Carlos Lessa

Economista, ex-presidente do BNDES

O OCASO É UMA AURORA!

“Os sistemas nominalistas e classificatórios, adotados pela sociedade, transportam significados, constroem e consolidam distinções no social. Cada sociedade cria e se aliena em relação aos recortes que adota. Hoje, no “pós-moderno”, se cristaliza o corte etário. O estrato dos mais idosos é classificado como terceira idade. À primeira vista, por sob um farol de luz, essa faixa etária seria natural numa sociedade que conseguiu ampliar a esperança de vida e aumentar a participação dos idosos na população. Haveria uma preocupação humanitária. Entretanto, o recorte tende, pelo contrário, a problematizar essa faixa de população. Sob o risco de uma simplificação excessiva, a manifestação mais geral desse problema é o estigma derivado do transcurso de tempo: o idoso é assimilado à “coisa gasta”; anacrônica, obsoleta e disfuncional. As dimensões naturais e adquiridas ao atingir a terceira idade são qualificadas como problemáticas. Para alguns, inspiram piedade; para muitos, são vistas como reduções dramáticas de capacidade.

Frente às mutações da família nuclear, em evolução para monoparental, o idoso é visto como um “trambolho”. Uns poucos podem ser respeitados como ícones ou relíquias sociais. A maioria é considerada uma carga, efetiva ou potencial, sobre os membros mais jovens do grupo familiar, e na sua ausência, por extensão, sobre a sociedade. Nesse cenário, a proposta mais geral, tenta a dissolução do problema do idoso por seu mimetismo em não idoso. É regra social, e de boa educação, não se perguntar pela idade de ninguém. É considerado um elogio a afirmativa: “você parece” ou “está mais jovem”. A exaltação dos idosos, salvo os raros ícones-relíquia, é sempre sublinhando o prodígio: “escalou o monte aos 80 anos!”, “dança como um jovem!”, “salta de paraquedas!”. A mimetização inspira um vasto elenco de práticas e alimenta mercados ascendentes: vitaminas, academias, roupas, cirurgias plásticas, cosméticos, Viagra, que procuram ocultar, pelas externalidades, a idade. Muitos idosos são levados, defensivamente, ao mimetismo. Não há nenhum erro em usar um tênis esportivo. O lamentável é quando o idoso o faz procurando parecer jovem. A orientação principal pretende cancelar o tempo vivido e ocultar os traços específicos do idoso. Dá origem a um culto aos jovens, substituto, na sociedade pós-moderna, do culto aos mortos das sociedades antigas. Exorcizar a velhice pela exaltação da juventude.

Há uma astúcia na banalidade do corte etário da terceira idade. De certa forma, descontextualiza o problema da idade e permite remetê-la ao mercado universal. Para todos, as mesmas músicas, as mesmas roupas, os mesmos padrões de comportamento. Porém, mais além das vantagens mercadológicas, esse corte, e sua operação descaracterizadora, desvaloriza o que o idoso acumulou – experiência, memória, tranquilidade, capacidade de relacionamento interpessoal etc. São glorificados comportamentos que podem ser desenvolvidos com mais facilidade nos mais jovens: entrega integral ao empregador; obsessão pelo êxito; fraca solidariedade inter e intraetária; agressividade competitiva; lealdade acrítica à chefia etc. O jovem pode ser levado a aceitar um menor salário frente à promessa de promoção rápida, se exitoso no desempenho. Está implícito seu corolário, ser demitido, se não promovido.

O abandono da ideia republicana do ensino, pela hipertrofia de um programa educacional subsumido e dominado pelo objetivo da profissionalização, atualização e reciclagem, para um hipercompetitivo mercado de trabalho, sugere ao jovem: o valor da esperteza, como capacidade de perceber brechas e oportunidades de utilização prática do saber antes que os demais competidores; em paralelo ao aumento da autopercepção de sua pessoa como coisa; um objeto de êxito provisório, e sujeito à eventual reciclagem. A ideia, hoje ascendente, das carreiras curtas como modo de massificação do ensino universitário, está associada a periódico reprocessamento do seu eu, como objeto. É introduzida uma desconfiança em sua capacidade de aprender caminhando com as próprias pernas, implícita na carreira longa de formação profissional completa. Patologicamente, pode sugerir que, de curta em curta reciclagem, sua vida se esvai, e nada é acumulado, a não ser a sucessão de readaptações provisórias impostas pelo mercado. Nesse cenário, é reservada, para uma minoria de excelentes, a missão, ou de produzir conhecimento básico, ou pelo menos a qualidade de aprender por conta própria, com o prêmio da glória para si reservada para muito poucos. Nesses casos se preserva a ideia do conhecimento como acumulação ao longo da existência. Porém, fora dessas ilhas, é dominante a ideia do conhecimento para o êxito no mercado, e submetido a esse critério; logo, potencialmente descartável por desatualização. Para os milhares educados com esta perspectiva, nada mais remoto do que o desenvolvimento pessoal, pelo exercício do conhecimento como revelação, renovação e ampliação da capacidade crítica como visão progressivamente abrangente do saber. Em resumo: a ideia do ser humano como alguém com capacidade de ampliar seu potencial foi afetada pela ideia da substitutibilidade do saber, progressivamente valorizado por sua praticidade funcional. A visão mercurial de um saber evanescente, que exige uma atualização permanente, pode ser fonte de angústia para o idoso. Ele, com tempo livre, contemplaria o seu saber como analfabetização profissional a partir de sua aposentadoria.

A combinação da desvalorização do idoso com a pretensa exaltação do jovem é, na verdade, uma inteligente operação de coisificação da pessoa humana. É um processo subliminar, que reduz a autoestima, especialmente de quem se acerca à terceira idade. Creio que aqui está o cerne essencial do atual problema do idoso. Pertence ao óbvio ululante registrar a maior incidência de certas enfermidades degenerativas à redução de certas faculdades neuromotoras, bem como a explicitação e agravamento de certas deficiências, naqueles com maior idade. Porém, todas as faixas etárias, refletindo condições do ciclo biológico, e da organização social, apresentam vulnerabilidades específicas, sem que isto as problematize. Entre a exaltação de um Bacon, que afirmava “madeira velha para queimar, vinho velho para beber, livro velho para ler, e amigo velho para conviver”, e a atual fuga, por vezes caricatural da velhice, está um abismo que antecipa o medo da morte, com o temor pela progressão do ciclo biológico.

A desqualificação do idoso se iniciou com a Revolução Industrial. A produção artesanal valorizava a combinação da destreza com o conhecimento prático de tarefas complexas. A produção em massa, ao decompor a tarefa complexa em tarefa simples, valorizou a capacidade de acompanhar a força e o ritmo ditados pela máquina. Porém, o sistema de máquinas se reduziu à importância diferencial do idoso, não o excluiu da solidariedade do trabalhador coletivo. Entretanto, na sociedade da informação, a última flor do Lácio do iluminismo, recriou a importância da esperteza e, pelo menos em um primeiro momento, reduziu a solidariedade. Talvez venha a recriá-la em um outro patamar, quando emergir o proletariado da telemática. No momento, há uma visível quebra de solidariedade.

O jovem pós-moderno é condicionado para a prodigalidade. Ser pródigo não é um desvio. Pelo contrário, é o comportamento ideal e de afirmação e presença no mundo. Sepultada a ideia antiga de construção da personalidade por desenvolvimento de virtudes e prática de comportamentos sociais; sepultada a ideia moderna da construção de coleções como modo de afirmação, na pós-modernidade capitalista, a suprema fruição no mundo se reduz ao ato de gastar. O objeto adquirido perde aceleradamente seu valor, pois tendo sido adquirido, perdeu sua “virgindade” e virtualidade prazenteira. O carro, ao sair da agência, e andar dez quilômetros, já se desvalorizou. No guarda-roupa pessoal, o importante é a roupa de estreia. Na pós-modernidade, o relógio, o isqueiro, a joia, valem pelo momento da aquisição. No comprar está o prazer fugaz, a compulsão das aquisições, exalta o eu vitorioso.

Nada deveria ser durável. A prodigalidade transposta para a projeção biológica do indivíduo, associada à exaltação do transitório e do efêmero e introjetada no projeto existencial, é assustadora. Nessa perspectiva, o jovem tem um valor inicial alto: toda uma série de anos a serem vividos e uma sucessão virtual de possibilidades de sucesso. A curva de vida é percebida como uma curva de gasto dessas potencialidades. Perder a juventude é, por analogia, gastar algo cuja reposição é impossível. A vida não acumula, os anos não são colecionáveis, nem a personalidade é construída. Na vida, são gastos anos e se tende ocasional e progressivamente a “sair de moda”. A prodigalidade e o medo de envelhecer se combinam com uma esperança de vida em ampliação. Disso se segue, para o jovem, um dilema espantoso. O valor, absolutizado, é ser jovem. O jovem sabe que, a partir daí, enfrentará um processo de perdas. Sabe de seu alto “valor” inicial e amplas potencialidades. Sabe que isso é invejável ao perceber o idoso satisfeito quando escuta lhe dizerem “você parece um jovem”. Sabe de seu valor quando vê a moda jovem ser generalizada como transetária. Sabe de seu valor pelo espelho dos não jovens. Porém, não percebe com clareza onde está nem para onde vai. Apenas sabe que irá enfrentar um processo de perda de algo precioso para os outros, porém obscuro para si. Pela competição, deveria poder avaliar com precisão seu ponto de partida, até para enfrentar com êxito os da mesma faixa etária e impedir sua superação pelos que, mais jovens do que ele, buscarão deslocá-lo. Ao avançar na idade, saberá, a cada momento, que está em uma panela de pressão – em que os mais jovens, com “maior valor”, tramam por sua perda. Pavor da perda, pois isso é uma queda livre na obsolescência. Significativamente, a ideologia que exalta a juventude e a prodigalidade conduz as pessoas a hipertrofiar o culto à moda, como forma de, pelo mimetismo, exorcizar o medo do envelhecimento.

Mesmerizada por uma mídia que reifica a globalização e afirma a ausência de alternativas fora do processo globalizante, a juventude urbi et orbi se defronta, perplexa, com dilemas cruciais.

É sabido que a hipertrofia do mercado organiza a pedagogia da moda. O que está em moda é, por definição, fechado à crítica. Seu mérito não é intrínseco – não é inerente ao objeto padrão ou comportamento. Confirmado no mercado, seu valor é inconteste: deriva-se desta própria confirmação. O que não está em moda, do objeto ao comportamento, é por definição desvalorizado, sem mérito; logo, anacrônico. Quem usa o anacrônico é desviante e extravagante. O uso do anacrônico é o indicador visível do fracasso. Quem vive condicionado à transitoriedade do valor da moda, busca impedir sua própria desvalorização, exorcizando o fantasma do fracasso e renunciando a qualquer veleidade original. Foge da alteridade para, no anonimato da moda, preservar seu valor. Porém, ideologicamente, o mesmo jovem condicionado a renunciar à originalidade, é orientado a desenvolver agressivamente sua competitividade. A excelência de seu desempenho, a sua inserção exitosa nas redes mundiais, dependerá do grau em que se diferencie e se antecipe criativamente, exercitando com eficácia sua individualidade utilitária. Obviamente, para esse programa, deve prescindir de solidariedade. A competição que lhe é proposta é solitária e exige o desenvolvimento máximo de suas habilidades individuais. Neste mundo, o jovem se percebe como mercadoria que deve preservar seu valor. Deve, por analogia, ser um “objeto na moda”. É instado simultaneamente, como consumidor, a fugir da extravagância e refugiar-se no anonimato da moda; e, como produtor, a preservar o seu valor, desenvolvendo a individualidade utilitária, se possível, na ponta e na vanguarda de comportamentos inventivos. Esse é um dilema certamente cruel.

Ser jovem sempre teve associada a dúvida quanto ao futuro. Porém, na pós-modernidade, essa dúvida é hipertrofiada e fonte de angústia permanente. Cada vez mais o jovem de hoje tem certeza de que a única garantia provisória é estar inserido nas redes mundiais e ser excelente no seu desempenho. Porém, sabe que está inserido em redes com acelerada mutabilidade de configuração. Sabe que os padrões se sucedem quase que erraticamente; terá que estar permanentemente alerta em relação a estas mutações e apostar na qualidade de sua resposta frente às mudanças. A excelência passada não cria nenhum seguro. Sua confirmação está subordinada a um processo contínuo de reverificação. Não pode confiar em seu passado. O presente e o futuro trazem consigo ameaças. Quanto mais as supera, novas configurações se apresentam. Esse caminhar, numa espécie de “corredor polonês”, alimenta um nível crescente de incertezas, tensões e temores.

A ideologia dominante e o modo pelo qual a avalanche de informações é fornecida trabalham implícita e explicitamente para descontextualizar qualquer padrão. Por uma vertente exagerada chega a afirmar a extinção da história como processo. A apresentação acrítica da informação, o hábito de omitir a reflexão diacrônica e o dogma da objetividade da observação tendem a dispensar qualquer esforço por entender um padrão mais além do que a suposta resultante aleatória da interação dos atores. O futuro aparece para o jovem como um jogo que lhe exige o máximo de esforço e uma concentração na observação do comportamento dos demais atores envolvidos. É tão absorvente esse esforço, e tem tal força subliminar a descontextualização, que há uma renúncia ao conhecimento como um exercício mediato e amplificador. O futuro é visto como jogo; e dispensado qualquer esforço cognitivo dos contextos em que o jogo se desenvolve, faz a dúvida – uma sombra persistente – invadir a fronteira do temor.

Na verdade, hoje o jovem recorre aos apoios de sempre. Entretanto, esses foram alterados pelo movimento da pós-modernidade. A família, na retaguarda, já não é patriarcal; sequer nuclear; tende para a uniparental, submetida à vulnerabilidade isolada do adulto responsável pela família. Sobrecarregada pela subsistência, a família reduzida é um apoio debilitado para os dilemas da juventude. Na escola, conteúdo e método evoluem na direção da profissionalização e reificação da competitividade. A ideologia da pós-modernidade questiona e debilita a escola republicana – cidadania, valores e formação humanista, são substituídos por instrumentos e adestramento para a competição. Mesmo aqueles valores são desenvolvidos não como exercício coletivo de solidariedade, mas temas submetidos ao mesmo padrão competitivo. A escola, como instituição, tende a ser, no limite, um microcosmo do mundo que o jovem desbravará. Seu grupo etário, de amigos de turma, se a mensagem da competição for assimilada, tende a se dissolver. A turma se estiola pelo desvio de tempo necessário para o adestramento, e a redução ideológica da solidariedade não a constitui como um espaço para confissão de fragilidades e medos. A excelência e o brilho são essenciais para o êxito na turma. Hoje, o jovem não dispõe sequer de paradigmas culturais. Na pós-modernidade, o experimentalismo pelo experimentalismo dissolveu qualquer regra canônica.

É nessa terra árida que o jovem busca recursos e apoio. Pode constituir, na sua faixa etária, uma estratificação extravagante, com marcas de rebeldia e propostas de isolamento: as neotribos urbanas, o on the road, os códigos secretos e certos rituais violentos produzem, paradoxalmente, não a transformação da sociedade, mas sim a criação de novos objetos de moda “rebelde”. Da roupa esfarrapada ao experimentalismo do grafite, a mercantilização da exaltação do jovem domestica a rebeldia. A juventude pode recortar-se por seitas, raças, preferências sexuais, opções culturais. Qualquer escala será mercantilizada e domesticada como moda. Nesse sentido, o multiculturalismo, apresentado com feição democrática do mundo pós-moderno, não passa de mercantilização das identidades dissolvidas. O jovem pode tentar recorrer ao mágico e ao esotérico: exaltar o cristal, a pirâmide, o tarô etc., bem como pode depositar suas esperanças na loteria, no jogo etc. Esse é um estranho caminho para o relacionamento interetário. Nesse cenário, a droga tem um imenso apelo. Pelo componente químico, é possível a sensação de ser excelente, de ser especial, de estar em outro espaço etc.

A projeção linear das tendências fortes do processo de globalização, combinada com a crueldade dos dilemas colocados para a juventude, parece sugerir a ameaça de uma progressiva entropia moral e cívica da sociedade pós-moderna. Indicações de neobarbárie surgem: revivescência de fundamentalismos, ressurgência das velhas fraturas nacionais, intransigências racistas e religiosas, genocídios e surtos de violência multitudinárias, tipo excessos de torcidas esportivas etc. Com moderado otimismo e alguma confiança na força da dialética, talvez se esteja forjando um antídoto civilizatório: o idoso restaurado em sua plenitude humana. As observações que se seguem não se circunscrevem ao Brasil; porém, esse cadinho parece particularmente promissor para a transmutação alquímica da terceira idade brasileira, e acumulada nas metrópoles.

Entre o jovem, exaltado e submetido a esse programa tensionante, e a velhice, estigmatizada e desvalorizada, transcorre a vida do adulto. Envolvido numa competição permanente, estimulado à prodigalidade, sem exercitar a solidariedade, chega à maturidade desonerado de responsabilidades familiares. Chegou a terceira idade, o que fazer com seu tempo livre? Em tese, tudo; pelo treinamento e condicionamento, nada. Necessariamente, o idoso terá que se interrogar sobre sua identidade e o que fez em sua vida: “você agora vale pouco – sugiro que se metamorfoseie em jovem” – é uma resposta falsa, com os pés de barro. É uma tarefa impossível com a inexorável progressão dos anos. Ele terá que colocar a pergunta em outras direções.

O idoso pode resgatar a ideia do conhecimento pelo conhecimento, pode praticar a ideia da ludicidade do conhecer, pois foi dispensado pelo mercado. Talvez esse resgate, num primeiro momento, será o puro diletantismo; porém, progressivamente, resgatará a ideia de compromisso do espírito humano. Creio que contra a visão da Universidade Profissionalizante, pode se desenvolver a Universidade da Terceira Idade, uma espécie de jardim de infância, como espaço de troca de saberes, por puro hedonismo. Porém, com imenso potencial de revalorização do espírito crítico do homem.

O ideal da esperteza e a vida sob ameaça competitiva levam o jovem a perceber a instabilidade das configurações conjunturais que o envolvem. De pouca valia são os fundamentos, ou as “meganarrativas”, para entender as nuvens passageiras essenciais para sua sobrevivência. O idoso, pelo contrário, terá interesse pelos fundamentos e pelas “meganarrativas”. Temática da nova Universidade da Terceira Idade.

Creio que o resgate da autoestima do idoso virá pelas trocas culturais e pela redescoberta da socialização e inclusividade humana permitidas pela troca gratuita e diletante de saberes. Para o idoso, a ideia antropológica de cultura é de fácil e imediata compreensão – corresponde à sua experiência acumulada – e deve ser o ponto de partida para o resgate de sua autoestima e, alternativamente, de uma percepção crítica da sociedade que o coisificou. O resgate do idoso passa pela valorização de seu acervo cognitivo e existencial acumulado. De certa forma, seria restaurar seu papel em sociedades tradicionais. Essa possibilidade fará o idoso descobrir que seu tempo vago não o tornou inútil; pelo contrário, dignificou sua existência. Pode superar o bezerro de ouro do mercado e se converter num prospector da cultura. Até aqui, todas as observações estão ligadas aos idosos da elite integrada, ou seja, os que estão aposentados em condições de vida material satisfatória.

O homem de terceira idade, vestido do papel de prospector da cultura, em sua caminhada, redescobrirá o povão. No passado, ele conviveu; porém, não o viu. O povão é permanente produtor antropológico de cultura. Dada a precariedade de sua integração na pós-modernidade, o povão, para subsistir, desenvolverá uma cultura popular reflexa, que se apropria e recombina, com criatividade, bens, serviços, símbolos, da sociedade afluente. Pode ser o autônomo de rua que recebe a chamada pelo celular e chama pelo telefone público; pode ser a firma volante de flanelinhas para cobrir eventos ocasionais; pode ser o piquenique urbano – a cooperação dos vizinhos para um banquete dominical na calçada –; pode ser a invenção do forró – herdeiro do “for all” dos bailes da Segunda Guerra Mundial; ou o “x-tudo”, sucessor avançado do cheeseburguer; pode ser a comida a quilo, ou a churrascaria rodízio de beira de estrada etc.

Se o idoso da elite redescobre a cultura como um exercício de afirmação do humano; se redescobre a socialização pelas trocas afetivas, na prática do lazer; inexoravelmente, redescobrirá o povão em sua criatividade. No povão, o idoso, com frequência, é obrigado a trabalhar para subsistir. Porém, é valorizado, como sábio e sobrevivente vitorioso. Nas favelas, o fundador é respeitado. Na escola de samba, a comissão de frente é da velha-guarda. Na família do povão, o idoso é referência afetiva e simbólica. O idoso da elite se sente desvalorizado e descobrirá no povão o respeito à idade. Estou pensando no deslumbramento dos idosos da elite ao descobrirem, no povão, uma sociedade criativa, que incorpora o velho como reserva de sabedoria.

A ponte de ressocialização dos idosos pode lançar-se como um pilar para as crianças. No idoso pode ser resgatada a criança que está dentro de cada um. O fazer pelo fazer, se sucedendo ao fazer para, permite um fazer como experiência de recriar o mundo. É sabido o potencial de entendimento que uniu, na família patriarcal passada, o velho com a criança: na sociedade ágrafa, a memória e a transmissão do conhecimento se dava por essa ponte. Demolida, dissolveu um papel do idoso. Porém, a capacidade e a disponibilidade do fazer pelo fazer, de ser criança, podem reconstruir uma ponte de pura afetividade. É conhecido o papel estimulante da fantasia. O velho restaurado em sua dignidade é o catalisador perfeito para a fantasia infantil. Qual o papel dinamizador dos velhos, brincando com as crianças, na rede escolar primária, ou na praça pública?

Se descobrir a criança dentro de si, irá “fazer” pelo fazer. Construirá, com facilidade, neofamílias afetivas, em torno de hobbies, paixões, lembranças etc. Rompido o casulo, entra no mundo um novo ser – mobilizável para o lazer, para a socialização, para trocar afetos e memórias com outros. Pode, nos lugares que circula, conhecer o outro, de outro grupo social, e identificar denominadores comuns de humanidade. Na praça, na igreja, no lugar em que “joga papo fora”, o velho redescobre coletivos. Há imenso potencial crítico nessas descobertas. Principalmente se for combinado com a qualidade psicoafetiva de sua vida e o drama de sua desvalorização. Com crescente ponderação na nova sociedade, a terceira idade tenderá a rejeitar o mimetismo e se tornar sujeito político. É uma boa aposta pensar numa reforma civilizatória que restaure, pelo velho e a partir dele, a dignidade da pessoa humana. A classificação maliciosa e ideológica terá se transmutado em um vetor de transformação.”

Depoimento a Luiz Cesar Faro | Edição 4, 1998

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *