Gillo Pontecorvo

Cineasta

A ESTÉTICA POLÍTICA DO CINEMA ESPERANÇA

A ideia de uma entrevista com Gillo Pontecorvo surgiu a partir de um bate-papo com amigos cinéfilos, da percepção da grande atualidade dos filmes do veterano diretor italiano, há muito sumido das telas. Para os que desconhecem, Gillo dirigiu alguns dos filmes de carga política mais marcantes dos cinemas italiano e mundial. Quem assistiu “Queimada” ou “Batalha de Argel” sabe do que eu estou falando. Hoje, é um homem combativo na defesa da sobrevivência de um cinema não americano, batalha difícil mas não inglória. Os EUA dominam 85% do mercado mundial de cinema, sufocam a possibilidade de exibição do produto médio dos demais países e impõem a “Pax Americana” não só pelas armas mas também – e muito – pelo entertainment. Gillo é, portanto, um guerreiro. Um velho guerreiro de grande lucidez e combatividade.

A entrevista, por telefone, não foi fácil. As barreiras linguísticas, sempre presentes, encaradas por Gillo com um bom humor nem sempre presente, geraram alguns momentos de tensão interatlântica. O produto final, julguem agora.

A unilateralidade do poder mundial, expressa de forma espetacular na recente guerra que o Império anglo-saxão travou com o Iraque, ameaça com tempos de dominação e conformismo. O cinema sempre reservou um espaço para o seu próprio bunker de resistência. Vem aí um novo filme de auspiciosa bravura ou chegamos mesmo ao “fim da História”? Afinal, os americanos detêm 85% do mercado mundial.

O cinema foi edificado em cima da esperança. Portanto, seus alicerces são sólidos. Acho que o tempo de reclamação está superado. Todos sabemos da hegemonia da produção audiovisual americana no mundo. Não creio que o sucesso do cinema americano se deva à sua superioridade qualitativa. Mas em organização e marketing eles estão anos-luz à nossa frente. E não adianta ficar lamentando. Precisamos nos mexer. Levando em conta que existem cerca de 650 milhões de possíveis consumidores de nossas imagens no mundo, a saída é tentar se organizar melhor, imitar os americanos que estão à nossa frente. O desafio é dar início a uma série de ações afetivas como os prêmios que distribuímos nos grandes festivais europeus – Cannes, Veneza e Berlim. Pretendemos estender essas premiações a outros festivais.

Alguns países, e a França é um exemplo notório, têm sido reativos a essa nova colonização, adotando um sistema de reserva de mercado. Qual a sua opinião sobre essa estratégia de sobrevivência?

Considero a reserva de mercado uma alternativa razoável para ser adotada a curto prazo, mas é uma situação que não deve persistir indefinidamente. Em princípio, poderia possibilitar a distribuição e exibição inclusive de filmes feitos em países do Terceiro Mundo. Acredito que essa poderia ser uma boa alternativa para vocês.

O senhor considera que o fenômeno Silvio Berlusconi deve ser analisado sob a ótica do nascimento de um neopopulismo? É possível antever o antagonismo Berlusconi versus cinema italiano?

Creio que Berlusconi e o berlusconismo representam um grande perigo tanto para a nossa cultura quanto para o cinema. É uma ameaça que está posta e que pode crescer de forma assustadora. Ainda não é algo que poderíamos chamar de ditatorial, mas, evidentemente, caminha nessa direção.

Não existe mais o cinema italiano como havia na época de Fellini, de Monicelli, de Scola e de Sica. Isso é saudosismo nosso ou existe mesmo um declínio? Qual a razão que o senhor atribui para tal mudança?

O senhor quer dizer que o cinema italiano atual não é tão grande como foi antes, não é? Bem, eu não dramatizaria tanto assim, pois em todas as formas de expressão artística, como na música, nas artes plásticas, na literatura de todos os países, há altos e baixos. É certo que nos últimos sete ou oito anos o cinema italiano não produziu obras muito boas. Mas tenho a impressão de que estamos retomando a produção. E não creio que esteja sendo otimista ao dizer que estamos apenas começando… Essa retomada toma diferentes aspectos, tais como, por exemplo, uma nova vontade nos autores jovens, mas não somente nos tão jovens, de se interessar pelo que está à nossa volta, em vez de se limitarem aos minimalismos (o que certamente não era tão positivo e que foi a característica do cinema italiano dos últimos anos). É preciso investir em coproduções, distribuição e campanhas publicitárias para fazer nosso cinema voltar a um status superior. E como sempre, é preciso mergulhar em humanismo.

Na sua opinião, recentemente, qual é o melhor filme italiano?

É difícil eleger o melhor. Tenho visto filmes de autores jovens e seus primeiros e segundos filmes dão claramente a sensação dessa retomada. Vou citar somente um que vi por acaso. Insisto: foi por acaso mesmo. O filme é “Domenica”, de Wilma Labate, que dá a sensação de alguém que é jovem e que tem tudo para se tornar uma ótima diretora. Poderia citar outros cinco ou seis, mas menciono esse porque foi o último a que assisti. Por acaso, já passou no Brasil?

Infelizmente, acho que não.

Então se movimentem, através dessa publicação e de outras, para que ele chegue ao Brasil. É um grande filme.

Muitos acreditam que estamos órfãos de utopias. O senhor acredita que o cinema também sofre desta perda?

Considero que esse é um dos elementos mais importantes, mas não o dominante. Essa utopia está à espreita e pode ser vislumbrada nas tentativas de alguns cineastas que tentam romper com um circuito apenas comercial. Mas, não resta dúvida que cineastas políticos parecem ter cada vez menos lugar num mundo indiferente. Não é que as contradições tenham deixado de existir. Muito pelo contrário: basta abrir os jornais e ler. É que essas contradições deixaram de ser apresentadas no mundo dos espetáculos, do cinema em particular.

O chamado cinema político, de engajamento ideológico, estaria vivendo uma espécie de crepúsculo?

Tudo está sempre muito interligado, dependendo da situação geral. O interesse político momentaneamente diminuiu nos últimos anos. Insisto em dizer que é momentaneamente. Naturalmente o cinema se ressente disso. Como o considero um instrumento de crítica e interpretação da realidade, o declínio do cinema político pode ser uma decorrência do desinteresse geral pela política. Qualquer pesquisa de opinião junto às diversas camadas da população revela hoje uma série de interesses dominantes ou instituições mais críveis do que a política tradicional. Não sei se sempre foi assim, porque essas medições antes não existiam. Talvez as condições históricas sejam menos propícias ao surgimento de energias transformadoras ou transgressoras. Mas tenho esperança de que a participação política da população recrudesça e leve o cinema de volta nessa direção.

O excesso de informação fragmentada, nas mais diversas mídias, é uma espécie de refrator da reflexão mais aprofundada e do tempo mais vagaroso para as imagens cinematográficas. Será que temos um novo dilema do tipo informação commoditizada versus cinema de autor ou cinema de pensamento?

Há uma influência negativa por parte da divulgação dessa linguagem e esse é certamente um perigo contra o qual os autores devem lutar. Não acredito no cinema apenas como diversão, acho que se trata de uma estética política. Em “Batalha de Argel”, por exemplo, trabalhei com o que chamo de ditadura da verdade. Tudo que parecia verdadeiro era imediatamente descartado. Quando terminei o filme sugeriram que eu deveria pôr um aviso dizendo que não utilizara uma única cena extraída de cinejornais. Foi o maior elogio que recebi. Queria cenas de cinejornal, granuladas, mas não medíocres como elas costumam ser. Os autores, portanto, devem lutar contra esse tipo de informação fragmentada, porque do contrário, isso determinará uma decadência, uma fase mesquinha na cultura e no conhecimento geral.

O senhor acredita que a TV a cabo, a internet e outros tipos de mídias modernos poderão ser aliados ou inimigos do cinema? Ou são os vírus de última geração de uma cultura cinematográfica independente?

De um lado eles podem ser bons porque vão ajudar os meios de distribuição e ainda podem permitir uma maior divulgação de um certo tipo de cinema de autor. Acho que existem as duas possibilidades de tanto serem aliados como inimigos. É preciso lutar para que a possibilidade positiva prevaleça.

No Brasil o governo do presidente Lula tem demonstrado a intenção de submeter o conteúdo da produção artística a ditames da política de Estado. Já vimos esse filme e o resultado não foi bom. Gostaria de ouvir suas considerações em relação aos limites da intromissão do Estado. Por outro lado, como sobreviver, notadamente nos países do Terceiro Mundo, sem o patrocínio do Estado? O senhor tem assistido a filmes brasileiros?

Vou começar pela última pergunta. Tenho um grande amor pelo Brasil, onde estive duas ou três vezes. Gostaria que na Itália circulassem mais filmes brasileiros, mas também seria necessário que os distribuidores italianos procurassem promover essa possibilidade para o cinema brasileiro. Quanto à política do presidente Lula, não a conheço o bastante, mas tenho a impressão de que Lula é uma pessoa sábia e que, portanto, saberá colocar limites à intervenção – ou intrusão – do Estado na criação artística.

No final, sempre voltamos ao dilema de mais ou menos Estado.

O senhor tem razão: o Estado é quem investe e pode investir. E deve aplicar o dinheiro em tudo que eleva a cultura nacional. Mas é preciso que todos tomem cuidado para que esse investimento não signifique intrusão. Porque no mundo inteiro, onde houve essa interferência, ocorreram desastres de grandes proporções, trazendo prejuízos irreparáveis à cultura nacional.

Como é a colaboração entre TV italiana e o cinema? A RAI fez muito pelo cinema?

Sim, a televisão e a RAI fazem muito. Na Itália eu diria que a televisão é muito mais ágil, o que foi positivo para o cinema. Mas devemos sempre resistir para que isso não signifique padronização. Pode representar uma ajuda no plano econômico, tão necessária como o pão, mas é preciso ter cuidado quando querem se intrometer na criação.

Entrevista a Luiz Antônio Viana | Edição 23, 2003
Gillo Pontecorvo (1919-2006)

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