Leandro Karnal

Historiador

MANUSCRITOS SOBRE O ÓDIO E A GLOBALIZAÇÃO

Nada de bom selvagem. Desde a partida, os males imperam: o ódio, a perversidade, a violência, a agressividade, os sentimentos racistas, xenofóbicos, homofóbicos e misóginos. Zonas sombrias de toda espécie estão evidentes desde que o homem é homem – do estado de natureza ao estágio de questionável civilização globalizada e tecno-violenta, conforme disseca, a seguir, o historiador Leandro Karnal. Rara forma de comunicação universal com o outro, diz ele, o ódio é uma tentativa de diálogo, uma ação e uma reação, uma demonstração de superioridade ou inferioridade, poder ou conformação, decadência ou inveja, altivez ou resignação, ofensa ou ressentimento, desespero ou anseio de felicidade. É um de nossos paradoxos: vivam os chineses, abaixo os chineses. Lupus est homo homini non homo. Diante de Hobbes, sob inspiração de Plauto, Rousseau sempre dançou nessa. O ódio somos nós.

“A palavra globalização, que tanto usamos hoje, serve para definir diversos momentos da história. Ela já poderia ser usada, por exemplo, para o século XVI, quando a Europa descobre a América e passa a colonizar a África e a Ásia. À medida que vão descobrindo produtos novos vindos da América, como o milho, a batata e o tabaco, e levam produtos como o café e o açúcar, os homens descobrem o outro, e essa relação de alteridade começa também a produzir resistências. No segundo momento da globalização, com o imperialismo do século XIX, a Europa inventa o racismo. Nesse momento, a expressão racista, de difusão de preconceitos, curiosamente ocorre quando o contato com o índio fica mais sistemático. Os grandes autores racistas, que apresentam o discurso da desigualdade entre as raças, como Gobineau, amigo íntimo de D. Pedro II, surgem no momento de crescimento dos contatos econômicos e culturais. No terceiro e novo momento da globalização, já com o discurso pós-moderno e com a internet, novamente nos colocamos em contato com pessoas que, mais uma vez, são desinstaladas de seus valores, desde alimentares a sexuais e étnicos. E aumenta a xenofobia. Em outras palavras, todas as vezes em que somos expostos ao outro, à alteridade, necessariamente há um reforço da identidade, e esse reforço reafirma também aquilo que marca o nosso apego a valores que nós mesmos inventamos. Não é a primeira vez, portanto, que é possível identificar a disseminação do ódio. À medida que somos mais e mais expostos à alteridade, reforçamos a xenofobia, o racismo, o etnocentrismo e um certo darwinismo social – ou seja: estou evoluindo mais do que o meu vizinho, logo estou mais à frente, sou melhor e mais civilizado. Havendo a ideia de que, entre o dia e a noite, há um período de crepúsculo, é nesse período que as sombras assumem formas fantasmagóricas.

TUDO COMEÇOU EM NÓS MESMOS

Sentimentos negativos, agressivos, racistas, xenofóbicos, homofóbicos e misóginos nunca estiveram latentes. Eles são sempre evidentes. No momento em que estamos mais expostos à alteridade, esses sentimentos aparecem de maneira mais forte. Pressupor, no entanto, que há um ser humano mais racista quando exposto à globalização e à internacionalização significa pensar que o ser humano é naturalmente bom. Se isso fosse verdadeiro, o homem bom deveria morar na sua aldeia para não ter contato com os outros. O ser humano, em todos os seus aspectos, estabelece formas de racismo e ressentimentos em relação àquilo que é diferente dele. Nesse sentido, sou mais hobbesiano do que rousseauniano. Acredito na ideia de que o homem é muito mais o lobo do próprio homem. Sua natureza é violenta e, quando ele tem chance, exerce essa violência por meio do poder, da comparação cultural e de outras formas de exercício da superioridade. Deixamos à tona uma enormidade de sentimentos agressivos, comparativos racistas e assim por diante. É possível também que, junto a tudo isso, aflore um discurso de tolerância e de maior harmonização entre os povos. Mas isso não elimina o fato de que somos essencialmente agressivos, violentos e xenofóbicos. Para isso, a solução natural é o aumento de dois polos: o da coerção e o do consenso. A coerção se consegue através de leis como a do crime de racismo, a punição para homofobia, a proibição de violência contra crianças, a Lei Maria da Penha. A segunda estratégia, a do consenso, é conseguida por meio da educação. Ela deveria ser superior, mas não necessariamente o é. Mesmo em cidades cosmopolitas, como São Paulo e Rio de Janeiro, matam-se gays.

