Janio de Freitas

Jornalista

JORNALISTA, UM RESSENTIDO?

O ex-editor do Le Monde Yves Mamou, autor do livro “A Culpa é da imprensa?”, é um leitor das entranhas do jornalismo. Seu objetivo não é enxergar o futuro, mas a alma da profissão. Suas frases cortam como navalhas. É da sua lavra a expressão “o vazamento de informações está para a democracia assim como a tortura está para a ditadura”. Ele assina ainda a objurgatória: “O jornalismo é invariavelmente manipulado; o que se pode discutir é quando e por quem”. Mas Mamou rasga a autoestima do jornalista quando afirma que “ele é como um carteiro alado, só que eternamente desconsolado por entregar mensagens que não são suas e o contrariam”. Palavras que tocam e desgostam. Porém, por mais que se romantize o contrário, fazem coçar as urticárias da verdade. Nosso protagonista, o jornalista, vive dividido entre o arlequim cruel e o pierrô de ilusões esquálidas. À exceção do mexilhão, que se debate entre a rocha e o mar, nenhuma outra atividade é tão afetada pelo seu entorno. O jornalismo são as externalidades. Sua missão é construir a pretensa e efêmera realidade. Sua angústia é a mesma do postilhão, que não sabe o mal contido nas cartas que carrega. Seu estigma é ser transitório e ralo, sempre o meio, e não o fim. O jornalista se debate entre a falsa proximidade do poder e os maus-tratos da redação. Suas expectativas de ascensão de classe são rasas. Ele é a categoria que mais padece de enfartos. E está entre os que mais sofrem de depressão. Sua voz é a do senhorio. Ou alguém diria que não? Seu trabalho tem o valor que o seu superior determina. E o fruto do seu lavor é cortado, descaracterizado e dilacerado conforme o ditame das circunstâncias. Sua imagem e perfeição seria a estátua do ventríloquo, solitário, petrificado, falando com palavras alheias. Do que sofre o jornalista? É um ressentido, é um ressentido, diria Nelson Rodrigues. E faz sentido. Tensões, desejos de vingança, fracassos, aspirações em demasia, autoengano de toda espécie – a tudo isso se somam, no cotidiano apressado das redações, pecados venosos como a vaidade, a inveja e a ira. É um ressentido, ressentido sim! Pois bem, para que não nos acusem de parti pris, procuramos uma voz superior, acima dos nossos pecadilhos e reflexões rastaqueras. No depoimento a seguir, o jornalista Janio de Freitas, articulista da Folha de S. Paulo, ajuda a destrinçar o ressentimento do profissional de imprensa. Disseca o jornalismo e os jornalistas, a partir desse psiquismo presente nas redações. Tema complexo, impossível de ser devidamente esquartejado em uma entrevista de quase três horas. Três dias após a conversa com os editores de Insight Inteligência, Janio ainda se deu ao trabalho de buscar a reflexão da reflexão. Em mensagem enviada à revista, revelou ter se dado conta de que, uma vez repositórios da classe média, as redações dão expressão à sua classe. O ressentimento está aí, lembrou Janio – um componente anímico, psíquico e o que mais for, tão incorporado à classe média que talvez não seja adquirido. Antes, parece-lhe mais um componente característico e indissociável. Janio imagina alguns motivos para tanto, mas não vem ao caso. O essencial está a seguir.

O AMARGOR NAS BANCAS DE REVISTA

A generalização em relação ao jornalista é sempre algo temerário. A profissão abarca uma série de subespécies, a começar pela tradicional divisão por editorias. Afinal, não há como igualar ou até mesmo aproximar certos estratos da atividade, como esporte, política, polícia ou o chamado segundo caderno, por exemplo. São todos jornalismo? Sim, mas são áreas tão diferentes para o próprio jornalista que é difícil estabelecermos uma aproximação, uma linha mestra que coloque a todos em posição de sentido na mesma fila. No entanto, se existem elementos vinculantes entre aqueles que exercem o jornalismo, provavelmente o ressentimento é um deles. Entre os jornalistas, há, sem dúvida, uma farta dose de amargura, alimentada, em grande parte, por um ilusório sentimento de importância, que não suporta o mais tênue contato com a realidade. Essa característica fica muito latente na área de política. A proximidade com o poder serve para aumentar o logro, o autoengano. O jornalista pensa-se poderoso, mas a relação com a elite política faz apenas agigantar as diferenças e tornar sua reentrada na atmosfera da realidade ainda mais sofrida. A própria dinâmica do nosso trabalho impõe dificuldades na identificação do ressentimento, mas ele existe. Para analisar essa característica, é preciso remontar às origens do pessoal de jornal. Elas mudaram muito nos últimos 30 anos, para dizer o mínimo. Antes desse período, os jornalistas, em geral, eram pessoas ligadas a uma enorme vontade de ascensão rápida. O objetivo não era propriamente o jornalismo, mas essa ascensão. Isso é algo perceptível na quantidade de migrantes que se encontravam nas redações e que não iriam permanecer por muito tempo, a não ser em casos excepcionais. Aquela pessoa vinha tomando a imprensa como um meio de se aproximar dos políticos e dos grandes empresários. E os próprios jornais estimulavam essa tendência, porque não pagavam ou pagavam muito pouco. A norma era o sujeito ter um emprego público. No Diário Carioca, fizemos um grupo que estabeleceu um acordo tácito para resistir a isso. Tínhamos de fazer jornalismo, não havia espaço para emprego público paralelo. No fim, sobramos eu e o José Ramos Tinhorão. Todos os outros, mais cedo ou mais tarde, foram em busca da sombra. Essa realidade mudou bastante com a exigência do diploma, cujo mérito foi trazer uma certa moralização às redações. Esse foi um dos grandes saltos do jornalismo brasileiro, que se tornou uma atividade-fim, deixando de ser um mero rito de passagem.

TÃO PERTO E TÃO LONGE DO PODER

Ainda em relação a essa questão do ressentimento, acho que, entre os jornalistas políticos, ele fica mais exposto. O repórter cresce e estufa o peito por conta da rotina da sua atividade. O dia a dia da função lhe dá motivos para esse comportamento. O parlamentar fica no seu encalço para gravar algumas palavras, ser fotografado e garantir dez centímetros de visibilidade no jornal do dia seguinte. Essa falsa sedução garante ao jornalista algumas horas de soberba. O repórter, como qualquer ressentido, deseja ser adorado e reconhecido. Tem medo da rejeição. Mas, quando ele chega ao jornal, essa relação de dimensão, dependência e utilidade muda completamente. O cenário do teatro é substituído pelo duro e cinzento concreto da redação. Ele encontra o editor, que o colocará no devido lugar. Dirá que aquela matéria imaginada e idealizada para ser a manchete do jornal se transformará num texto modesto de 20 linhas. O editor, por sua vez, transmite uma parte do poder da direção de redação, o que reduz ainda mais a dimensão do repórter. Portanto, aquela proximidade com o poder que ele experimentou na apuração da reportagem transforma-se em pó no ambiente da redação. O repórter percebe que seu poder é quase nulo. Trata-se de um jogo de sobe e desce, mais desce do que sobe, que, naturalmente, poderá se tornar mais uma fonte de ressentimento do jornalista. Esse amargor se juntará a outros. Cada vez mais, o repórter é um insatisfeito com a impossibilidade de ter de se exprimir como jornalista. Na maioria dos jornais, o repórter trabalha em demasia, envia sua matéria e ninguém lê. Tempos atrás, existia nas redações a prática chamada de “vender a matéria” para a primeira página. Fui personagem desse expediente por muitas vezes, quando minha coluna era essencialmente informativa. No dia seguinte, os editores me ligavam para reclamar por que eu não havia “vendido a matéria” à primeira página. Um absurdo. Não sou nem nunca fui camelô da notícia. Não é meu papel “vender a matéria”. Eles que leiam o que escrevi e decidam se meu texto deve estar na primeira página. Nunca, em décadas, telefonei para dizer que estava com uma história importante. Essa prática felizmente perdeu força. Com isso, quero dizer que as relações na redação são fonte de certo tipo de ressentimento entre os jornalistas. Em algum momento começamos a nos sentir mal. O repórter tem pretensão de ser o autor da manchete ou da principal foto do dia, trabalha o dia inteiro e, de repente, vê que o que escreveu sequer foi publicado. Isso vai criando um peso que será descarregado em algum lugar. E o lugar mais fácil de descarregar é no próprio exercício do jornalismo.

NOTAS DE UMA PROFISSÃO PROMÍSCUA

As relações mantidas por um jornalista político e suas fontes são bem distintas das travadas entre um profissional da editoria de esportes e seus informantes. Em ambos os casos, porém, há um certo grau de promiscuidade em algum momento. No esporte, isso ocorre na maior parte do tempo. No caso da cobertura policial, na qual havia até certa dose de romantismo em torno da convivência entre o repórter e o “tira”, alimentado pela própria literatura, essa relação se tornou menos doentia. Profissionalizou-se ao longo do tempo, graças, em grande parte, também à exigência do diploma. Mas era terrível no passado. Mas nada se compara ao modus operandi do jornalismo político, por uma grande razão: Brasília. Aquela é uma cidade singular, onde o convívio promíscuo entre jornalistas e fontes, entre repórteres, editores e políticos atinge níveis exponenciais. É promiscuidade mesmo, sem metáforas, que se reflete no jornalismo produzido por essas pessoas. Todas, de um jeito ou de outro, estão sob efeito desse sistema. A operação jornalística de Brasília é única. Esse metabolismo do poder regenera a inveja e degenera o repórter. Se levarmos ao pé da letra, olha ele aí de novo. Essa distorção é mais um caminho para o ressentimento.

INCESTUOSIDADE COMO REGRA

Essa relação promíscua torna muito difícil a não contaminação do jornalista pela corrupção que ele deveria denunciar. O equívoco alheio e a irregularidade do ambiente em que vive podem muito bem torná-lo partícipe, cúmplice desse estado de irregularidades. Mas a resistência é possível e existe. Não são todos que aderem a esse tipo promiscuidade. A resistência se ampliou muito nos últimos 20 anos, graças, inclusive, à entrada das mulheres na reportagem política. Elas trouxeram novos costumes, uma ética feminina. Além disso, o político tem constrangimento em propor algum tipo de jogo ou situação enviesada para uma repórter mulher. No entanto, algo ainda facilita o convívio deformador: a ausência de uma boa formação de repórter no Brasil. Talvez não seja nem correto falar em formação de repórter, sobretudo repórter político. Nessa área, a liberdade de sacar, chutar, ajeitar por conta própria uma história e um fato é imensa. Se fizermos uma leitura vigilante no conjunto de jornais, muito provavelmente chegaremos à conclusão de que algo próximo da metade, ou mais, é formado por matérias pouco relacionadas com a realidade factual. Isso é fruto da facilidade com que o repórter pode criar uma versão própria. Por essa razão, há repórteres que não leio, não ouço e aos quais não assisto em hipótese alguma. Ter acesso a essas fontes pouco confiáveis nos deixa vulneráveis, no sentido de, em algum momento, usar algo que lemos, ouvimos ou a que assistimos e embarcarmos numa canoa informativa furada.

FRAQUEZAS À ESPREITA

O distanciamento objetivo dos fatos pode até soar uma tese romântica e mais adequada a estudantes de jornalismo. Mas ela não é impraticável, tampouco incompatível com a realidade, muito menos impossível de existir. É perfeitamente factível o jornalista manter uma relação profissional com um político sem embarcar em cinismo de qualquer espécie. No meu esforço para não cair nessa prática negativa, adoto um sistema de distância intransponível, mesmo com um político que me trate com bastante intimidade. Um senador será sempre um senador, eu serei sempre um jornalista em busca de informação. Ao fazer isso não estou preservando o jornalismo, mas a mim mesmo. Estou, no fundo, protegendo-me contra uma fraqueza futura, que pode ocorrer devido a uma relação eventualmente não jornalística, mas pessoal. Não tenho intimidade com nenhum político, mas conheci jornalistas que tiveram intimidade sem que isso afetasse seu desempenho profissional e sua objetividade. Carlos Castello Branco, o Castelinho, era um deles. Sempre fui muito próximo a ele, desde a minha entrada no Diário Carioca, não obstante eu ser bastante tímido e ele já ser o Castelinho. O Castello tinha bastante intimidade com os políticos, a ponto de ter a casa frequentada por essas pessoas. Mas não era possível ver qualquer serviço a favor de suas fontes. Ele jamais se prestou a servir a grupos ou pessoas. Eu sabia quem eram os frequentadores da casa dele, e, às vezes, eu lia suas colunas com a maldade de uma atenção específica e nunca consegui enxergar naquele espaço qualquer obra a serviço de alguém. Portanto, acho que é possível esse distanciamento, ainda que o ambiente não favoreça. Essa preocupação deveria estar na própria essência do jornalismo. Mas não está. Nem aqui nem em lugar algum. Se nós temos Brasília, que ninguém pense que o jornalismo em Washington é uma atividade repleta de vestais. A França talvez seja um ponto relativamente fora da curva. Em Paris, as relações são um pouco diferentes. Há um convívio próximo, mas não essa promiscuidade. Em um jornal como Le Monde existe uma vigilância dentro da própria redação sobre o jornal e sobre a autoria de tudo o que é publicado. No Brasil, alguns repórteres escrevem barbaridades e aquilo passa adiante, em um efeito contínuo, sem freios, sem senso crítico. E, a partir daí, surge um inevitável círculo vicioso em razão dos próprios vasos comunicantes da profusão da informação. No mesmo dia, uma notícia torta sai das páginas dos jornais e vai para a televisão. Mesmo se provando que o fato é completamente infundado, nada acontece. Não há cobrança nem prestação de contas. Essa é uma das razões pelas quais o jornalismo deveria ser auditado. A imprensa, de modo geral, não suportaria uma permanente acareação com os fatos.

O TEMPO E AS CABEÇAS

Para os não familiarizados com a rotina da profissão, a velocidade com que as matérias desaparecem no ar e os fatos rapidamente são substituídos por outros pode causar a impressão de que o trabalho do jornalista é descartável. E mais do que isso: pode induzir à ideia de que essa perecibilidade nos causa algum tipo de sofrimento. No entanto, a própria dinâmica do jornalismo impede, pelo menos em grande parte, esse tipo de sentimento. No dia seguinte já viramos a página, correndo atrás de outra pauta ou mesmo buscando fatos novos em relação ao assunto que tratamos na véspera. Ou seja: mesmo que quiséssemos, não teríamos tempo para remoer injustiças ou esquecimentos. Os jornais têm uma velocidade própria de translação. É preciso dar uma volta completa em torno do sol a cada dia, o que torna o ritmo de uma redação alucinante. Não há tempo, portanto, para vinganças, reais ou imaginárias, forjadas por uma sensação de que nosso trabalho se evapora a cada exemplar que sai da gráfica. A revanche sempre ficará para depois, em um adiar eterno, em prol de uma batalha imediata. Mais do que ficarmos procurando uma sensação de derrota onde ela decididamente não existe, o que todos devemos fazer é refletir sobre a taquicardia da prática jornalística. Nossa atividade ficou exageradamente acelerada, notadamente no que diz respeito à própria produção de um jornal. E, ainda assim, mesmo com o ritmo quase insano das redações, há notórios desequilíbrios na indústria jornalística como um todo. Os veículos não acompanharam a engenharia gráfica e os benefícios que ela trouxe para o jornalismo. Os engenheiros concebem máquinas que permitem fechar um jornal com extrema qualidade às duas da manhã. Mas as redações não cuidaram ou não souberam se adaptar a essa disponibilidade industrial, tampouco procuraram criar sistemas para organizar processos de transporte e distribuição. Ou seja: a logística, sim, a logística é um dos fatores determinantes para a qualidade do jornalismo que produzimos atualmente. Ninguém se dedica a pensar nessas questões. Aliás, para sermos mais abrangentes e coerentes com a realidade, ninguém mais pensa jornalismo no Brasil. O jornal é feito, mas não pensado. Os profissionais da área estão mais preocupados com outras questões, como a internet. Essa história de que os jornais vão morrer por causa da internet é difundida pelos próprios profissionais da mídia impressa. Ou seja: apontamos uma arma para nossos próprios rostos. Quem pensa dessa maneira não tem qualquer conhecimento sobre a história da imprensa no Brasil. Duela contra moinhos de vento. Duro mesmo foi encarar a explosão da televisão. Aquela, sim, foi uma verdadeira batalha. Hoje, essa suposta competição com o meio digital é muito menos agressiva. São processos diferentes. Quem está entrando na internet já conhece a televisão. São meios que guardam certa consanguinidade no que diz respeito à apresentação da notícia. A televisão trouxe, na sua origem, um ambiente realmente novo em termos de jornalismo, o que despertou uma curiosidade gigantesca. Enfrentá-la não foi uma tarefa fácil para a mídia impressa. Por sorte, houve alguns acontecimentos que ajudaram o jornal a mostrar o que ele tinha a acrescentar e a oferecer de mais sólido, permanente e seguro. Já o noticiário da internet é muito frágil, feito, em boa parte dos casos, por estagiários e profissionais ruins, em um trabalho mal apurado, mal escrito e inseguro. O jornalismo, de certa forma, é como o cinema, ou as artes em geral. Às vezes, desabrocham duas ou três cabeças luminares que se encontram no tempo e no espaço e mudam o curso da história.

A VINGANÇA DO JORNALISTA

Acredito na ideia de que os blogs são, em grande parte, o local para o jornalista destilar seu fel mais pestilento. É uma forma de mal-estar com o próprio jornalismo. É nesse ponto que os jornalistas se apresentam como uma espécie de vingadores, com um tipo de superioridade moral inquestionável, acima do bem e do mal. Seu desconforto está bem abrigado em seu blog. E, por que não, também sua covardia. O desejo de vingança faz parte da rotina de um jornalista, e no blog ele parece se sentir livre para expressar melhor esse desejo. Mas meu grande questionamento em relação aos blogs é sua preocupação primordial com a prioridade da rápida divulgação, em detrimento da precisão. Essa forma açodada tem levado a situações monstruosas. Não há nenhuma razão para o fato de que, desejando publicá-la antes, o blogueiro não se preocupe em ser plenamente seguro quanto à informação que vai divulgar. A prioridade deve ser sempre a segurança e a veracidade da notícia. Pensar apenas no furo é um procedimento deformado. Deixamos as raias do jornalismo e entramos em uma disputa comercial. Os blogs, portanto, também não resolveram o problema do jornalismo na internet. Ainda estou esperando para ver a contribuição que a internet dará ao jornalismo. Não sei se essa contribuição virá. Estou cético.

RITMO INSANO

Grande parte dos jornalistas trabalha sob uma tensão excessiva. Uma tensão que, a partir de determinado ponto, nem se percebe mais. Não à toa o jornalismo é uma das profissões com maior número de doenças cardíacas. Há 30 anos assino uma coluna e, ainda hoje, sempre que vou escrever, estou muito tenso. Além dessa aflição natural, jornalistas trabalham em um ambiente competitivo, têm sua vida desconectada da família e dos amigos, são pessoas sem noite, sem garantia de feriados ou domingos. E, aparentemente, quando se extinguiu a tensão do trabalho, vêm outras em sequência: O que acontecerá com a matéria? Houve erro? Qual o impacto que ela terá? Alguém fará pressão sobre a direção do jornal? Ela criará inimizades? O jornalismo é uma profissão doente, feita por pessoas doentes. O ritmo do jornal é uma das patologias do jornalismo que precisavam ser mais bem estudadas. Deixa rastros de maneira indelével. Alimenta mágoas e amarguras, produz feridas e sangramentos, inspira raivas e perversidades, cria vítimas e culpados. O estresse, as ansiedades, as tensões das más escolhas, o excesso de tempo dedicado ao trabalho, o descompasso de seus horários em relação à família e aos amigos, tudo isso produz um exército de vítimas destruídas física e moralmente.

O RICOCHETE DO RESSENTIMENTO

Provocando tantos maus sentimentos, o jornalismo recebe de sua própria vítima, o jornalista, a mesma ira, mágoa e ressentimento que produz. É uma perversa relação de mão dupla, em que causa e consequência se misturam e trocam de papéis o tempo inteiro. O fardo imposto pelas frustrações, equívocos e ilusões cria uma doença permanente no jornalista, cujo mal será transferido para algum lugar. E este lugar é o próprio jornalismo.

Depoimento a Claudio Fernandez e Rodrigo de Almeida | Edição 57, 2012

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