedores, com evidente stress político. É um nonsense completo! Por que países que têm uma atitude sadia em relação ao dinheiro, usando-o para obter o conforto possível aqui e agora, na única vida que certamente temos, devem ser penalizados por outros que insistem em comportamentos irracionais? Dou como exemplo os japoneses, que se comprazem em entesourar e poupar para garantir a segurança dos tataranetos; e os alemães, que mantêm sistematicamente taxas elevadas de juros por temor, pânico, a qualquer inflação, por menor que seja. Não espanta que os preços nesses países caiam em relação aos do resto do mundo. No entanto, são os outros que têm de desvalorizar, e não esses senhores que devem revalorizar suas moedas. Minha proposta em Bretton Woods previa severas penalidades para tais países – não receberiam juros em suas posições credoras no FMI, os saldos em excesso na banca privada seriam obrigatoriamente transferidos ao Fundo e, caso persistisse o desvio, seriam forcados a revalorizar. Infelizmente, nada disso foi avante devido à patente obtusidade da delegação norte-americana. Quanto aos capitais, vejo com grande simpatia a proposta de um dos meus discípulos, James Tobin, dos governos aplicarem um imposto moderado sobre transações financeiras de curto prazo, de forma a lhes reduzir o giro, a liquidez e a ganância.

O senhor mudou de opinião? Pois da leitura de sua obra “Tratado sobre a Moeda”, a impressão que temos é que o senhor pensava de forma oposta.

Somente os imbecis, as mulas e os falsos profetas é que são dogmáticos e invariantes ao tempo. Para esse tipo, a dúvida não existe, pois pensam com base em preconceitos e verdades absolutas, não agem como se fossem cientistas; e como eu tenho sempre dúvidas, logo não sou um homem de um pensamento único. Posso me dá ao luxo de mudar alguns pontos de meu pensamento. De fato o que ocorreu foi uma evolução na minha forma de pensar, principalmente depois da publicação do “Tract on Monetary Reform”.Eu revi minhas convicções e meus modelos. Pois se os fatos mudam, eu também altero a minha forma de ver o mundo, E vocês, o que fazem…?

O senhor é conhecido como um patriota extremado. Como avalia a situação atual de seu país?

Em linhas gerais, a Inglaterra vai melhor agora. Ela sofreu, na década de 70, os excessos dos sindicatos que exigiam aumentos salariais incompatíveis com a evolução da produtividade e, portanto, geradores de inflação; e, na década de 80, excessos em sentido contrário, com Lady Thatcher sendo aconselhada por economistas defensores de uma teoria de fundo religioso, o monetarismo. Agora, tem-se uma situação mais equilibrada. Obviamente, a Grã-Bretanha não pode desejar retomar tão cedo a posição de absoluto destaque que teve durante dois séculos na cena internacional. Ela hoje necessita crucialmente estar integrada à Europa e ao resto do mundo de modo a obter os bens, serviços e capitais necessários à continuação de sua prosperidade. Porém, do ponto de vista inglês, uma coisa inteiramente descabida é a adesão à união monetária europeia e o fim da libra, que nos obrigaria a dançar conforme a música da Alemanha e, um pouco menos, da França. Cá entre nós, o euro é a média de coisas muito heterogêneas, ou seja, não significa nada.

E o Brasil, Lorde Keynes, tem jeito?

Não conheço adequadamente o seu país e, portanto, não penso que deva responder a essa pergunta. Sei que tenho seguidores meio fanáticos aqui, mas a eles aviso, não sou Deus nem santo.

Caro mestre, queira nos desculpar, mas, verdade seja dita, V.Sa. foi um grande especulador, inclusive seu mais recente biógrafo calculou um ganho de vinte milhões de dólares em suas operações nos mercados de juros e de ações, ao longo de dez anos, justamente no período que senhor era consultor do Departamento do Tesouro inglês. Contra fatos, meu Lorde, não existem argumentos.

[Pela primeira vez em nossa entrevista, Lorde Keynes mostra esboço de impaciência, contrai a tez, baixa a cabeça e desvia o olhar para a Baía de Guanabara. Todos observamos mudos a reação de Keynes. O clima é de visível constrangimento. O economista decide sorver um gole do vinho pura vita. Milagres acontecem após uma talagada do frisante néctar. O mestre volta a sorrir, e, ainda que não serenamente, recomeça a falar.]

Somente na cabeça de um latino-americano poderia passar uma ideia como essa. Primeiro, nessa época eu era consultor, não do Tesouro, mas do escritório que tratava dos assuntos das colônias, e não tinha nenhuma informação relevante, que fosse passível de utilização; segundo, de fato ganhei muito dinheiro, mas havia perdido muito nos anos anteriores; terceiro, um inglês bem-nascido jamais usaria informações obtidas no exercício de suas atividades públicas para ganhar dinheiro, isso é coisa de povos bárbaros.

[Buscando reconstruir a cordialidade perdida, falamos sobre as belezas do Rio de Janeiro. Nosso mestre, vetusto e impecável, não abre a guarda, em nenhum momento perde a pose. Mas, o champanhe trabalha por nós. Keynes afrouxa o semblante e sugere que reengatemos a conversa.]

V.Sa. poderia nos falar sobre vossa atividade cultural e literária, assim como as lembranças do grupo de Bloomsbury.

De fato nosso grupo era fantástico, Duncan Grant, Virginia Woolf, Lytton Strachey, Dora Carrington. Todos nós vivemos intensamente nossas vidas, vivemos no limite, sem reservas ou qualquer tipo de restrições derivadas da ética vitoriana. Tudo que era belo e bom era válido, tudo que era possível ser feito, fizemos, tivemos momentos incríveis, fortes lembranças, grandes paixões; a juventude realmente é gloriosa. Devo muito de minha formação intelectual a meus amigos; a oportunidade de conviver com o melhor de uma geração é uma verdadeira dádiva.

Meu Lorde, novamente somos impelidos a pedir desculpas à V.Sa., mas gostaríamos de lhe perguntar sobre dois temas que julgamos importantes para o resgate da História. O primeiro diz respeito à vossa escolha sexual. O segundo trata de uma questão polêmica: é atribuído à V.Sa. a influência sobre o Departamento de Tesouro para a concessão de benefícios e subsídios aos artistas em plena Segunda Guerra Mundial.

Eu que agradeço a oportunidade para poder defender-me das acusações de detratores. Há um louco chamado Zygmund Dobbs, que escreveu um artigo, disponível na web, cujo título é “Sugar Keynes”, que trata-me como um verdadeiro devasso, um libertino, um animal do sexo. Todos sabemos a fama dos ingleses quanto ao assunto, não preciso me alongar nessa matéria; contudo, é bom que todos saibam, de uma vez, que minha vida privada foi totalmente pública, nunca escondi minhas preferências, nem meus desejos. Meu biógrafo, Lorde Robert Skidelsky, revela todos os fatos de minha vida, em sua plenitude. Quanto ao segundo ponto em sua pergunta, devo confessar que, de fato, ajudei na aprovação da lei que concedeu benefício fiscal aos artistas. Estávamos no Reino Unido sob bombardeio alemão, portanto, sob forte pressão psicológica e baixa autoestima, daí a importância da atividade cultural, para minimizar os efeitos devastadores do horror da guerra; é perfeitamente racional.

[Nesse ponto da entrevista, já estamos bem mais relaxados. Nosso empenho em criar um ambiente amável e os eflúvios etílicos permitem algumas ousadias. Indagamos se poderíamos fazer uma série de perguntas curtas, um pingue-pongue ou bate-bola, conforme se convencionou chamar na mídia convencional. Keynes concorda. Então, é para já.]

Um “Homem”?
Duncan Grant, talento e beleza inenarráveis…

Uma “Mulher”?
Lydia Lopokova (a única).

Uma obra?
“A teoria geral do emprego, do juro e da moeda”.

Uma música?
Uma noite na Tunísia.

Um arrependimento?
Não ter tomado mais champanhe.

Uma arte?
O balé.

Uma aberração?
O atual FMI.

Uma biografia?
A minha, é óbvio.

Um biógrafo?
O meu, Lorde Robert Skidelsky.

Uma tentação?
Há uma frase de Oscar Wilde que diz tudo: “A melhor forma de se livrar de uma tentação é ceder a ela”.

Um prazer?
Jogos de cartas com meus amigos do Bloomsbury Group.

Um economista brilhante?
Alfred Marshall.

Um opositor respeitável?
Arthur Pigou.

Uma saudade?
Algumas noites na Tunísia.

Um jovem economista promissor em seu tempo?
A safra era muito boa, mas eu acho que John Hicks merece a referência pelo esforço na formalização de minhas ideias.

Um economista ainda vivo?
Kenneth Arrow e Paul Samuelson, dos Estados Unidos, são dois economistas realmente brilhantes. Na Inglaterra temos grandes cabeças, mas nenhum sol.

Uma área do conhecimento?
A matemática e a filosofia.

Um país?
Inglaterra, of course.

Um lugar para estudar economia?
Cambridge.

Uma religião?
Sou agnóstico.

Com quem o senhor não tomaria um chá das cinco?
Milton Friedman.

O segredo para ser um bom economista?
Intuição feminina com lógica masculina.

O segredo do sucesso?
“Ver o mundo em um grão de areia… e a eternidade em uma hora”.

Uma frase?
“No longo prazo estaremos todos mortos”.

O dinheiro compra…?
Prefiro dizer ele serve para…

E o ouro?
[Quando a relíquia bárbara é mencionada, sentimos que alguma coisa se partiu. Um baque seco soa em algum lugar. Todos nos sentimos contraídos, tensionados. Keynes parece querer se levantar. Seu rosto está quase imperceptível. O espectro vai tornando-se invisível. Nervosos e prostrados em perplexidade, perguntamos ao querido mestre o que fazer, o que fazer…?]

Resolvido a questão básica da subsistência, recomendo a todos, vivam e deixem os outros viverem, de preferência com muito prazer, saber e sabor.

E fez-se o silêncio. Na sala, agora, só os três economistas, relutantes em acreditar no momento recém-vivido e já lamentando as dúvidas ingratas que o seu materialismo perverso trazia sobre o instante passado. Fazer o quê? Acabar o champanhe, certamente. E talvez, quem sabe, passar a vista já com desabrida saudade sobre um exemplar da “Teoria Geral”, colocado à mesa, propositalmente, ao alcance visual do mestre. Aberto o compêndio, eis que na folha de rosto, bem lá no local reservado às dedicatórias, estava escrito com magistral caligrafia de época:

“Para os amigos da FGV, não obstante algumas ressalvas ao comportamento de alguns no passado, meus sinceros agradecimentos pela oportunidade de expressão.

Respeitosamente,
JMK”

Edição 13, 2001

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