CICLOS DE MAXIMIZAÇÃO DO ÓDIO E DA VIOLÊNCIA

O aumento dos meios racionais industriais modernos vem, em geral, acompanhado dos maiores genocídios em termos numéricos ou proporcionais. Em termos numéricos, vimos genocídios como o holocausto ou o massacre dos povos na antiga União Soviética e na China. Em termos proporcionais, as mortes do Cambodja, onde se eliminou parcela expressiva da população. Essas expressões radicais de violência não ocorreram nem nas ditas trevas medievais, nem nos períodos da Antiguidade, nem nas guerras antigas. Ocorreram e ocorrem no plano dos Estados nacionais e racionais, que dirigem a violência contra seu outro interior: camponeses na União Soviética, judeus na sociedade alemã nazista, intelectuais no Cambodja. Sejam quais forem os projetos utópicos de melhoria da sociedade, essa sociedade provoca uma impressionante quantidade de mortes. E todas elas no contexto de mundos modernos, expostos às diferenças. Tivemos a Guerra dos Trinta Anos no século XVII, exposta à diversidade religiosa; as guerras napoleônicas, como projeto de guerras europeias, entre o fim do século XVIII e o início do século XIX; e as guerras mundiais do século XX. Em cada uma delas, aumentou consideravelmente o número de mortes. Isso é resultado do crescimento da tecnologia, do domínio da violência e do aumento da eleição de um outro ideal, como objeto dessa violência. Matamos muito mais hoje do que os romanos no passado. Curiosamente, uma sociedade como a romana convivia com a violência institucional – por exemplo, a escravidão ou poder despótico do imperador. Mas é nas sociedades mais democráticas que a violência é ainda maior. Mas essa tendência não é resultado da globalização ou da exposição a mercados e ideias internacionais. A expansão ibérica do século XV, a expansão do continente europeu no século XVI, a expansão da segunda revolução industrial e o imperialismo no século XIX, a expansão pós-Segunda Guerra Mundial e a globalização atual, tudo também vem acompanhado de ciclos de violência cada vez mais sistemáticos e institucionais.

CHINESES, A BOLA DA VEZ?

O mundo em geral pressupõe a ideia de um império dominante e um modelo único em nossa cabeça. Nunca me esqueço de que, na década de 1970, estimularam-me a pensar que o futuro estaria nas mãos do Japão. A exposição de Osaka, em 1970, parecia revelar o apogeu da vitória japonesa contra o modelo fordista, que havia dominado a revolução industrial anterior. Muita gente, como o então presidente do México, Carlos Salinas de Gortari, na década de 1980, tentou colocar os filhos em colégio japonês, porque o japonês era a língua do futuro. A partir do governo Sarney, convenceram-me de que o espanhol era a bola da vez. Em tempos de Mercosul, o espanhol era o futuro. E agora me convencem de que o futuro está no mandarim. Prefiro aguardar uma língua mais fácil. Mas o fato de a economia chinesa ter crescido durante mais de 30 anos a patamares acima de 10%, ter retirado da pobreza mais de 400 milhões de pessoas, impedido o nascimento de outros tantos possíveis 400 milhões, graças à política de filho único, esse sucesso impactante chinês não significa que precisamos pensar um modelo bipolar de império, nos moldes da Guerra Fria. Sem dúvida, o futuro imediato, até 2020, passa por problemas e resoluções que dizem respeito a países como a China, mas nunca tivemos no mundo esse modelo de império como o chinês, que é estruturalmente dependente de outros impérios. Em outras palavras, nada pior para a China do que o declínio do império americano. Nada pior para os Estados Unidos do que o declínio chinês. Essa interligação entre o Brasil produtor, agroexportador e as compras da China, com a consequente desindustrialização do Brasil, revela um diálogo do país com a ascensão da China e atesta que somos mutuamente dependentes. Isso não quer dizer que possamos ter de novo um império americano, como em 1945, quando os Estados Unidos detinham 50% das reservas de ouro mundial. Hoje não temos um modelo específico de império. A nossa dificuldade é pensar hoje uma economia que pode ter a ver com o desenvolvimento chinês, mas tão profundamente globalizado que essas companhias não podem ser mais consideradas essencialmente chinesas. Esse capital não é mais exclusivamente chinês. Há, portanto, variáveis novas, cujos contornos não estão completamente nítidos. Mas tudo indica, sim, que até a década seguinte, pelo menos, aquilo que a Rússia produzir de gás e petróleo na Sibéria, a China com suas fábricas no mundo, a Índia, o Brasil como sede alimentar mundial e os norte-americanos como a maior economia do planeta em números absolutos, todos esses são bolas da vez. Qual a bola vai entrar na caçapa específica é difícil dizer. Mas devemos lembrar que, há cinco anos ou um pouco mais (no início deste século), a Espanha era a maravilha do mundo, a Irlanda era o futuro e nós nos encantávamos com outras coisas. Os chamados PIIGS – Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha – caíram numa velocidade que jamais havíamos imaginado. Há 30 anos (na década de 1980) o Japão era a grande potência ascendente. A chance do tropeço, do fracasso, é tão grande para a China quanto foi para os outros: ela exibe problemas estruturais tão fortes para o fracasso quanto elementos estruturais para o sucesso. Aqueles que torcem contra a China são aqueles para quem, lembrando Nelson Rodrigues, o sucesso é uma ofensa pessoal, aqueles que buscam a qualquer momento um indicativo de que o fracasso começou. Tais pessoas aguardam, ansiosas, uma espinha na cara da Gisele Bündchen. Assim elas se sentirão mais tranquilas ao primeiro sinal de decadência e se confortarão por nunca terem atingido aquele patamar. A decadência de quem faz sucesso é tão aguardada quanto qualquer outra. É o que queremos, é o que esperamos.

