Eliezer Batista

Engenheiro, ex-Ministro e ex-presidente da Vale

A FEDERAÇÃO E A ANTIMATÉRIA

Certa vez, o físico Albert Einstein fez o seguinte comentário com o cientista Max Born: “Você acredita em um Deus que joga dados e eu, na completa lei e ordem em um mundo objetivamente existente”. No traçado mágico da nova federação, desenhado pelo engenheiro Eliezer Batista, o Brasil, como na frase de Einstein, ganha inusitadas divisões, seguindo uma racionalidade capaz de iluminar o horizonte. A lógica não segue modelos cartesianos e ganha a sinuosidade de uma enorme espinha de peixe. “São grandes eixos, os belts”, afirma. Na matemática de Eliezer, como na de Einstein, dois mais dois podem ser três ou cinco. Na peculiar epistemologia de ambos, “a ideia – conforme os dizeres do notável físico – vale mais do que o conhecimento”. O pensamento de Eliezer, sem tirar nem pôr, é a mais perfeita tradução da palavra sinergia.

“A construção do Brasil sempre teve muito pouca lógica. Isto quer dizer que a escolha das prioridades, elaboração do planejamento, fundamentação das políticas de organização e fomento nos níveis macro e micro e a definição dos empreendimentos muito raramente estiveram subsidiados por uma base científica capaz de reduzir os erros dos detentores das decisões de investimento. Os projetos sempre foram elaborados seguindo uma abordagem pontual, tópica. As rodovias eram construídas, tendo como motivação apenas o interesse geopolítico. Veja o que foi feito no passado com a Rodovia Panamericana: ligava as capitais com interesse geopolítico. E quem não se lembra da já quase mitológica Transamazônica? Como ponto de partida, nós usamos o raciocínio sistêmico, holístico, como pilar da nossa metodologia, pensando o Brasil integrado na América do Sul. Quero explicar que, quando falamos “nós”, eu me refiro a dezenas de cientistas e técnicos que – inicialmente aqui na Vale do Rio Doce, depois na Secretaria de Assuntos Estratégicos e no BNDES e agora novamente junto à Presidência da República – participaram dessa grande radiografia da economia física e potencialidades do país. São centenas de mapas, estudos e softwares que permitem enxergar as vocações do Brasil com base em subsídios técnicos, e não apenas balizando a decisão na vontade política. Esta pode prevalecer, mas o gestor, o responsável pela decisão, terá parâmetros científicos para sua escolha, seja ela qual motivo for. Retornando ao motivo da ampliação dos nossos estudos para toda a América do Sul, insisto que na economia globalizada não há outra maneira de entender a realidade senão atravessando fronteiras. Em segundo lugar, nós introduzimos a noção de velocidade, que não entrava nos planejamentos anteriores. E, por último, a mudança de sentido dos vetores. Sob o ponto de vista empresarial, a mudança dos focos econômicos e a obsolescência das indústrias high-tech são tão grandes que é preciso saber trocar de rumo no tempo certo. Caso contrário, o empresário está perdido. É o crescimento não linear. É a teoria do caos, que de caos não tem nada. Ela ajuda a raciocinar e a organizar conjuntos complexos e sem equivalência. É preciso escolher as linearidades junto com as equações não lineares e um algoritmo de ligação. A teoria do caos é muito usada para analisar os fenômenos meteorológicos, como o El Niño. Isso tudo é importante para ser usado em termos de lógica no momento da tomada da decisão. Além disso, o estudo foi feito sob a égide do desenvolvimento autossustentado, que é o desenvolvimento físico, economicamente viável e saudável ambiental e socialmente. É claro que em cada projeto há uma dosagem diferente desses componentes. Mas estão todos embutidos no mesmo conceito. Não existe qualquer dicotomia. Esse é o pano de fundo de todo o nosso raciocínio.

O primeiro passo para construir esse edifício foi o trabalho de macrozoneamento ecológico-econômico, que começa com o estudo científico da Amazônia, cujo objetivo foi entender o território e sua capacidade de prover e exaurir. Então você lançava cinco ou seis variáveis complexas num software, partindo de todas as informações disponíveis, para classificar os ecossistemas da região amazônica, ou seja, adquirir o conhecimento mínimo do território para atacá-lo economicamente, e não fazer o desenvolvimento econômico como foi feito, escurecendo tudo aquilo que existia ali. São problemas de solo, vegetação, hídricos etc. Chegamos a mais de 100 ecossistemas completamente diferentes. Isso é condição prévia e sine qua non para enfrentar o problema econômico. O nosso erro foi simplesmente ignorar que uma região é algo bem maior do que um desenho no mapa. As Organizações Não Governamentais (ONGs) ajudaram muito, no início, alertando a sociedade para essa questão. Até há pouco tempo, todo mundo achava que conversão de clima era uma besteira, que o aquecimento atmosférico não era cientificamente comprovado. As ONGs ajudaram nessa compreensão. O problema, como sempre, é que, enquanto algumas poucas ONGs, no decorrer do tempo, evoluíram cientificamente, outras passaram a fazer proselitismo ecológico com finalidades políticas.

Todo o nosso trabalho, desde sua concepção mais pioneira, foi abordado pelo enfoque geoeconômico. Não há qualquer conotação geopolítica ou geoestratégica. A questão estratégica sempre se confundiu com as questões militares, com o problema da guerra. Em grego, a palavra estratégia pode também ser traduzida como general. Tome-se o exemplo do Brasil e da Argentina, que era tratada como uma inimiga. Os problemas estratégicos, portanto, precediam aos demais, incluindo o econômico. Nunca enfrentamos o problema econômico, sempre impedido pela abordagem geoestratégica. A análise econômica vinha sempre a posteriori. As ferrovias tinham bitolas diferentes, não podíamos comprar o gás da Argentina, os generais argentinos achavam que a usina de Itaipu era para inundar Buenos Aires, e assim por diante. Não havia sinergia entre os dois países. Não havia essa possibilidade. Hoje, isso tudo pertence aos livros da História.

No plano interno, surgem os complicadores do desenho e organização da federação. A análise dos estados, em separado, é completamente diferente do estudo de suas regiões macroeconômicas. É nesse ponto que entra o conceito da sinergia, quando dois mais dois podem ser cinco ou três. Não existe a palavra anergia, o contrário de sinergia. Mas, se ela existisse, bem poderia ser aplicada a algumas barbaridades cometidas no âmbito federativo. A mesma soma de dinheiro aplicada a cinco estados do Nordeste pode ser também feita à base de macrorregiões – que abarcariam parte dos estados, criando eixos de desenvolvimento livres do demarcamento político-geográfico – com resultados bem superiores. Quer dizer, o retorno será maior nessas regiões do que na divisão federativa. São os erros da federação com relação à análise econômica pura. Com isso, não quero dizer que não vamos analisar pelo lado geoestratégico e pelo lado geopolítico. Ambos continuam a existir. Mas isso não é atribuição nossa. Isso é tarefa para os políticos e para os diplomatas. Apenas nós invertemos a ordem de atacar os problemas. Os profissionais das outras áreas, que tratarão das abordagens políticas e estratégicas muito melhor do que nós, terão em suas mãos os problemas econômicos quantificados e colocados de uma outra forma, capaz de permitir uma visão integrada, gestáltica, da mesma questão. Como nós conseguiríamos descobrir a sinergia entre as economias do Brasil com a Venezuela, Argentina ou Bolívia, ou mesmo intraestados desses países, senão dispuséssemos dessa metodologia de análise?

O raciocínio geoestratégico sempre inibiu técnicos competentes de buscarem essa integração. Para entender melhor o conceito, é interessante ir à origem da palavra em grego clássico, uma língua muito rica. A palavra guerra é polémou. A noção de plano veio da estratégia da guerra. Isso evoluiu para a cidade-Estado (polis), e a ideia de plano ficou condicionada à estratégia da cidade-Estado. Com a economia, houve uma nova mudança. Então, o que é econômico-estratégico é igualmente estratégico-econômico. Não existe a dicotomia que muitos falam por aí. Hoje a palavra estratégia virou uma expressão bastarda. Transformou-se em um inclusive, aliás ou sin embargo, em espanhol. Quem sintetizou esse tipo de bobagem foi Bill Rogers, com uma pérola do pensamento semiótico: “Seu problema não é aquilo que você não sabe, é aquilo que você pensa que sabe e não é aquilo”. Como a federação, essa frase é uma conversa de doido.

A ÂNCORA DA INFRAESTRUTURA

A infraestrutura é o nosso primeiro elemento de análise, a nossa âncora – em que pese ser esse termo hoje perigoso –, e segue em paralelo com o desenvolvimento econômico. O problema da América do Sul é o mesmo do Brasil: temos uma economia muito diferente. A infraestrutura consome a maior parte do capital. Sem ela não é possível promover o desenvolvimento, sobretudo a logística, a grande responsável por dividir o território, definindo-o por macrorregiões. Dentro da infraestrutura, nós classificamos quatro elementos fundamentais. O mais importante é o capital humano, do qual não trataremos neste depoimento. Ele é tão complexo que nós o colocamos como um capítulo à parte. A nossa noção de infraestrutura é um pouco diferente da concepção do Banco Mundial. A logística, por exemplo, representa tudo que é gasto para levar um objeto do ponto “A” ao ponto “B”. Em termos macroscópicos, fazendo as aproximações intraunidades federativas ou com países ou continentes, é o conjunto de custos de vias – rodoviárias, ferroviárias ou hidrovias –, armazenagens, os problemas portuários, intermo­dalidades, toda as logísticas de transporte marítimo, os problemas de alfândega, de marketing e rede de distribuição. Isso é uma coisa só; faz parte de um mesmo sistema. Sepetiba (no estado do Rio de Janeiro) não é um porto, mas parte de um elo que abrange uma grande região, centralizada no porto, cuja abrangência econômica engloba os estados de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. O sistema cobre tudo isso. É errado ser chamado de Porto de Sepetiba. O correto é designá-lo como sistema de logística do Sudeste do Brasil. Da mesma forma, o Teleporto é a infovia da multimídia do Rio de Janeiro. É fundamental tratar os termos com as definições adequadas. As palavras exercem uma grande magia.

Existem outras várias inovações no nosso trabalho. A maior delas é o tratamento simultâneo dos problemas de infraestrutura. A ideia maior do projeto é levar o Brasil à condição de uma economia do pensamento, com o desenvolvimento de produtos e serviços de alto valor adicionado. O nosso objetivo é mostrar que nenhum país enriquece com os recursos naturais. Eu conheci a Coreia como um monte de ruínas. Eles fizeram o leap-frog. Saíram do zero, sem os inconvenientes dos países europeus, que estão cheios de tradições, recheados de uma parafernália, que não serve para nada, e assim não conseguem dar o pulo. São lotados de preconceitos. A Coreia há 20 anos não era nada e deu um grande pulo por cima do atraso. O mesmo vale para Cingapura ou Taiwan.

Em inglês é chamado de knowledge intense economic, que é a economia baseada em conhecimento. Não é só o conhecimento. É a ideia. Daí vem o valor da intelligentzia. É como Einstein dizia: as ideias valem mais do que o conhecimento propriamente dito. É preciso inovar. E para atingir esse objetivo é preciso ter ideias. Tudo é interligado. O conhecimento também é fundamental e está relacionado com a educação. No final, tudo está ligado sempre ao problema de educação. Concentramo-nos em telemática, que reúne telecomunicações, informação tecnológica, multimídia. Isso tudo é uma coisa só. É preciso simplificar os conceitos para fazer a análise global e com a lógica matemática por trás de tudo isso. A telemática é a ponte entre a economia de recursos naturais e a economia de inteligência (blend power). É o mais importante dos três elementos de infraestrutura. É uma superposição natural, porque ela é sinérgica, entrelaça-se com todos os demais elementos.

O tratamento simultâneo permite que as redes de fibra ótica vão ao longo das ferrovias, das rodovias e das linhas de transmissão. Há um imbricamento crescente dessas variáveis.

A logística condiciona a telemática e a energia. Boa parte do custo disso tudo é a faixa de servidão. Além disso, há um problema ambiental. O pipeline de Mato Grosso vem ao longo da Noroeste para não entrar no Pantanal. E ao longo dele vai ser feito a linha de transmissão ou de fibra ótica. Há uma rodovia que está sendo asfaltada que faz a ligação da Venezuela com o Brasil sobre a qual vai passar a linha de transmissão. Nesta linha, existe a ligação de telecomunicações. Tudo é uma coisa só. Antigamente, o lugar tinha energia, mas não possuía telecomunicações; tinha transporte, mas inexistia energia e assim por diante. O desperdício de infraestrutura era brutal, um benefício era anulado pela ausência de outro. Um investimento, comemorado como grande avanço, não leva a lugar algum. E tudo isso passava desapercebido.

PULANDO DE PLANO EM PLANO

Outro problema que passou a ser identificado pelos economistas americanos modernos, como Paul Krugman, um dos melhores de sua geração, é o seguinte: o que adianta construir um modelo teórico, como o Plano Plurianual no tempo do governo Collor, pondo uma taxa de crescimento demográfico projetada ou uma taxa de crescimento do Produto Interno Bruto prevista e em cima da qual é construída um castelo teórico, mas sem correspondência com a economia real? O pessoal ficou apavorado no governo Collor quando (em meados de 1992) os japoneses estiveram no Brasil e o Marcílio (Marques Moreira) fez um discurso tradicional da estabilidade da moeda e tudo mais. Então, os japoneses perguntaram sobre a situação da energia e dos portos e ninguém sabia responder com precisão. As autoridades brasileiras falavam que era formidável, maravilhoso, e os japoneses queriam saber os números. Pediam: o senhor poderia colocar esse formidável em números? Quer dizer, não há mais ninguém bobo no mundo. Todos sabem calcular, quantificar com precisão e fazer a correlação entre a realidade física (a situação de infraestrutura) e o orçamento – onde será necessário investir dinheiro para saber a taxa de retorno. Caso contrário o dinheiro estará sendo jogado fora.

Em um país pobre, sem taxa de poupança, o dinheiro não pode ser usado em porcaria. Quando nós começamos esse trabalho, a ideia era justamente permitir que o Plano Plurianual tivesse um grau de correlação com a economia física para orientar os investimentos. Os projetos, quantificados com um banco de dados, poderiam ser filtrados à luz de uma análise quantitativa, o que permitiria diminuir o desperdício e balizar a decisão puramente política. É claro que depois é posta a componente política. Mas, a ideia era diminuir o grau de erro. A mesma coisa foi pensada em termos de privatização, ou seja, o nosso objetivo era aproveitar ao máximo tudo aquilo que já estava construído, procurando soluções para otimizar o existente em contraponto à grande ideologia de desconstrução destrutiva – as teses de que tudo tinha que ser fechado, sucateado, destruído.

O grande drama nosso é que a maior parte da infraestrutura foi construída para uma economia que não existe mais. Por exemplo: as ferrovias na Zona da Mata foram construídas para o transporte de café. Rodovias no Nordeste foram desenhadas através do critério puramente político. O próprio sistema rodoviário de Minas Gerais foi feito para sair e chegar em Belo Horizonte, apenas seguindo o critério de que era a capital. O mesmo vale para Brasília. Ninguém levou em conta o custo e o impacto na inflação. A ideia em si não era ruim. Mas, ao se calcular o custo daquilo no tempo, cai-se para trás de susto. Havia outras maneiras de levar a economia para o interior, de fazer a mesma coisa. Aquela foi uma maneira que contemplava somente o enfoque geopolítico. Era preciso adotar outros critérios.

Veja a privatização da Rede Ferroviária. Tudo foi feito dentro do critério da divisão administrativa que existia, e não no critério econômico. Temos mapas de todos os sistemas viários existentes que têm razão econômica no presente e no futuro. É a nova geografia econômica. Então, essas novas rodovias, ferrovias e hidrovias surgiram dessa racionalização geoeconômica. As hidrovias, como a Madeira-Amazonas e a Paraná-Tietê, que foram introduzidas nesse novo mapa e não figuravam em planejamento algum, representaram, proporcionalmente, um investimento muito pequeno. A ideia era gastar menos capital para sua complementação mesmo que não estivessem em uma geografia exatamente ideal. O alvo é o custo menor. Mais tarde, com a capitalização das regiões, seriam corrigidos os chamados elos faltantes – missing links – com vistas a atingir a solução melhor.

EM BUSCA DO PÉ DE GALINHA

Numa fase seguinte, começamos a estudar a divisão do território, ou seja, as áreas do Brasil que, independentemente da divisão federativa, têm sentido econômico. Nesse ponto, nós entramos na questão da logística. Teoricamente, isso significa aproveitar os sistemas viários atuais e planejar o que vai para o futuro, levando em conta as riquezas e as outras informações já existentes. Nesse plano, estamos considerando o macrozoneamento estratégico e muitas informações que foram coletadas para saber os traçados dessas vias (rodo, ferro ou hidro) e dos portos. Dentro do conceito da economia de importação e de exportação e na economia interregional, os portos ganham muita importância. Esse trabalho é o mais difícil. É preciso pôr todas essas perspectivas e traçar toda uma nova divisão do país, classificando-o em nove regiões diferentes, levando em consideração a interligação Norte-Sul e o fato de que grande parte da economia está concentrada na costa. Então, tinha-se que ver também os problemas Leste-Oeste como um grande item, a navegação de cabotagem, que faria a interligação Norte-Sul, via marítima, de forma mais barata. Uma dessas nove regiões, bastante favorecida, é a que engloba o Sudeste do país. Para sorte dessa macrorregião, todas as principais vias levam ao estado de São Paulo, onde está o grande mercado, e ao Rio de Janeiro. Há um sentido econômico permanente, embora tenham sido construídas por razões geopolíticas. O Porto de Sepetiba é um grande elo dessa macrorregião, que abrange até a Bolívia e o Paraguai. Ultrapassa, portanto, as fronteiras do Brasil.

Com a definição dos eixos, nós chegamos à conclusão de que a noção de polo, como a do ABC Paulista, que prevaleceu por muito tempo, está ultrapassada por problemas de ordem ambiental e social. Foram criados monstros como a cidade de São Paulo e do México, com seus penduricalhos. É preciso fazer a descentralização ao longo dessas vias. Não é ir para o interior, onde não há nada, mas para cidades menores, já com bases locais de desenvolvimento. São os novos eixos, que não têm qualquer relação com a imbecilidade de corredor de exportação. Estamos falando de belts – grandes eixos – de desenvolvimento econômico. Com a organização logística, são acrescidos os insumos de energia e de telecomunicações mais baratos possíveis. Assim, estamos aptos para estudar as vocações econômicas competitivas dessas regiões – se a economia é pesada, agricultura, mineração, indústria de conhecimento intensivo ou que seja. O próximo passo é o planejamento de desenvolvimento regional. São as capilaridades desse negócio. O eixo pressupõe as capilaridades para obter a espinha dorsal. É como uma imensa espinha de peixe ou o pé de galinha, em linguagem popular. Aliás, o Brasil é um imenso pé de galinha, só que até agora ele tem chamado mais a atenção pela sua conformação grotesca do que pelo seu desenho de entrelaçamentos. A lógica do pé de galinha é a lógica do planejamento regional, que leva em consideração cada veia, cada artéria, cada cartilagem. O planejamento regional está sendo feito pelo BNDES. São os chamados planos de ação, com tudo que nós falamos, mas incluindo as modificações políticas. É um progresso. O raciocínio dos planejadores, políticos, burocratas, por mais que queiram ser diferentes, originais e ou tenham outros interesses, agora precisa incluir essas formulações. Como está tudo quantificado, o sujeito que vai propor algo muito caro tem um parâmetro que, no mínimo, leva ele a pensar sobre alternativas de otimização econômica. No fundo, é criado um balizamento no grau de erro dos anões do Orçamento. Ninguém vai poder sugerir uma besteira muito grande.

Nós não começamos esse negócio para impor ideias. O objetivo sempre foi científico. Neste percurso todo, aprendi muito, submetendo o planejamento a muita gente. O curioso é que ao discutir com as pessoas, sobretudo com os deputados, tudo é desviado para o lado político. É natural. Eu sempre digo que só levo em conta o lado econômico. Aquela Ferrovia Norte-Sul não tem qualquer sentido econômico. O deputado então pergunta: por que não se constrói outra estrada ali? Eu digo que não tem qualquer lógica econômica. Agora, se ele quiser passar com a estrada por ali, é problema dele, não é meu de quantificar e dar elementos lógicos de justificação do empreendimento. Quando o sujeito vê os números, fica apavorado. Hoje, por exemplo, não teria mais como se propor um projeto como o Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, que tinha apenas uma rota com destino para a Bolívia e custou uma fortuna. Foi uma interligação com nada, sem querer chamar a Bolívia de nada, mas já chamando. O capital ficou empatado lá durante muito tempo e poderia ter sido aplicado em outras coisas.

A BATALHA CONTRA O BLÁ-BLÁ-BLÁ

Tudo isso, a logística, a energia, a telemática, é muito bonito quando você liga com a indústria de pensamento intensivo, que está relacionada ao problema da educação e da multimídia. O Brasil não é Cingapura, é um monstrão. Então é preciso começar com os centros de excelência. Temos que criar um em Campinas, por exemplo, outro em Blumenau, Campina Grande, Recife e por aí vai. É necessário escolher as áreas e começar a educar já orientado na direção que se pretende seguir. Veja o erro brutal da Lei de Informática. Era abrangente demais e visava ao hardware, só. Resultado: o computador hoje é uma grande commodity, não criamos a informatização da sociedade, que é o mercado. E o usuário é o instrumental que sabe usar o computador para exportar software, trabalhando em mercados modernos. A lei criou um contrabando brutal. Uma tragédia. A coisa mais burra é o sujeito taxar a importação de inteligência e premiar a burrice local. É infernal. Aquilo atrasou muito o Brasil. Vamos ter que fazer um esforço descomunal para recuperar esse atraso, pois teve um impacto grande na formação da juventude e nos centros universitários.

Não é por outra razão que precisamos igualmente melhorar o academicismo primitivo de nossas universidades, que tratam da flexibilidade da cauda do jacaré da Indochina. Não me interessa isso. Vamos atacar os nossos problemas. San Tiago Dantas dizia que o universo da universidade é aquele que abrange onde estamos vivendo. Para que ser especialista em mosca do Ceilão? Isso é possível em uma universidade americana rica. Pouco me importo com isso. Quero começar a minha casa pela fundação. O rico pode brincar de iniciar pela janela. Nos Estados Unidos, nós encontramos o coreano, o tailandês e o chinês aplicados no estudo de ciências práticas, enquanto em Paris o sujeito está preocupado com a estética da fonética. Veja bem, não sou contra isso. Mas é a questão do valor da função no tempo.

Poderíamos concentrar nossos esforços em educação para atingir, por exemplo, a pesquisa. Então, eu educo o pessoal fora, e também trago outros cérebros. Este foi o caminho escolhido por Israel, que virou um país high-tech, em grande parte ajudado pela imigração de judeus da Rússia. Israel deu um salto colossal. Nosso esforço precisa ser nesta direção. Não é vender ma­térias-primas. Assim, nunca ficaremos ricos. Podemos nos capitalizar com os recursos naturais, barateando os custos. Tudo que falei até agora está também relacionado com a redução do Custo Brasil. Logística é o maior item desse custo. Em cima disso aparecem os problemas de caráter institucional, como as propaladas reformas constitucionais. Logística é o seguinte: eu preciso vender um produto fabricado em São José do Rio Claro para Stuttgart (Alemanha). No meio deste caminho, quais são os custos, os impedimentos de caráter burocrático, aduaneiro, de corrupção, de ineficiência operacional dos portos? O parlamentar, ao tomar conhecimento destes fatos, votaria a reforma no claro. Não votaria nessa escuridão, nesse enorme breu de desconhecimento dos fatos. Como vamos nos inserir na economia global só com blá-blá-blá? Ponha isso tudo no papel, em números. Aliás, sem números que quantifiquem os problemas, que demonstrem as insuficiências, nunca iremos a lugar algum.”


Depoimento a Luiz Cesar Faro e Coriolano Gatto | Edição 1, 1997
Eliezer Batista (1924-2018)

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