Paulo Guedes

Economista e empresário*

A SÍNDROME DE JUDAS ISCARIOTES (VULGO SOCIAL-DEMOCRACIA)

Responda rápido: por que a social-democracia, em todas as vezes que alcançou o poder, renunciou ao seu ideário programático em nome da adoção de uma doutrina econômica criticada como de direita, conservadora ou neoliberal? A pergunta embute a sua própria resposta: mudou, é claro, porque alcançou o poder.

A social-democracia, seja ela de punho de renda ou de chão de fábrica, não sofre de mimetismo crônico ou doença de caráter, mas sim de uma adolescência prolongada. Antes de tudo, trata-se de um híbrido, um pensamento de segunda geração. E seu entrar na fase adulta corresponde a lidar, na prática, com juros, câmbio, limite de crédito, orçamento e outras categorias, todas elas idealizadas enquanto o mundo se restringia a palavras de ordem, tertúlias estilosas e barricadas ideológicas. A instrumentalização da política econômica faz sangrar igualmente as mãos dos vendedores de ilusões. E quem diria que a História, essa parteira de conversões e reconversões, tão cara a marxistas e estruturalistas, fosse, ela mesma, pregar essa peça nos entusiastas do determinismo!

“As instituições e os pensamentos são produtos culturais evolucionários. Há fases em que há mesmo dissociações cognitivas, nas quais agrupamentos distintos pensam em direção oposta. Houve, no século passado, um combate hegemônico entre liberais e socialistas. Era uma disputa de raiz, com argumentos autênticos e polares. Curiosamente, o socialismo, engendrado como a grande utopia, fora classificado pela direita radical representada pelos economistas austríacos, liderados por Hayek, com a mesma admiração com que Marx se referiu ao capitalismo – um sistema que, depois de mil anos, tirou a humanidade de uma população estagnada em 200 milhões de habitantes, durante toda a Idade Média, e produziu coisas mais surpreendentes do que as catedrais góticas. O fascínio de Marx pela máquina de acumulação capitalista é notório e impressionante. Mas, da mesma maneira, os grandes economistas radicais austríacos referiam-se ao socialismo com grande admiração e alertavam que, se fosse subestimado, ele poderia destruir a civilização em função da sua péssima lógica econômica. Afinal, diziam eles, trata-se da mais bela ideia da Humanidade, consistindo na cooperação e na solidariedade juntas, sem a intermediação do poder de Deus ou qualquer outra categoria metafísica. Qual é a tragédia desse pensamento? Ela reside na doutrina econômica, que pode implodir a civilização. E explodiria, se a História, sempre ela, não tivesse acariciado o pensamento liberal com o aborto do pretenso e revolucionário capítulo final do centralismo democrático. Até evidência empírica em contrário, o Estado é ineficiente, e ponto final. Estou convencido de que a História produziu uma síntese. Do ponto de vista da geração de riquezas, das oportunidades e das liberdades, a vitória foi a da tradição da civilização ocidental. Isso porque a disputa entre sociedades abertas e fechadas – aqui eu me refiro ao sistema político e econômico – é milenar. Vamos voltar à Grécia Antiga, pautada pela briga entre Atenas e Esparta. Atenas era uma cidade comercial; democrática, até onde era possível, para os cidadãos, e Esparta era uma autarquia militarista, uma sociedade politicamente fechada, patriarcal. O embate não sorriu aos atenienses. E Esparta derrotou Atenas, o que deu início ao declínio das cidades gregas. Evidentemente, a civilização continuou com Alexandre da Macedônia, que transportou o mundo grego para o Oriente ao conquistar, inicialmente, a Pérsia. Este movimento de abrir e fechar, esta sístole e diástole, é secular. Mais recentemente assistimos ao colapso total de uma utopia, o socialismo, que detinha o monopólio da ideia de igualdade e justiça, mas que na realidade representava a conquista de corações e mentes para o propósito de uma sociedade fechada. É inegável, contudo, que houve um avanço. O Ocidente produziu o seguinte resumo epistemológico: em vez de termos a solidariedade pela religião ou imposta por um déspota esclarecido, sejamos socialistas, solidários. Isso foi um avanço para a Humanidade. A mensagem é esta: é impossível viver em uma sociedade em que há cidadãos excluídos. Essa ideia torna-se permanente e dominante no Ocidente.

Por outro lado, a forma de organização econômica é também uma produção do desenvolvimento institucional. Ninguém inventou a linguagem, um método de comunicação criado pelos homens. O mesmo vale para a moeda e o sistema de preços, as trocas, as instituições, os mercados. Na prática, são sistemas invisíveis de coordenação de esforços. Trata-se de uma conquista civilizatória. Sempre foi uma ingenuidade da esquerda imaginar que pode reinventar um processo milenar, imanente ao desenvolvimento humano. Não faltam exemplos que comprovam esse dinamismo. Veja as Cartas de Cortez, que mencionam os mercados astecas ou os textos da Grécia Antiga, que registram o florescimento de uma comunidade de comerciantes. Da mesma forma, o Mediterrâneo era uma rota comercial fantástica da Antiguidade. O fato histórico é um aparente paradoxo, ou seja, o capitalismo, que a esquerda resumiu como um modelo para exploração do homem pelo homem, chegou no momento em que o mundo era constituído basicamente por excluídos. E surgiu para resolver essa deficiência. A história do capitalismo, na verdade, é de inclusões. É contraditório, mas o capitalismo foi sempre o menos pior. Isso vale para a inclusão de pobres mineiros, que, embora morressem aos 14 ou 15 anos, nas minas de carvão da Inglaterra, viviam mais do que se ficassem no campo, pois ali morreriam de fome ainda mais cedo. O mesmo vale para os holandeses nas rotas comerciais e para os portugueses nas Índias Ocidentais. A inclusão se deu inicialmente pelo mercantilismo; tempos depois, pela fisiocracia e, mais à frente, através da industrialização. E agora estamos na sociedade do conhecimento, que é pós-industrial e contabiliza ainda inúmeros analfabetos. É claro que em cada uma dessas rodadas da História verificaram-se purgas, perdas de guerra. Mas o resultado sempre foi o avanço. Na sociedade aberta, o desafio pela inclusão é permanente. Agora mesmo, acabam de ser incluídas na grande teia capitalista universal a China, com um bilhão de indivíduos, e a Rússia, com 150 milhões.

A versão simplória de que meia dúzia de iluminados banqueiros ingleses, no século XVIII, de um lado, inventou o capitalismo, e, portanto, meia dúzia do outro lado, representada por Lênin, Mao Tsé-Tung e Stalin, iria reinventar a história da organização humana é de uma pobreza digna realmente de duas guerras mundiais no século passado. Os dois confrontos serviram para definir qual dos dois lados tinha razão. Vale registrar que havia muita proximidade entre o nacional-socialismo de Hitler e o socialismo stricto sensu de Stalin. E o Ocidente só ganhou porque teve do outro lado um sujeito truculento representado pela figura de Stalin. Foi um combate entre dois aliados prováveis – lembre-se de que Stalin adiou o contra-ataque à Alemanha por duas semanas, pois não acreditava que estava sendo agredido por Hitler, tamanha era a admiração e o interesse em continuar associado. Essa pequena e bendita traição nos tirou do caminho do totalitarismo. Digamos que foi também essa doce traição que permitiu, após duas guerras mundiais, chegar a uma síntese, que consiste, grosso modo, na civilização ocidental formada por democracia, respeito às leis, economia de mercado e ação social do Estado para produzir igualdade de oportunidades. Nos momentos em que falham os mecanismos descentralizados, representados pelo mercado, o Estado intervém, coordenando as ações. Reduzir a riqueza desse processo a uma fantasia conspiratória, em que de um lado estão os impérios e, de outro, a periferia, e a possibilidade de alternância, crescimento e progresso através do próprio mérito e compreensão está determinantemente impedida pelo jugo dos poderosos, é de uma pequenez tremenda.

O DISCURSO PERFEITO E A PRÁXIS ESPÚRIA

Sempre achei a esquerda brilhante nos diagnósticos. Exemplo: falta de proteção ao pobre sem acesso a mecanismos para ser incluído na sociedade. Perfeito. Renda concentrada. Certo. A pergunta que a esquerda nunca quis fazer é a seguinte: quem é o dono do cassino, o homem que gira toda essa máquina? É o Estado brasileiro! Não é possível ser contra toda essa parafernália de desigualdades e não atacar o produtor das desigualdades, que não são os mercados, que operam em cima dos dados. Como o nosso mapa cognitivo é ruim, operamos no escuro, sem os parâmetros adequados que conduzem ao sucesso. Conseguimos desmoralizar tudo o que funciona em qualquer lugar do mundo. Mas quero retornar à questão original: por que a social-democracia são duas, uma antes e outra depois do poder? Eu vou partir do momento pós-síntese, que é a queda do muro de Berlim. A social-democracia, na realidade, já fez, na prática, sua grande autocrítica. Basta citar Felipe González, na Espanha, ou François Mitterrand, na França, nos anos 1980, ou, na sequência, Tony Blair, na Inglaterra, e Fernando Henrique Cardoso, no Brasil. A sua realidade mudou, eles mudaram. Blair assumiu tornando o Banco Central independente. Mitterrand mandou varrer as estatais, privatizando a granel. O interessante é que grande parte desses homens continua negando o que fazem, negando sua conversão pragmática a uma forma de agir antagônica com sua pregação, na linha do que eu digo não é o que eu faço. Enquanto o mundo permanece dividido pela dicotomia entre ser uma sociedade aberta ou sociedade fechada, a opção desses senhores, que originalmente era pela linha de fronteira, por ficar em cima do muro, é a de fazer um catecismo e rezar uma missa diferente. Essa é a grande reflexão moderna. Os homens maduros dizem: abaixem as armas e concluiremos que é correto o ideal socialista quanto à falta de solidariedade, de oportunidade, de dignidade de vida, mas também é necessário admitir que intervenção estatal para nivelar oportunidades deve ser descentralizada. Isso está certo. Não podemos ter a dissonância cognitiva. Fernando Henrique adorava a expressão, mas era um dos principais portadores dessa doença. Uma coisa é dizer que a minha concepção política é de tradição de esquerda, de igualdade de oportunidade, outra é insistir na inevitável degeneração do modelo capitalista. Na verdade, o capitalismo mostra vigor, e não descobrimos uma alternativa possível. A alternativa intervencionista significa o fechamento político da sociedade – com perda das liberdades individuais – e recorrência a uma doutrina produtora de conhecidos desastres econômicos.

Mas qual seria o mandato ótimo de um social-democrata? Vamos às origens. Tudo começa com a experiência sueca. Uma grande porção de Estado social e uma pitada de livre mercado, tudo com um pretenso controle democrático e até reis e rainhas. A equação não fecha, é claro. Ao ser fiel ao ideário da igualdade de oportunidade, do nivelamento de arestas, o social-democrata recebe o mandato porque a sociedade assustada, inicialmente em vários países europeus, disse que errou a direção, apostando no centralismo, mas sabe que precisa mudar a rota. Vota na social-democracia, porque não mudará tão rapidamente que atordoe, nem tão lentamente que continue no buraco negro. O eleitor diz que não vai dar o mandato para um libertário ou para um capitalista selvagem. Dará o voto para quem promete ir tateando até encontrar um caminho seguro. Foi assim que Felipe González e François Mitterrand chegaram lá. Essa foi a primeira leva, que culmina com Tony Blair e Fernando Henrique Cardoso. Por não saberem manobrar essas novas categorias de difícil combinação, eles falharam miseravelmente em aspectos importantes. Por exemplo: enquanto os Estados Unidos criaram 17 milhões de empregos nas décadas de 1980 e 1990, a Europa criou zero emprego durante todo o reinado da social-democracia. Zero é algo dramático. Foi diagnosticado como a “Euroesclerose”e produziu um fenômeno: a ressurreição da direita com toda a força. Quando o marroquino ou o argelino chegava a Paris e conquistava algum emprego, significava que um francês perdera a vaga. Esse francês vota no Le Pen, que é contra a imigração e enaltece o nacionalismo. É a direita burra e radical. Mesmo o cidadão que não foi atingido diretamente pelo marroquino, quando não consegue o emprego, vira um assaltante no metrô em Paris. São dois movimentos distintos: o ressurgimento da direita radical vitimado pela perda de empregos em função da corrente migratória e a direita soft que votou por propostas de mercado: reformas da Previdência e nas estruturas sindicais. O sonho do Welfare State é muito bonito para sociedades estacionárias. Quando entram bilhões de chineses, indianos e coreanos no mercado competitivo global, criando disputa na indústria automobilística, do aço, do turismo, não é mais possível prometer o paraíso às elites mundiais. No passado, o trabalhador francês fazia parte desta elite.

CONFISSÕES DE UM AMERICANÓLATRA

O capitalismo tem algo que alguns apontam como um defeito, e eu considero uma virtude: o sistema não é conservador. O capitalismo detesta o patriarcado, o patrimonialismo, a aristocracia e o cartório. Por essa razão, constantemente fustiga privilégios e está sempre promovendo novas oportunidades, agora mesmo para centenas de milhões de chineses. Ele promove um turnover das suas próprias elites. Os Estados Unidos foram colônia da Inglaterra, que depois entrou em colapso e, no século passado, quer se queira ou não, foi recolocada no mundo por Margaret Thatcher. O liberal é tudo, menos um conservador, um aristocrata. Um liberal de verdade é profundamente revolucionário, quase anárquico; ele está sempre olhando para o futuro, nunca para o passado. Eu ousaria dizer que os Estados Unidos chegaram mais próximo dos ideais socialistas do que a Rússia, que é profundamente desigual. Nos Estados Unidos, há realmente 3% de milionários, 3% de miseráveis e 94% de uma enorme classe média, que é formada, na sua base, por um lixeiro de Nova York, que ganha dois mil e quinhentos dólares, por um advogado que percebe oito mil dólares e por um profissional liberal, que ganha dezoito mil dólares. Nesta faixa, reside a maioria da população americana, que está muito bem, obrigado. Apesar de alguns gravíssimos defeitos, a América é a mais aberta das sociedades. Não podemos misturar movimentos tópicos de um presidente que declara guerra contra o Iraque com a sociedade em si. Afinal, qual outra sociedade recebeu, durante 20 anos seguidos, 1 milhão e 300 mil imigrantes por ano? Foram mexicanos, russos, brasileiros e chineses. Cerca de 70% a 80% deles são efetivados, tendo acesso a todos os serviços públicos. Um terço da Califórnia fala espanhol!

O meu ideal político, como professor e empresário, é o da sociedade aberta, uma ordem extensa, impessoal e cosmopolita. Se eu for nacionalista excessivamente, estou dizendo que sou inimigo do outro. Se privilegio a minha regionalidade, estou pronto para aceitar Estados nacionais que disputam beligerantemente poder político e econômico. Sou, é claro, um democrata, mas reconheço que há um paradoxo interessante entre a democracia e a liberdade. Se a maioria for cristã e a lei da maioria determina o exercício do cristianismo, como aconteceu no passado, ou se a maioria for branca e a lei democrática enunciar que todo branco deve ser diferente do negro, isso seria um regime democrático, por mais contraditório que pareça. Mas antes de ser um democrata eu sou um liberal. Democracia é um método político; o liberalismo é uma doutrina e não apenas um método. Por exemplo: Hitler chegou democraticamente ao poder. Na África do Sul, hoje, como a maioria é negra, poderia haver uma lei que exigisse a expulsão dos brancos. O liberalismo diz que é importante o respeito às minorias; e a democracia, que é o poder da maioria, vai lá e expulsa os brancos. Eu prefiro ser um liberal e ir para um lugar onde haja uma liberal-democracia. O ideal da sociedade aberta é um círculo em expansão. Em Atenas, a democracia ficava restrita aos cidadãos; há cem anos, ela existia para a maioria, à exceção das mulheres, e hoje vale para todos. Nós somos algo que biologicamente evolui, tenta, experimenta, pressiona e permite avanços. A liberal-democracia é a que permite o máximo de experimentações.

Mas o movimento é sempre o de sístole e diástole. A direita mais reacionária retorna na Europa e nos Estados Unidos. No caso americano, há uma espécie de síntese entre situação e oposição – os democratas são um pouco mais trabalhistas e os republicanos são mais voltados para o business. Quando a sociedade se sente mais fragilizada em função da Guerra do Vietnã, vota, nos anos 1970, em um democrata como o Jimmy Carter, que cura a parte social e política. Quando a economia começa a emperrar, nos anos 80, os americanos votam em um republicano como o Ronald Reagan, que reduz os impostos e combate a inflação. Eles oscilam pouco, basta tomar como exemplo o Bill Clinton, que foi um democrata que cortou gastos sociais. No caso da direita na América Latina, a diferença é gritante. Ela é autoritária, corrupta, ditatorial, oligárquica, patrimonialista, sem-vergonha, assaltante oficial de Estado. Nunca teve qualquer ideologia liberal-democrata. Patrocinava golpes militares, produzia avanços de empresas estatais de intervencionismo generalizado não apenas na máquina de produção – como Telebrás, Siderbrás, Eletrobrás e Nuclebrás – como de forma indireta, através da política cambial (regra de minidesvalorização), política salarial (deflatores) etc. Quer dizer, intervenção total em tudo. Ao retornar ao Brasil, depois de cursar o doutorado na Universidade de Chicago, virei um intelectual liberal-democrata e experimentei a solidão. Eu segui o meu caminho, que era o oposto tanto dos economistas que serviam ao regime militar como daqueles que estavam na oposição. Fiz isso sem me preocupar com rótulos – direita ou esquerda.

PARA COMPREENDER A CUCARACHOLÂNDIA

Francamente, eu aprendi com a esquerda brasileira, que sempre foi muito eficiente no diagnóstico. Ela anunciava: vulnerabilidade excessiva ao capital externo. É verdade. O FMI, em outros países, entra e fica dois ou três anos. No Brasil, permanece por 20, 30 anos. A esquerda diz também que as elites se apropriaram do Estado, privatizando-o. Isso é absolutamente verdade. Os deputados conseguem licenças de faculdades para si mesmo ou ainda canais de televisão; os juízes defendem direitos e aposentadorias para si mesmos; os empresários manobram e indicam ministros de Estado que dão subsídios para eles mesmos através de empresas estatais e bancos oficiais. É um caso dramático de falta de parâmetro civilizatório. O Brasil é um caso ímpar: falta tanto mercado quanto falta governo. E não é ausência de governo no sentido de quantidade. Neste quesito, sobra governo, pois a máquina de arrecadação engole 40% do PIB. Essa é uma de nossas tragédias. A social-democracia brasileira vai produzir a “Brasilesclerose”idêntica à Europa. Pulamos, em 20 anos, de 20% de carga tributária para 40% do PIB. O Brasil parou nas décadas de 1980 e 1990.

O peso excessivo dos impostos emperra o funcionamento da livre iniciativa. Ser empreendedor é um inferno. Precisa sobreviver a surtos inflacionários, a maxidesvalorizações, a competições com órgãos públicos que não pagam impostos, ausência de crédito, impostos excessivos, achaques de fiscais, juros elevadíssimos. Essa falta de familiaridade de uma direita sem escrúpulos com o mapa cultural, de um lado, e de uma esquerda selvagem sob o ponto de vista da compreensão da engrenagem econômica e preconceituosa em relação à conquista civilizatória ocidental, empurrou-nos para a tentação da social-democracia, um caminho do meio que tende a ficar no meio do caminho. Éramos um país que crescia mais de 7% ao ano, e conseguimos perder identidade, o sonho de crescimento, afirmando que tomávamos medidas que apontavam para a modernização. Sempre achei que no Brasil a corrida apontava para quem ia mudar primeiro. Ou a direita pararia de roubar ou a esquerda se aculturava em matéria de Economia. Ganhou a esquerda. Fernando Henrique foi o primeiro socialista a cruzar a linha. Ele mostrou compreensão parcial e começou na direção do desejável. Só que a falta de familiaridade com o processo era tão grande que acabou fazendo algo absolutamente incrível. Privatizou as empresas estatais e conseguiu aumentar a dívida pública interna de 20% do PIB, em 1994, para mais de 50%, em 2002.

Fernando Henrique assume sob os aplausos da esquerda e sai debaixo de vaias. Ele conseguiu desagradar a todo mundo. Como não entregou o produto final, que é o progresso e o crescimento, desagradou os dois lados. A esquerda o viu capitulando ao ideário da direita. Já a direita ficou decepcionada pela absoluta falta de resultado empresarial. Os tucanos foram arrogantes e tiveram um erro de gestalt de se considerarem os verdadeiros intérpretes da nova sociedade brasileira, detendo o monopólio do diálogo com os mercados, que o PT não teria, por ser, segundo eles, absolutamente selvagem, despreparado. Por isso, durante a campanha presidencial, houve aquela previsão ridícula de que a vitória de Lula representaria a encarnação de Hugo Chávez. Aquilo é de uma arrogância intelectual e uma prova inequívoca do caminho que os tucanos percorreram. Todos eles foram flagrados com as mesmas palavras de Lula nos lábios em algum ponto lá atrás, incluindo os próprios economistas. Em 1986, no Plano Cruzado, os economistas deles eram contrários à privatização e cometeram todos os erros possíveis. À época, quando defendíamos a redução do déficit e a implantação de um Banco Central independente, diziam que não era nada disso. O problema da inflação era a inércia e não tinha qualquer relação com o déficit público.

Comparando os tucanos de punhos de renda (PSDB) com os neossocial-democratas de chão de fábrica (PT), posso afirmar com todas as letras que o PT aprendeu mais rápido. O PT aprendeu em seis meses o que o governo Fernando Henrique precisou de quatro anos. No primeiro mandato de FHC, houve um enorme déficit fiscal. Apenas a partir de 1999 é que veio a Lei de Responsabilidade Fiscal já dentro de um acordo com o FMI. No primeiro mandato, houve uma queima de 50 bilhões de dólares das reservas cambiais para eleger o presidente Fernando Henrique. Somente no segundo mandato foi implantado o câmbio flexível. No primeiro mandato, a âncora cambial combatia a inflação. No segundo governo, é adotado o sistema de metas inflacionárias. Portanto, o brasileiro Lula aprendeu em poucos meses o que os tucanos demoraram quatro anos. Então, por que a pretensão, a arrogância? Ou ainda o cabotinismo de dizer que eles têm o monopólio da agenda de reformas? Reforma em direção a um Banco Central independente? Isso era um ideário social-democrata? Ou a flexibilização da legislação trabalhista? Ou a reforma da Previdência? Eu quero mesmo fustigar o segundo andar do nosso socialismo pela pretensão com que trata o primeiro andar, que é o PT.

EM BUSCA DO LIBERAL-DEMOCRATA PERDIDO

No Brasil, a espécie liberal não existe. São três ou quatro seres. O que há é a direita brasileira. A crítica a ela é tão contundente que 40 anos depois (do golpe militar, em 1964) produziu quatro candidatos socialistas à presidência da República – o social-populista (Anthony Garotinho), o social-democrata (José Serra), o social-reformista (Ciro Gomes) e o socialista-sindicalista (Lula). O que eu posso dizer em relação à direita brasileira que a denigre mais do que isso? O recado foi esse: vocês foram tão nefastos, com Transamazônica, subsídios, BNDE, programa nuclear, produziram um resultado social tão ruim, com milhões de brasileiros desempregados e na miséria, quebraram a dinâmica de crescimento, que receberam um recado duro das urnas. É verdade que nos primeiros anos da Revolução a economia cresceu, mas logo depois se estagnou e parou por 30 anos. O que assistimos quando entram em primeiro lugar os populistas e depois o social-democrata no poder é uma total incapacidade de impedir a implosão do sistema anterior. Se estamos dando nota baixa à esquerda, por impedir a implosão, o que diremos da direita, que construiu o edifício?

Hoje, podemos afirmar que a esquerda trabalhou em direção à sociedade aberta, exigindo eleições diretas e as liberdades democráticas. Agora, não podemos ser ingênuos e acreditar que durante a Revolução de 64, a esquerda defendia uma sociedade aberta. Havia os meganhas na direita e os stalinistas tentando reinventar o mundo à força. Ali foi um choque de iguais na sua cegueira e na falta de progresso. Foi uma briga de cego com cego, e ganhou o mais forte, que perseguiu sem tréguas o derrotado. Essa direita vencedora construiu um sistema iníquo que não tem qualquer relação com o ideário da liberal-democracia. Tanto é assim que perdeu eleição atrás de eleição. Só que quase 20 anos se passaram e não houve solução. Acho que Lula, eleito em 2002, será reconduzido ao cargo; serão os últimos governos da social-democracia no Brasil. Depois, teremos um ciclo de três ou quatro mandatos em direção à liberal-democracia. Até lá, já estará constituída de uma forma mais orgânica e decente em cima de pequenos empresários e profissionais liberais. A grande clivagem é a seguinte: os sociais-democratas acreditavam que o Estado era gerador de riquezas, oportunidades e, portanto, poderia prover os cidadãos. E os liberais-democratas acreditam que a capacidade de coordenação dos mercados permite criar as riquezas e o governo pode redistribuí-las de forma moderada.

A experiência histórica comprova que a social-democracia não conseguiu administrar as necessidades de crescimento. A social-democracia perdeu lugar inclusive na Europa. Só ganhou na Alemanha por causa da belicosidade de George W. Bush, que, ao falar em guerra contra o Iraque, levou Gerhard Schröder, que estava lá embaixo na pesquisa e era contrário ao conflito, a vencer as eleições. Mas ele já está impopular de novo. No caso brasileiro, os dois gumes, a dubiedade e o ritmo devagar quase parando dos tucanos, só nos poderiam remeter ao fracasso. Há uma história que ilustra bem o dilema dos “em cima do muro”.

O político mineiro José Maria Alkmin (ex-vice-presidente da República e ex-ministro da Fazenda) foi fazer comício em uma cidade onde tinha um concorrente violento. O comício foi cercado por uma multidão enfurecida. Quando ele entrou no carro, o motorista, assustado, perguntou:

– O que nós fazemos, doutor?

– Fuja não tão rápido que pareça medo nem tão devagar que provoque a ira.

Se ele saísse lentamente, daria uma impressão de arrogância, provocando irritação na multidão. Se o carro disparasse, daria uma ideia de medo diante da população. No caso do Alkmin a historinha é contada mais para ressaltar a matreirice do velho político do PSD, mas ela vale também para a ambivalência da tucanada.

Esse foi o desafio dado ao social-democrata: eu, Paulo Guedes, sou um liberal que participei de todos os debates – os mesmos que diziam que déficit público era uma invenção da Universidade de Chicago passaram a defendê-lo, anos mais tarde, com grande ênfase – e finjo, como um bom brasileiro, que não ouvi nada disso. Houve até quem dissesse que a política monetária era uma anteninha e anos depois usou, sem qualquer cerimônia, doses cavalares do depósito compulsório. Agora, essas mesmas pessoas – cujos nomes prefiro não declinar – tripudiam e adotam uma postura arrogante com o governo Lula. Será que o PSDB e o PFL (atual DEM) querem o suicídio coletivo, como ocorreu na Argentina, onde os peronistas dominam integralmente a classe política? Já que Lula mudou, por que não?

O PT NÃO É UM PONTO FINAL

Eu sou a favor de uma crítica mais ampla. Em vez de a reforma da Previdência ser uma recuperação de impostos em cima dos inativos, por que não mudar o mecanismo de alocação, criando um sistema participativo de contribuição definida e por cotas individuais para a capitalização das empresas, das bolsas de valores, transformando os trabalhadores em sócios do progresso? Façam a crítica grandiosa e não contrária ao PT apenas por ser contra. Eu prefiro fingir que não vi todas essas mudanças. O mandato dos tucanos foi idêntico ao do José Maria Alkmin: não mude tão devagar que irrite a população, que notará que você não foi para lugar algum, como Fernando Henrique em oito anos, mas nem tão depressa que nos machuque tanto.

Se o PT pensa que poderá, mais adiante, mergulhar em algo radicalmente diferente, existe apenas uma chance: ser ainda mais radical no caminho adotado inicialmente, de austeridade fiscal e flutuação do câmbio. Se o PT tiver a ousadia de provocar as forças produtivas que estão reprimidas há décadas no Brasil, descobrirá o quão longe poderá ir seus programas sociais. Tem que desregulamentar, reduzir a carga tributária, liberalizar o comércio, soltar a competição. Mas acho que falta coragem. Eu conheço vários choques liberais que vieram dos liberais e nenhum que tenha partido dos socialistas. É a realidade empírica, histórica. Lula é, neste sentido, um progresso, pois se trata de um homem que não será sensível a apelos que favoreçam à classe média alta. Eu continuo acreditando nisso. A meta legítima é socializar os gastos do governo e despolitizar a moeda. Antigamente, fazia-se maldade ao emitir dinheiro, que produzia hiperinflação e matava os pobres. Então, vamos caminhar para um Banco Central independente, trilha já seguida pela social-democracia na Europa. É a desnacionalização da moeda, retirando qualquer componente político. O PT soube se apropriar desta tecnologia, ao indicar Henrique Meirelles para o Banco Central. Agora, o segundo passo é socializar o orçamento público. Quanto do orçamento é renúncia fiscal destinada a universidades públicas cheias de alunos da elite? Quanto é destinado a empresários? Se o PT vai ter competência de gestão, é um desafio. Nas administrações municipais, trabalharam direito. Agora, se o governo fosse entregue a um liberal radical, em seis meses ele saberia o que precisaria ser feito. Não é necessário duas décadas como a social-democracia vem fazendo. Roberto Campos e Bulhões, em 1964, fizeram em seis meses o Banco Central independente – que depois seria explodido –, a lei de reforma do mercado de capitais, o SFH (Sistema Financeiro da Habitação). E depois foram dez anos de crescimento. Os juros altos só devem ser usados por cinco ou seis meses e não durante duas décadas. O orçamento público foi destruído, pois boa parte dos recursos é usada para pagar os juros elevados. Então, a incapacidade da esquerda de mudar é grande. A esquerda dá dois passos à frente, para depois dar dois passos atrás. Ocorre que o estoque de problemas cresce em progressão geométrica. Ficar parado no lugar significa dar dois passos atrás. E nós temos que dar dois mil passos à frente. O consolo é que Lula está saindo melhor do que a encomenda. Só o fato de ele ter reconhecido que a culpa é nossa e não do Império, do Consenso de Washington e outras demonologias, já é um grande salto. A saída é sempre endógena. Botar a culpa nos outros nunca foi solução para a mudança de inanição econômica. O que muda é a direção correta e muito trabalho.”

Depoimento a Coriolano Gatto e Luiz Cesar Faro | Edição 21, 2003
*Paulo Guedes é ministro da Economia

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