RASTREANDO O PERIGO AMARELO

É possível que a reação à China e o grau de xenofobia aumentem na proporção de um indicador da revista inglesa The Economist, o índice da sinodependência. O velho perigo amarelo chegou ao Brasil há 104 anos, quando para cá vieram os japoneses. Naquela época se dizia: eles são milhões, violentos e trazem doenças. Nos Estados Unidos, o “perigo amarelo” chegou há mais de 150 anos, quando os chineses foram construir as ferrovias. O perigo amarelo, para muitos, é real. Na primeira vez entre muitas que fui à China, obrigaram-me a tomar vacina contra a febre amarela. Em meu brasiliocentrismo, pensei: querem me proteger contra alguma febre amarela na China. Que nada. Era uma exigência chinesa contra o temor de febre no Brasil, uma proteção deles contra nós. É uma surpresa descobrir que você é o foco infeccioso, e não os chineses. Lentamente vai-se descobrindo que essas desconfianças são traduzidas em formas suaves ou não. Foucault escreveu que se estabelece um hospício não para tratar os loucos, mas para garantir àqueles que estão fora que eles são saudáveis. Do mesmo modo, é fundamental que existam governos como o da China para que possamos pensar no nosso como um bom governo. O que seria de nós se não olhássemos para esse hospício de 1,4 bilhão de pessoas? Essas diferenças sempre servirão de exemplos externos, para que se tente criticar e transformar a realidade interna. Em São Paulo, esforçamo-nos para terminar metade do Rodoanel ou para dar uma asfaltada numa pista de aeroporto para uma Copa do Mundo. Enquanto isso, os chineses constroem aeroportos numa velocidade taylorista. Isso nos permite olhar o Brasil e dizer: precisamos melhorar e muito nossos padrões de eficiência. Por outro lado, também se dirá: na China há escravidão coletiva, trata-se de um país sem liberdades, odioso. Ao amarmos ou odiarmos outros países, é como se dizia na Idade Média: ao apontar o dedo para alguém, há outros três dedos apontados para mim. No primeiro relato de uma experiência multicultural globalizada, em “Dos canibais”, o capítulo XXXI do Livro I dos “Ensaios”, Montaigne encontra indígenas antropófagos do Rio de Janeiro do século XVI. E usa aqueles indígenas para defender uma reforma da sociedade francesa. Para ele, os indígenas não entendiam como havia franceses tão satisfeitos e outros tão pobres, e por que um não atacava o outro. E encerra com o famoso trecho: os selvagens não usam calças. Ou seja, como é possível que eles sejam tão sábios e tão equilibrados e possam vir aqui e falar desse absurdo ao rei menino Carlos IX. Este é mais um exemplo de como usamos o outro como forma de criticar a nós mesmos. A memória humana faz muito isso e, quando não é possível, a violência acaba sendo um caminho. A violência não apenas contra o outro, mas contra a mudança, é algo muito comum nas grandes cidades brasileiras. A elite portuguesa de São Paulo olhou para imigração italiana como carcamanos. Essa elite italiana olhou para a chegada dos japoneses e judeus e viu aquilo como absurdo. A elite judaica olhou a chegada dos coreanos com uma desconfiança atroz. Os coreanos olharam para a chegada dos bolivianos como algo terrível. Em síntese, o contato com o outro mostra muito a nossa incapacidade de viver com a diversidade e de achar um fundamento de identidade na violência e na explosão.

