João Paulo dos Reis Velloso

Economista, ex-ministro do Planejamento

O IPEA E A “LISTA DE JOÃO PAULO”: UM ENCLAVE DE RESISTÊNCIA

“Roberto Campos, ministro do Planejamento do governo Castello Branco, teve um papel central no que eu chamaria de primeiro dia, de dia da criação. Quando cheguei ao Brasil, depois de fazer uma pós-graduação em Yale, entrei em casa e encontrei um telegrama do Campos, pedindo que eu fosse conversar com ele. Fui e, para resumir a história, embora eu tivesse a alternativa de voltar a Yale com uma bolsa de estudos por dois anos, Campos fez o que eu chamaria de uma “proposta indecente”, irresistível. Ele disse: “Velloso, nós precisamos criar um órgão diferente dentro do governo, que vá pensar o Brasil no médio e no longo prazo”.

Daí surgiu toda a ideia do Epea (Escritório de Pesquisa Econômica Aplicada, depois convertido em instituto, o Ipea, pelo Decreto-Lei 200), que fazia pesquisas, mas só aplicadas, voltadas para políticas públicas e planejamento. Fazíamos documentos básicos para os planos do governo e algumas vezes os próprios planos. Devo salientar que era planejamento numa concepção essencialmente democrática, o chamado planejamento indicativo. Ou seja: ele não representa um compromisso para que o setor privado leve ao pé da letra, mas apenas uma visão do que se pretende que aconteça no país num determinado período de tempo.

Diria até que nossa compreensão era de um planejamento à la Tobin. Poucos lembram, mas James Tobin, conhecido pela proposta de uma taxa sobre transações financeiras internacionais para reduzir a volatilidade do capital, escreveu sobre planejamento. Para ele, Prêmio Nobel de Economia e meu professor por dois anos, planejamento é, essencialmente, a forma plena de racionalização da política econômica.

Há outra visão no mesmo sentido de que gosto muito, de Salvador de Madariaga, um grande liberal espanhol, que escreveu um paper para a Conferência de Bellagio sobre Desenvolvimento, em que dizia que o planejamento se destina a liberar as forças criativas da sociedade, não a de criar uma camisa de força.

Ele conta uma parábola, digamos. Um sujeito parou um dia para pensar e disse que estava na hora de casar. Então, minha noiva será morena, de um metro e 70, nem gorda nem magra. Começou a chover, ele saiu à rua para comer alguma coisa com seu guarda-chuva. Viu que havia uma moça que estava se molhando, e ele ofereceu proteção. Começaram a conversar e ele convidou-a entrar num café próximo. Ela era loura, mais para mignon, completamente diferente do que ele tinha imaginado. Seis meses depois, estavam casados. O exemplo ilustra como não há camisa de força, que sempre surgem fatos novos. Os planos ajudam a fazer boas opções.

HARMONIAS DISSONANTES

O Ipea foi criado com base nos pressupostos de pluralismo e liberdade de expressão. Na primeira leva de economistas do Ipea, eu diria que havia dois polos. De um lado, o Og Leme, que tinha feito pós-graduação na Escola de Chicago, o que já dá uma ideia da sua tendência ideológica (posteriormente, o Og viria a dirigir o Instituto Liberal). Do outro lado, nós tínhamos o Arthur Candal como coordenador brasileiro da área de indústria. O jovem Candal não era “vermelho”, ele era “roxo”. Com ele trabalhavam dois superjovens, recém-formados em Economia, chamados Pedro Malan e Régis Bonelli (1943-2017).

A história do Candal é interessante porque eu o recrutei numa viagem a Porto Alegre que fiz com o Marcus Vinícius Pratini de Moraes, depois ministro da Indústria e Comércio, no governo Médici. O Marcus, à época, assessorava a Presidência da República e me disse: “Tem um economista muito bom aqui na cidade, o Candal, acho que você deve entrevistá-lo”. Perguntei se havia alguma dúvida ou aresta e ele respondeu: “Você entrevista e depois nós conversamos”. Conversei, gostei do que ouvi e retomei o contato com o Pratini: “E então, qual a dúvida sobre o Candal?” E ele: “Dizem que ele é comunista”. Eu digo: “Mas é competente?” E o Marcus: “É. Mesmo de esquerda, é sim”. E eu: “Então pode dizer a ele que, mesmo de esquerda, ele está contratado”. Foi assim que, lá nos primórdios, ficaram os dois no primeiro grupo, o Candal e o Og Leme, trabalhando em prol do Brasil as extremidades da destra e da sinistra.

Ambos foram protagonistas de momentos curiosos e igualmente fundamentais na história do Ipea. O Og Leme tem um caso interessante ligado ao Paeg (Plano de Ação Econômica de Governo), o programa de estabilização do Castello Branco. Já o Candal coordenou, mais ou menos na mesma época, a elaboração do diagnóstico da indústria que considero um clássico, ao lado do livro da economista Maria da Conceição Tavares sobre os anos 50 e começo dos 60, o processo da industrialização do país e Plano de Metas de JK (Juscelino Kubitschek).

O trabalho do Candal integra uma série de diagnósticos que o Ipea fez, dentro do propósito de um Plano Decenal que o ministro Campos queria que nós preparássemos. Vejam bem, um liberal empedernido como o Roberto Campos solicitando um plano com a extensão de uma década de horizonte. Dificilmente aqueles não afeitos à verdade histórica acreditariam nessa participação do Campos. Nesse plano, Candal foi muito além da colaboração: ele coordenou e praticamente escreveu tudo. Era curioso: nós estabelecíamos um prazo. Faltando um mês para acabar, eu chegava para ele e perguntava: “Como está o trabalho?” E ele: “Não escrevi nada”. E eu: “Peraí, nada? Você tem um prazo e vai cumpri-lo”. E o Candal: “Ah, é? Tudo bem”. E ele ia, trabalhava até duas, três horas da manhã e terminava em dia o cronograma.

OS OPOSTOS SE ATRAEM

A primeira tarefa que recebemos foi a de rever o Paeg. A primeira versão, preliminar, era centrada no aspecto macroeconômico, e tinha sido elaborada pelo Mario Henrique Simonsen. O Campos fez uma primeira discussão, só para ele e o Octávio Gouvêa de Bulhões, lá no 14º andar do prédio do Ministério da Fazenda, no Rio de Janeiro, onde havia um restaurante. Convidou economistas, inclusive estrangeiros, levei o material e terminamos juntos a revisão final. Daí nasceu a primeira edição do Paeg. Só que há dois Paegs, na verdade. Um primeiro, escrito essencialmente pelo Og Leme, tendo as digitais do pensamento dele, sobre planejamento e economia democrática. Eu aprovei, foi publicado e o que todo mundo leu foi esse compêndio.

Só que o Paeg, na versão que todo mundo conhece, vem escrito “Síntese”. Não é à toa, para tornar-se acessível; é um documento de 244 páginas. A redação final da versão mais ampla foi feita por mim. Os capítulos de macroeconomia eu praticamente só revi, o Simonsen é que escreveu. A versão final é dividida em dois volumes, o segundo é maior e trata dos programas setoriais, de indústria, saúde, educação. Foram feitos com a colaboração dos grupos de trabalho que o Campos organizou. Alguns textos eram bons, e aproveitávamos ao máximo. Quando não era possível aproveitá-los, eu, às vezes, ditava, no gabinete do próprio Campos, para cinco secretárias, em revezamento de 15 minutos. Eu revia e dava forma definitiva ao que elas me entregavam, pela premência de cumprir o prazo. Tínhamos de levar isso para as instituições multilaterais, que promoveriam uma reunião especificamente para discutir o país. Tinha umas mil páginas.

A “Síntese” é do Og Leme, baseado nos dois volumes. Até nisso se revelava a pluralidade do Ipea. Não víamos mal nenhum que o texto trouxesse uma introdução, feita pelo Og Leme, que não existe no original, falando da relação entre planejamento e economia de mercado.

Na verdade, o que consagrou o Ipea foram esses diagnósticos setoriais, porque o Paeg é um documento de governo, ele é do Planejamento. Eles nasceram, como falei, de uma ideia do Campos de fazer um Plano Decenal. Não quis discutir o período do plano, um tanto longo ao meu ver. A visão global, o framework dos ingleses, é para dez anos. Fizemos a série de diagnósticos nessa base. Os programas foram para cinco anos. Raciocinamos com algo parecido ao mandato de um governo.

O que fizemos foi o seguinte: o modelo não é de previsões, mas de planejamento, de objetivos a atingir. Porque eu não acredito em previsões pela razão simples de que o futuro não está contido no passado.

O “NINHO DE ESTRUTURALISTAS”

Essa história do Ipea ser uma cabeça de ponte dos estruturalistas tem sua origem na imprensa. É que, quando foi publicado o diagnóstico da indústria, saiu um artigo de um jornalista e economista amigo do Campos, dizendo “agora temos estruturalismo até dentro do governo”. Real­mente, o nosso documento dava muita atenção a aspectos estruturais da economia brasileira, quando aponta que nos anos 50 era muito baixa a capacidade de absorção de mão de obra no país. O emprego industrial crescia a 2% ao ano, o que era absolutamente insuficiente, e em consequência houve acumulação de subemprego, como se dizia naquele tempo, no setor terciário das cidades. Mas lá se fala num componente tecnológico e outro estrutural do aumento de produtividade. Talvez por isso o economista e jornalista tenha feito aquela interpretação. Mas o nosso diagnóstico não tem nada a ver com o da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe) para a inflação endêmica no continente.

Aliás, o caso da Cepal com o Ipea é longo e sinuoso. Pode-se até dizer que impusemos, em um determinado momento, uma espécie de “castigo” à Cepal. De início, diretamente, não houve cooperação entre nós. Posteriormente, houve um problema com a Cepal porque as Nações Unidas nos comunicaram que não haveria mais recursos para manter o escritório no Brasil. Nessa época, eu já era secretário-geral do Planejamento, entre os governos Costa e Silva e Médici. Então eu disse “Não, não vai fechar o escritório”. Pagaríamos as despesas, mas haveria uma compensação. A Cepal faria dois estudos: um sobre exportações de manufaturados, o outro sobre situação relativa de multinacionais e empresas de capital nacional dentro da economia brasileira.

O primeiro foi deliberado porque a Cepal tinha sido responsável, em grande medida, pelo pessimismo no tocante à capacidade das economias latino-americanas de expandirem exportações, nos anos 50. O governo foi nessa conversa e o resultado é que a década de 50, muito boa para o crescimento, foi ruim para o emprego e perdida para as vendas externas. Eu disse que, como castigo, a Cepal estudaria tudo sobre como o Brasil poderia expandir suas exportações de manufaturados.

O estudo foi feito por um economista muito competente, o Fernando Fajnzylber, que depois, nos anos 90, participou da criação do Fórum Nacional. Eu pedi que a Cepal o mandasse ao Brasil, e ele preparou trabalhos excelentes sobre um novo tipo de estratégia para o continente, denominada “transformação produtiva com equidade”.

OS MELHORES CUSTAM CARO

Desde o começo, um pressuposto que ficou implícito e converti em realidade com o apoio do Campos foi que o Ipea teria plano de carreira próprio. Nossa ideia sempre foi tratar desigualmente os desiguais. Se nós exigíamos alta qualificação dos quadros do Ipea, para que realmente pudessem cumprir as suas finalidades, teríamos que oferecer uma remuneração melhor que a de um economista de rotina de um órgão qualquer de governo. Isso funcionou, mas com transparência, porque o plano era aprovado pelo presidente da República e publicado no Diário Oficial.

Já em meados do governo Geisel, fazendo um salto no tempo, fui um dia procurado pelo chefe do Gabinete Militar, o ministro Hugo Abreu, depois da reunião das nove, que juntava nós dois, o ministro da Casa Civil, Golbery do Couto de Silva – meu vizinho de palácio (só um toalete comum separava nossos cubículos) – e o chefe do SNI, general João Figueiredo. Daí o Abreu me disse: “Olha, tem havido certas manifestações na área militar achando que não é uma boa coisa o Ipea ter uma estrutura de carreira distinta dos demais órgãos”. Eu respondi: “General, isso é imprescindível”.

Aliás, a Lei de Reforma Administrativa, feita principalmente pelo Hélio Beltrão e promulgada em março de 1967, é boa até hoje porque se baseia em dois princípios: a descentralização e a diferenciação. Por isso foram criadas fundações, e o Ipea foi transformado em uma delas. A transformação complementava o Plano de Carreira, dando flexibilidade à gestão. Com o IBGE, ocorreu a mesma mudança.

Mas, voltando à conversa com o Hugo Abreu, eu insisti: “General, é fundamental e eu não posso abrir mão disso. Entendo suas razões, e tal. Tem uma coisa: o senhor pode levar o caso ao presidente (Geisel). Mas no dia em que acabar o Plano de Carreira próprio do Ipea, eu saio do governo”. Morreu o assunto.

RISCO CALCULADO

Mesmo antes da saída de Roberto Campos do Planejamento, já intuíamos os riscos com a passagem de um governo para o outro. Porque o pessoal ligado ao presidente eleito, o Costa e Silva, procurou distanciar-se da equipe do Castello Branco. O general Costa e Silva tinha uma linha de popularizar-se, pelo jeitão dele, bonachão. A assessoria de relações públicas usava muito essa imagem, eles acharam que era necessário dissociá-lo do governo do Castello. Deduzi logo o risco para o Ipea.

“Com a descontinuidade administrativa no Brasil, o que vai acontecer com o Ipea?” – comentei com o Walter Poyares (1916-2005), que era um consultor nosso de relações públicas. Ele era conselheiro pessoal do Roberto Marinho, na TV Globo. E ele me disse: “Velloso, você tem razão. Mas talvez eu possa ajudar, porque eu lido com a entourage do presidente eleito, principalmente o Mário Andreazza”. Daí eu combinei: “Você conversa com ele e pergunta se eu poderia combinar uma visita”. A assessoria funcionava num prédio ao lado do cinema Roxy, em Copacabana. O encontro foi marcado, situei o contexto do Ipea e sugeri: “Coronel, você não acha que seria interessante um seminário para o presidente eleito? Porque isso inclusive gera uma boa imagem na imprensa”. Havia aquelas piadas todas questionando a capacidade intelectual do presidente. E o Andreazza gostou da ideia, ficou de consultar o general. Telefonou dando o sim.

Ato contínuo, montamos o seminário. Fui o primeiro palestrante, falando de perspectivas da economia brasileira. O segundo foi Delfim Netto, que a meu convite falou sobre agricultura. Depois da sua famosa tese sobre café, ele tinha feito um estudo complementar com o Affonso Celso Pastore para contrariar as teses da Cepal, do estruturalismo, e sustentar que a produção agrícola no país era sensível a estímulos de preço, exceto no Nordeste, por causa do problema da seca. Um parêntese: quero deixar claro que não foi pela palestra que ele tornou-se ministro. Ele já era secretário de Fazenda de São Paulo e ligado a um grupo político muito forte perante o Costa e Silva. O terceiro palestrante foi o Hélio Beltrão, porque eu já tinha intuído que ele seria o novo ministro do Planejamento. Beltrão falou sobre reforma administrativa, que era o seu grande tema. Ele estava terminando o texto do Decreto-Lei 200, exatamente sobre isso.

Só que no dia seguinte à minha exposição ao Costa e Silva, para a assessoria e os convidados dele, a primeira página do Diário de Notícias trazia uma foto minha com a seguinte pérola: “Professor de Presidentes”. Eu gelei. Só que depois o Poyares me contou ter sido o próprio An­dreazza quem passou a matéria ao Sérgio Figueiredo. Na ocasião, ele tinha uma coluna muito boa no jornal, chamada Periscópio. Foi assim que conheci o Sérgio. A coluna não era assinada, mas procurei saber quem fazia, telefonei e ficamos amigos. Uma longa amizade.

Beltrão foi confirmado e eu fui mantido no cargo. Mas houve grandes resistências na burocracia tradicional do Planejamento, os tais grupos setoriais que o Campos tinha formado e o Beltrão herdou. E eles tinham um ciúme incrível do Ipea. Eu era amigo de alguns dos coordenadores, mas havia outros, igualmente competentes porém aborrecidos com a posição de destaque do Ipea. E começaram a envenenar o Beltrão contra o instituto. Eu fora mantido porque o Beltrão tinha percebido que eu estava próximo ao novo presidente e não viu razão para me afastar. Houve o assédio, uma história longa que não vem ao caso e terminei secretário-geral da pasta do Beltrão, dois anos depois.

Nesse posto, preparamos juntamente com o Ipea o Programa Estratégico de Desenvolvimento (PED), que tem muito a marca do Beltrão e até uma visão diferente do planejamento, focada em prioridades estratégicas. O PED começa definindo essas metas gerais: consolidação das indústrias de base, aumento da produtividade agrícola, fortalecimento da infraestrutura econômica e social, notadamente no tocante à educação e habitação. Ele falava em promover uma revolução no sistema educacional.

O ESVAZIAMENTO PREVENTIVO

Nós procurávamos esvaziar as pressões dos grupos mais duros antes que elas se manifestassem. No final dos anos 60, resolvemos dividir o Ipea em dois. Um de pesquisa econômica e social, o Inpes, e outro de planejamento, o Iplan. Só que o Inpes funcionava no Rio, e aí é que residia o risco maior. Por quê? Porque aquele pessoal jovem tinha ido para o exterior e depois voltado para o Ipea, dando vazão às suas tendências. Tanto que o Ipea começou a ser uma espécie de celeiro de economistas do MDB.

Eles tinham ido para os Estados Unidos e, em alguns casos, para a Inglaterra. Conviveram então com o clima de 68, a agitação universitária americana, forte exatamente em Berkeley. A separação do Ipea ajudava a esvaziar pressões, pois deixava esse pessoal no Rio. O Iplan, que ajudou a formular o I e o II PND, ficava em Brasília. Era um pessoal mais antigo, mais moderado e experiente, que tinha uma carreira dentro do governo. Era um time menos perigoso para o ambiente político da época, em suma.

A divisão resultou de conversas com o Graciano Sá, que tinha feito a parte macroeconômica do Plano Decenal, e com o Isaac Kerstenetzky, meu consultor ad hoc. Que, por sinal, tornou-se presidente do IBGE por escolha minha. Ele me ajudou num grupo de trabalho com o Henrique Flanzer, que deu origem à reestruturação do IBGE e à conversão do instituto em fundação. No final dos anos 60, o IBGE não havia sequer processado os dados do Censo de 60, estava inteiramente desarticulado.

A pluralidade do Ipea era tal que se referia a etnias, também. Nós tínhamos um hindu. Ele tinha um PhD por universidade inglesa, como eles gostam. Eles saem da Índia, a joia da coroa segundo a Rainha Vitória, e vão estudar na antiga metrópole. Nós também importamos um hindu. Ele, muito competente, trabalhou por mais de um ano no Ipea. Também trouxemos grandes economistas de várias nacionalidades e credos, como Rosenstein-Rodan e Benjamin Higgins, que escreveu na época um livro famoso sobre desenvolvimento econômico. O Campos sempre dava um jeito de pescar os amigos dele que vinham ao Brasil para passar algum tempo no Ipea. Quem é que não gosta de passar uns três meses no Rio de Janeiro? Também é importante dizer que o Ipea tinha, nesta primeira fase, um convênio com a Universidade de Berkeley. Um centro liberal, mas no sentido americano do termo, de progressista.

O Pedro Malan, à época um crítico agudo do regime militar e do modelo de concentração de renda, por exemplo, se formou lá não por acaso. Houve um primeiro grupo de professores de Berkeley, que vinha ao Brasil e ficava pelo menos um ano. A segunda leva era coordenada pelo Albert Fishlow, que depois tornou-se um brasilianista e até hoje vem ao país. Esteve, por exemplo, comigo para a comemoração dos 40 anos do Ipea. Em cada área, como a macroeconomia, havia dois brasileiros e pelo menos um de Berkeley. Na de indústria, era o Joel Bergsman, que escreveu um livro sobre industrialização no Brasil, nos anos 50.

NOS TEMPOS DO AI-5

Com o AI-5, a primeira coisa que aconteceu foi a perda do convênio com Berkeley. O Fishlow me procurou, dias depois da edição do ato institucional. “Velloso, a universidade decidiu que a situação no Brasil endureceu, daí o nosso acerto está suspenso”. E eu respondi: “Muito bem, vocês agora voltam felizes para os Estados Unidos e nos deixam aqui com os nossos problemas. É isso?” O Fishlow argumentou que não havia o que fazer, era uma decisão da universidade. Enquanto isso, nós estávamos trabalhando e fazendo coisas importantes. Mesmo como secretário-geral do Beltrão eu supervisionava iniciativas do Ipea, como a ênfase em ciência e tecnologia no PED e um estudo que é pioneiro sobre aproveitamento atual e potencial dos Cerrados.

A ideia geral é que não havia grande utilidade para a agricultura nos Cerrados. Mas nós achávamos que não, em especial o Maurício Reis, depois ministro do Interior no governo Geisel. Para mim, o nome dele é esse, não Rangel Reis, como ficou mais conhecido. No Ipea, ele coordenou esse trabalho que ajudou a revelar o potencial dessa enorme região, onde tinha insolação quase o ano todo, terrenos planos, fáceis de trabalhar com máquinas. Havia problemas, como a acidez do solo, que você corrigia adicionando cal, e carência de alguns nutrientes. Aí se entra num métier da pesquisa científica, em que se destaca a bióloga Johanna Döbereiner. O fato é que os Cerrados tornaram-se nova fronteira do agronegócio.

Grande parte do pessoal do Inpes – já estamos falando do fim dos anos 60, começo dos 70 – realmente era do MDB, nós sabíamos disso. A direção do Inpes era do Aníbal Villela e do Hamilton Tolosa, dois grandes economistas, e eu dizia a eles: “Segurem as pontas”. Eu também agia. Porque todo ministério e até todo órgão como o Ipea tinha que ter uma Diretoria de Segurança e Informação (DSI), que era quem dava as informações para o SNI fazer as famosas fichas. E tenho certeza de que todos tinham ficha lá. Eu mesmo tinha. A minha saiu publicada, numa reportagem do Aluízio Maranhão. Pude aprender diversas coisas a meu respeito… É um sistema que não faz o menor sentido, na base de ouvir falar, do disse me disse. Ainda assim, muito influente, à época.

Então o que nós fizemos? Precisávamos de um general da reserva, inteligente, e que fosse um sujeito moderado, com quem a gente pudesse conversar. Saí pesquisando, encontrei e convidei para ser o chefe da nossa DSI. Então a minha conversa com ele foi mais ou menos a seguinte: “General, nós temos os nossos objetivos. Queremos fazer certas coisas. Quando quisermos fazer, não nos diga que não pode, mas sim ‘como’ devemos fazer para ficar dentro da lei ou para evitar problemas com o SNI”.

É o que eu sempre digo: a hora de esvaziar as pressões é antes que elas surjam. O processo era tão eficiente que qualquer dúvida que fosse aparecendo eu ficava sabendo, falava com o secretário-geral e um de nós tomava providências. Agora, quando era simplesmente questão de opinião, não fazíamos absolutamente nada.

Quando houve a famosa controvérsia sobre distribuição de renda, por causa de um ensaio do Fishlow, no começo dos anos 70, vários economistas do Inpes publicaram artigos com o mesmo viés. E eu aí disse ao Villela: “Reúne aí a turma e faz um documento”. Vocês sabem que há aí uma conversa de que os ministros da época diziam que era preciso primeiro crescer o bolo para depois repartir. Eu não sei nem quero saber a paternidade dessa expressão. Eu nunca fui acusado de falar isso, nem tive que me defender.

Voltando ao documento pedido ao Villela, achei que eles tinham passado ao outro extremo, de distribuir para depois crescer. Isso é complicado. Pensei: “Vou ter de entrar nessa”. Resolvi escrever um texto, por fim publicado no II PND, que nós chamamos de estratégia de crescimento com redistribuição. O resumo da ópera é mais ou menos o seguinte: o pessoal lá do Inpes se manifestava, nós ouvíamos, levávamos em conta e depois tomávamos a decisão que achávamos mais correta.

Depois, já no começo do governo Geisel, quando saiu o II PND, houve outros artigos marcantes publicados na imprensa por economistas do Ipea. Um deles, assinado por Malan e Bonelli. Não dei resposta. Ou melhor: mencionei o artigo três anos atrás, naquela revista de Economia Política do Luiz Carlos Bresser-Pereira, porque duas professoras da USP resolveram apresentar uma nova interpretação do II PND. Escrevi a respeito disso e aproveitei para mencionar o artigo, muito crítico por sinal.

Não tivemos maiores problemas, apesar desse tom rebelde. Como eu disse: qualquer dúvida, o general chefe da DSI vinha conversar comigo.

“MARXISTA-GEISELISTA”

Essa história é a seguinte: nos anos 80, a pedido do presidente Geisel, escrevi um livro. Havíamos deixado o governo em março de 79, mas ele avaliava que havia ainda muita discussão sobre a parte econômica e perguntou se eu não podia escrever algo. Aceitei a tarefa, e a obra chamou-se “O último trem para Paris”. Gerou inclusive uma série na TV Educativa. A editora resolveu que além do Rio e São Paulo teríamos que fazer um lançamento em Brasília. Achei que fazia sentido, eu tinha sido ministro lá, na capital. Lembro que o presidente Geisel foi o único a exigir dos ministros que morassem em Brasília. Isso ele me disse quando me convidou para continuar no ministério.

Eu era então conhecido por lá. Fizemos a noite de autógrafos e de repente vem assim um rapaz, me pediu o autógrafo. Eu olho e falo: “Lembro de você. Creio que do Ipea.” E ele disse: “É. Ministro, eu queria dizer ao senhor, agora, uma coisa. Eu sou marxista-geiselista”. E eu: “Você poderia me explicar como ficou assim?” Ele disse: “Eu trabalhava no Ipea, na área de agricultura, e era marxista, de esquerda. E então começaram a criar problemas. E o secretário-geral da época levou o caso ao senhor, dizem que o general-chefe da DSI achava que eu era muito de esquerda”.

Lembrei-me do episódio. Na época, perguntei ao Élcio Costa Couto se o rapaz era competente. Ele disse que era. E eu: “Então está resolvido. Ele participou da luta armada, sequestrou alguém?” A resposta do Élcio foi “não”. Daí que o rapaz me disse que quando aconteceu isso, e ele pôde trabalhar no Ipea tranquilamente, o tempo que quis. Foi por isso que ele se tornou marxista-geiselista. Eu incluí o termo na dedicatória.

Episódios como esse demonstram o ambiente de pluralismo e crítica transparente, de debate aberto de ideias que marcou e marca a trajetória do Ipea. Hoje, o Instituto retorna às suas origens, assumindo novos desafios para o planejamento estratégico de longo prazo e ampliando o olhar para um horizonte mais largo sem ficar afogado pelos dilemas da conjuntura.”

Depoimento a Wanderley Guilherme dos Santos, Luiz Cesar Faro e Coriolano Gatto | Texto final: Cezar Faccioli | Edição 27, 2004
João Paulo dos Reis Velloso (1931-2019)

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