ABAIXO O SUCESSO ALHEIO

O caso chinês carrega ao mesmo tempo o estigma do sucesso, a ameaça numérica do contingente superlativo de pessoas e – o que talvez seja o mais complicado – as diferenças étnicas. Há uma marcante diferença dos traços fisionômicos orientais, o que dá um ingrediente mais exclusivo nesse potencial de incômodo. Se um extraterrestre olhasse o planeta Terra, descobriria espantado que, entre o Paquistão e a Indonésia e do Japão ao Vietnã, encontram-se mais de 70% da espécie humana. Sete entre cada dez pessoas no mundo vivem no Sul e no Sudeste da Ásia. Se somarmos Indonésia, Japão, Índia, China, Paquistão e Bangladesh, há aí 400 milhões de pessoas a mais do que em toda a África, que tem 1,4 bilhão de habitantes. China e Índia somam mais de 2,6 bilhões de pessoas, num planeta de 7 bilhões. Portanto, a presença oriental já é dominante há muito tempo. É apenas por eurocentrismo que se imagina que essa presença oriental vai descaracterizar a cultura. É isso que Marshall Sahlins, no seu livro “Esperando Foucault, ainda”, lembra ao dizer que em Nova York há 1 milhão de restaurantes estrangeiros, mas ninguém imagina que Nova York vai perder sua identidade. Porém, ao encontrar McDonald’s no interior da Sicília, todos imaginam imediatamente que aquilo destruirá a identidade siciliana. O reconhecimento indireto de um certo fracasso e a conclusão de que os chineses são mais eficientes ou mais numerosos – Juca Chaves dizia na década de 1970 que os orientais são numerosos porque comem com dois pauzinhos – levam a uma certa explicação científica: eles têm diferenças físicas profundas. Pensar nas diferenças chinesas pressupõe que temos uma unidade fenotípica que nenhum outro país tem, o que não é verdade nem de longe, pois nossa diversidade inclui orientais, negros, indígenas, morenos, loiros. A unidade parece ameaçada pela invasão do outro. A Europa incapaz de gerar filhos reclama que os imigrantes árabes têm muitos. A Europa incapaz de ser religiosa tem medo da religião islâmica. É como uma criança que não brinca com o brinquedo e não deixa que o outro brinque, por inveja. Ou seja, há um sentimento implícito de inveja da ordem e do crescimento. Esse sentimento é traduzido muito mais no defeito do outro do que no reconhecimento de que o que me incomoda é o meu fracasso, e não o sucesso alheio.

O INIMIGO É FORTE

A Alemanha teve uma experiência radical de intolerância depois da Segunda Guerra Mundial. Especialmente a partir do fim da Alemanha Ocidental, ela se dedicou a uma profunda educação para a diversidade, o que não impediu que na ultracosmopolita Berlim dos anos 1970, dependente da mão de obra turca na construção civil, casos de xenofobia explodissem. Esse tema se transformou em livro, “Cabeça de turco”, escrito por um jornalista alemão (Günter Wallraff). Em outro livro, “Meu inimigo sou eu” (de Yoram Binur), um israelense se passa por um palestino, trabalhando num bufê em Israel, expondo um quadro de medo e desconfiança. Essas experiências demonstram que ódios internos, contra imigrantes, ou a convivência de povos historicamente vizinhos mas com problemas, como palestinos e israelenses, são sempre problemáticos. Nós só não temos raiva de quem fracassa, ou de quem é pequeno e não nos incomoda. Ninguém tem ódio de Bangladesh, mas contra os chineses, sim. No Brasil, a unidade federativa que mais reivindica a identidade local, o Rio Grande do Sul, é a mesma que provoca a maior piada no território nacional. Mas não há uma única piada sobre Roraima, resultado do fato de que não há identidade visível aos de fora desse estado. Todas as vezes que marco a identidade de maneira forte, provoco esse tipo de reação. Um país de identidade fraca e quatro línguas, como a Suíça, é capaz de passar uma medida proibindo a construção de mesquitas em seu território. Ou seja, pode haver centro de estudos de OVNIs, mas não se pode construir mesquitas. A única explicação para isso é a xenofobia pura, baseada no mais declarado racismo.

TODOS TÊM ALGUÉM PARA ODIAR

José Saramago tem um livro genial, O “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, no qual o demônio se mostra espantado com tantas atrocidades cometidas na história do cristianismo, em nome de Deus Pai. E Deus diz: não posso ser Deus se não houver o diabo. O ódio é um elemento muito poderoso, que confere identidade. As igrejas insistem na ação do demônio. A felicidade mantém as coisas menos intensas. É preciso medo e tensão. A ideia de que o ódio cria incentivos é manipulada por um movimento que vira a base de nossa identidade. Peque-se o amor universal, nos moldes da proposta cristã. Amar a todos como devo amar o meu filho com a mesma identidade se mostra irrealizável, porque devo amar mais quem me faz mal. É uma ideia utópica bonita, mas as utopias estão fadadas ao fracasso. Amós Oz diz que Israel é uma utopia e, como toda utopia, está destinada ao fracasso. Essa é uma discussão complexa, mas, em todo caso, é fundamental que o meu inimigo exista para eu saber quem sou. Uma pesquisa nos Estados Unidos tentou mostrar quanto dinheiro custa a felicidade. Foi estabelecido um número que, no Brasil, seria o curioso patamar de R$ 11 mil por mês. O mais discutível não é o número, mas o fato de ignorar que o dinheiro que me traz felicidade é o mesmo que tira a felicidade dos outros. Tenho de ganhar mais do que meu cunhado ou meu vizinho. Minha casa e meu filho têm de ser mais bonitos. Preciso ser mais rico do que os outros para ter mais felicidade. A felicidade que se sente com uma Ferrari é apenas uma representação, pois é feita para o outro. Ela nem é confortável, mas dá ao outro a noção do que não se tem. Eu sugiro sempre aos meus alunos em sala de aula: experimentem chegar para alguém ou para algum grupo e dizer que seu signo é Aquário. Ouvirão alguém informar que é de Libra, outro de Peixes e assim por diante. As pessoas jamais entrarão na sua conversa, mas falarão de si. Desolado você vai complementar: “Meu ascendente é Aquário.” Seu interlocutor dirá que seu ascendente é Touro. Se vocês chegarem esta noite em casa dizendo que estão cansados, provavelmente ouvirão um “eu também estou”, e não uma questão: “Amor, hoje seu dia foi particularmente pesado?” Ninguém escuta, ninguém responde. Não há o outro, só a si mesmo.

MALES PRESENTES DESDE SEMPRE

Por incrível que pareça, o ódio é uma das raras expressões humanas de comunicação com o outro, uma tentativa de olhar para o outro dizendo: “Eu sou superior, eu te odeio.” Ou: “Você é superior, eu te odeio mais ainda.” É uma tentativa de comunicação, curiosamente, a dominante entre nós. Não sou particularmente pessimista. Mas, como muitos, acho que o otimista é um sujeito mal informado. Pensar a globalização como um eixo de transmissão do ódio é pensar de maneira otimista. Não havendo a globalização, não haveria essa identificação do ódio. No fundo, a globalização apenas coloca em contato os ódios estruturais que já existem. Se não tivéssemos que olhar os chineses, continuaríamos a ter ódio da Argentina. Se não pudéssemos sentir ódio dos argentinos, sentiríamos ódio dos cariocas, e os gaúchos odiariam os outros estados da federação. De Bangu, eu odiaria Botafogo. Em Botafogo, eu odiaria aqueles que têm vista para o Aterro. A diferença da globalização é que ela permite uma comunicação, e essa comunicação cria um sentido de ódio que faz crer que é muito maior do que era no passado. Caso contrário, teríamos de pressupor que, antes da globalização, entre os séculos XI e XIII, quando a Europa não tinha nenhum contato internacional, não ocorreria uma experiência como as Cruzadas.
A destruição de Jerusalém ocorreu num período em que não havia internet, ninguém lia uma obra racista e não se trocavam produtos no mercado internacional. A morte de crianças e mulheres em Jerusalém, naquela época, era muito similar ao que recentemente fizeram soldados americanos no Afeganistão. Pressupor que o soldado americano atual é resultado da globalização e o cruzado dirigido por Godofredo de Bouillon é fruto de uma outra época significa exibir uma versão otimista do ser humano e da vida. O ódio não é igual em todos os lugares, mas continua sendo muito forte. Pequenos e grandes males estão presentes em nós desde sempre. A globalização apenas capilarizou o conhecimento, fez com que bobagens alcançassem escala global e diluiu a autoridade internacional, de tal modo que tudo passou a ter o mesmo patamar. Fizemos mudanças profundas em nossos valores. Mas, comparando com séculos atrás, nossa expressão de ódio não mudou muito.”

Depoimento a Claudio Fernandez e Luiz Cesar Faro | Edição 56, 2012

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *