André Lara Resende

Economista

ESTRANHO ENTRE PARES

André Lara Resende, desde os primeiros anos na academia, optou por desafinar o coro dos canônicos. Fez da moeda indexada um marco teórico e prático do combate à inflação. André pensa fora da caixa. Questiona a religiosa concordância sobre o papel dos juros altos no combate à alta de preços. Defende que o crescimento econômico será melhor se for um pouco menor. Destina ao meio ambiente uma centralidade estratégica, terçando argumentos incomuns. Neste depoimento à Insight Inteligência, o economista expõe sua veia de polemista e intelectual inquieto. André é um ponto longe da curva.

“A ortodoxia monetária jamais compreendeu o fenômeno da inflação crônica. Dediquei boa parte de minha carreira a estudar a incompletude da teoria quantitativa da moeda, entre outras verdades absolutas por décadas vigentes na economia. Há cerca de três anos, quando assumi a cadeira de professor visitante na Universidade Columbia, decidi me debruçar sobre a questão e escrever um livro a respeito da discussão conceitual teórica em torno da política monetária do Brasil no período pós-guerra – do início da segunda metade do século XX até o Real. Minha pretensão era analisar justamente a incapacidade da ortodoxia monetária de entender a inflação crônica, tema, repito, que sempre foi alvo de meus estudos e parte essencial da minha experiência de vida acadêmica e profissional. Eu queria abordar a disputa conceitual sobre a teoria monetária e suas implicações especificamente no Brasil até chegar ao Real, tendo como ponto de partida a controvérsia do planejamento entre Eugenio Gudin e Roberto Simonsen, o grande debate do Brasil na década de 40. Gudin já tinha uma preocupação com a questão da inflação e defendia claramente um combate com base na ortodoxia da teoria quantitativa da moeda, culminante na época. Eu, como aluno, sempre impliquei com a teoria quantitativa da moeda desde que fui expulso de sala pela primeira vez. Para mim, sempre faltou alguma coisa, havia algum passo ilógico que não estava correto. Depois, com a experiência como diretor de Política Monetária do Banco Central ainda na década de 80, ficou evidente para mim que, além da questão lógica, a teoria quantitativa da moeda tem um problema prático. O Banco Central não controla a quantidade de moeda; o Banco Central controla a taxa de juros. Na verdade, controlar a taxa básica de juros da economia é a mesma coisa que controlar a quantidade da moeda. Essa submissão não crítica à ortodoxia monetária da teoria quantitativa da moeda, que foi a ortodoxia do século XX, teve implicações sérias para os defensores de uma política liberal racional, cujo patrono no Brasil era Gudin. Todas as vezes que foram convocados a assumir a condução da economia brasileira, normalmente com uma certa preocupação, correta, de que a estabilidade de preço era precondição para uma economia saudável, eles procuravam controlar a inflação. Isso começou já no governo Café Filho, quando o próprio Gudin foi para o Ministério da Fazenda; Clemente Mariani assumiu o Banco do Brasil; Octávio Gouvêa de Bulhões, a Sumoc; o jovem diplomata Roberto Campos, recém-formado em economia em Washington, foi para o BNDE. Como dizia o próprio Campos, era o Dream Team. No entanto, Gudin não durou mais do que 10 meses na Fazenda, porque Mariani sai do BB por pressão da indústria paulista e o Gudin diz: “Então, vou embora”. Isso se repete na história do Brasil até 64/65. Todas as tentativas de uma estabilização técnica acabam sendo interrompidas. Isso inclui o governo Kubitschek, com Lucas Lopes; e Celso Furtado, no Plano Trienal – curiosamente, um plano tão ortodoxo do ponto de vista econômico.

OS DOIS LADOS DA INFLAÇÃO

No início dos anos 50, já tínhamos uma inflação perto de 20% ao ano, acima do que pode ser classificado como uma taxa moderada. Uma inflação nesse nível não pode ser combatida com os instrumentos tradicionais. E quando sempre se tenta controlar a quantidade de moeda – como Gudin fez em 54, com o aumento compulsório, Instrução 108 da Sumoc – em vez de controlar a inflação, provoca-se uma ameaça de crise bancária. O resultado é recessão, empresas inadimplentes, instituições financeiras alavancadas e, com isso, ameaça de crise bancária séria. Quando se aumenta o compulsório, a liquidez da economia automaticamente cai. Ao fazer isso, a consequência é uma crise bancária sem redução da inflação. Roberto Simonsen não via a inflação como um problema. Os nacionais desenvolvimentistas, depois de alguns momentos, até enxergavam certa funcionalidade na inflação: a capacidade de extrair, transferir recursos da sociedade, das empresas e das pessoas para o Estado. Este, então, podia intervir como Estado empresário, superando de certa forma a escassez de poupança, um dos pontos fundamentais que o Gudin classificava como uma das dificuldades a serem superadas para dar início ao processo de industrialização e desenvolvimento.

AQUI JAZ A TEORIA QUANTITATIVA DA MOEDA

Na última década do século XX, a teoria quantitativa da moeda foi aposentada e passou haver uma nova ortodoxia monetária, absolutamente dominante. O questionamento à teoria quantitativa começou no final dos anos 80, apontado primeiramente por alguns artigos acadêmicos de Thomas J. Sargent e Neil Wallace, seguidos de outros economistas, como Ben Bernanke, que foi meu colega de doutorado no MIT. Todos começaram a jogar luz sobre o fato de que, na verdade, o Banco Central não controla o agregado monetário, controla a taxa de juros. Por razões técnicas, é muito claro saber que nunca controlou o agregado monetário. Mas todos os economistas, o próprio Bernanke entre eles, deixaram correr. Isso ficou implícito, meio vago. A fundação da nova ortodoxia monetária é o livro do Michael Woodford, de 2003, chamado “Interest and Prices”, em homenagem ao trabalho homônimo do economista sueco Knut Wicksell. O que ele faz? Simplesmente reestabelece a nova ortodoxia dizendo, “Olha, esquece agregados monetários”. No mundo woodfordiano ou neokeynesiano, em cujos modelos DSGE – Dynamic Stochastic General Equilibrium – a moeda não aparece, só tem taxa de juros. Na nova ortodoxia monetária, a taxa de juros não tem nem função de investimento também, não aparece tanto. A taxa de juros afeta a demanda agregada e provoca mais ou menos folga entre a demanda agregada e oferta agregada. Quando há mais folga, modera a inflação; quando há menos folga, pressiona a inflação.

Esse é o modelo via Curva de Phillips com expectativas. Esse modelo fecha com uma regra heurística, chamada Regra de Taylor, em que o Banco Central deve aumentar ou reduzir a taxa de juros mais do que proporcionalmente ao desvio da inflação observada em relação à meta de inflação. O que mais me impressionou é como que se muda de uma ortodoxia para outra e simplesmente não se discute porque que a outra ficou ultrapassada. “Ah, mudou? Mudou por quê?”. “Ah, não interessa!”. Quando uma antiga teoria é suplantada, a nova teoria precisa explicar por que a anterior era percebida como correta e por que deixou de ser. Então, eu fui percorrer esse caminho. Esses modelos de equilíbrio dinâmico estocástico são formalmente sofisticados, mas profundamente irrealistas. Como são modelos de equilíbrio geral, eles chegam à ideia de que não existe rigidez nenhuma de preço. Então, não tem como explicar nem desemprego, nem preços, nem deflação, nem recessão, nem nada. Para explicar desemprego e recessão é preciso introduzir distorções. Então a macroeconomia dos últimos anos passou a ser uma ideia de pegar o modelo básico e depois introduzir distorções, que é um exercício com uma matemática aplicada bem primitiva e de total irrealismo, mas dando uma aparência de cientificidade.

O “FIM” DA MOEDA

Não tem mais como falar da moeda. Para mim hoje está muito claro que o que importa são os preços. O preço absoluto e não o preço relativo. No modelo de equilíbrio geral, só existem os preços relativos, só tem preço entre uma coisa e outra. Mas, quando existe a variável tempo, e a produção exige tempo – comprar alguns insumos e vender depois –, então é necessário o preço de referência para a formação de preço. Essa ideia de que é preciso saber o preço ao longo do tempo. Vou comprar um insumo agora, comprar outro daqui a pouco e vou vender mais à frente, isso é preço absoluto. É preciso transportar preço ao longo do tempo. Para isso, são necessários os preços nominais, absolutos. E nesse sentido o preço é que é importante; a moeda é só uma convenção. A moeda não precisa existir fisicamente, e estamos caminhando para isso. A moeda, no fundo, é um sistema contábil, de registro. Ela pode ser 100% substituída por registro de transferência de um para outro. A URV (Unidade Real de Valor) foi totalmente nessa linha. Quando eu já tinha escrito os dois primeiros capítulos sobre Gudin e Simonsen, eu fui convidado, com um pessoal de Columbia, para ir a um seminário em Buenos Aires, para o Banco Central da Argentina, com o Guillermo Calvo. Na minha exposição, eu disse que inflação é puramente expectativa. Não existe âncora para a expectativa de inflação, ao contrário do que se pretendia. E é muito simples de explicar isso. Bem, não é tão simples assim… A teoria quantitativa da moeda diz que: MV = PY. Ou seja: Quantidade de moeda em circulação (M) vezes Velocidade de circulação da moeda (V) é igual a Nível de preços/inflação (P) vezes Nível do produto (Y). Esse modelo parte da premissa de que quantidade de moeda é uma variável exógena, controlada pelo Banco Central. Se essa é a variável exógena, vamos imaginar que a renda real está fixa, só pra ter ideia; significa então que a variação de M é igual à variação de P.

Como a moeda é uma variável exógena, podemos dizer que a moeda causa a inflação. A questão é que toda a teoria mostra que a demanda não é por um estoque nominal de moeda; existe uma demanda por um estoque real de moeda: MP. Só que há infinitos pares de MP que satisfazem essa relação. Qual é a quantidade de moeda? Como é que se determina o nível de preço sabendo-se que existem infinitas combinações. Então, qual é o nível de preço que vai se estabelecer? Depende… Vai se estabelecer quando se fixa um M nominal, o equilíbrio real da economia tem um MP, um M sobre P demandado, e isso determina o P. Tudo parece encaixar. Mas, quando se descobre que o M não é uma variável exógena e o Banco Central não é contra M – pelo contrário, um sistema financeiro sofisticado cria e destrói M –, não temos mais onde ancorar P. O que determina P? Nada. Não tem um P de equilíbrio. Outro cânone que está desaparecendo é a Curva de Phillips, que estabelece uma correlação entre desemprego e inflação – quanto menor o desemprego, maior a inflação, e vice-versa. Hoje, há mais desemprego e a inflação não cai; ou menos desemprego e a inflação não sobe, o que tem sido confirmado pela reação norte-americana. Então, nem a Curva de Phillips é uma verdade. Vide o caso brasileiro. Tivemos uma queda do PIB de 8% em três anos e a inflação não caiu. Os Estados Unidos estão perplexos: a economia se recupera, o desemprego está caindo e não tem inflação.

A SUSTENTÁVEL ESTABILIDADE DA INFLAÇÃO

A inflação é mais estável do que se imagina. As expectativas tendem a ser estáveis. Portanto, as taxas de inflação tendem a estar onde sempre estiveram, a menos que elas superem um nível crônico, fiquem muito altas e comecem a atrapalhar. Nesse sentido, todos começam a ter sentimentos defensivos: já que a inflação está muito alta, vamos fazer previsões mais altas como defesa e, então, ela começa a acelerar. Em qualquer nível que é considerada aceitável, a inflação permanece nesse patamar, porque é mais conveniente para todos que todo mundo saiba qual é a inflação baixa. Um aluno brasileiro que tinha concluído o doutorado em Columbia e assistiu, pela internet, a essa minha participação no seminário de Buenos Aires me enviou um artigo do John Cochrane, apontando que existiam pontos muitos similares aos que eu havia acabado de apresentar. Numa resenha anterior, o Cochrane já havia dito algo como “Se alguma coisa determina a inflação, os economistas não têm ideia do que seja”. E nesse novo artigo, ele reforçava que os economistas não só não tinham ideia como, depois da crise de 2008, com a ameaça de deflação, os bancos centrais vieram seguindo a Regra de Taylor, com a redução das taxas de juros. Quando os juros chegaram perto do lower bound, próxima a zero, não tem mais como baixar as taxas. Mas a inflação estava abaixo da meta e, pela Regra de Taylor, os bancos centrais teriam de seguir cortando os juros. Só que não tinha mais como baixar. Toda a teoria indicava que teríamos uma espiral deflacionária. Não foi o que ocorreu. A inflação simplesmente parou. Os bancos centrais estavam seguindo a bula da Regra de Taylor, baixando os juros mais do que proporcionalmente em relação à queda da inflação, além de fazer o Quantitative Easing (QE), que era a recomendação quantitativista. Eles fizeram isso para evitar quebras de bancos. O autor dessa estratégia foi o Ben Bernanke, à época à frente do FED, e isso faz todo o sentido. O Japão já estava fazendo algo nessa linha desde 2000, por recomendação do Milton Friedman, que foi lá e disse: “Expande a moeda que a inflação vai reaparecer”. E assim foi feito pós-crise de 2008. E de maneira bastante aguda.

A base monetária dos bancos centrais norte-americano e europeu não cresceu 10% ou 20%, não. Cresceu 60 vezes! 60 vezes! E o que aconteceu? Não teve inflação nenhuma. E durante muito tempo não foram poucos os economistas que disseram que ia ter inflação. E, então, o Cochrane disse: “Se havia alguma dúvida de que a teoria quantitativa e a velha ortodoxia monetária estavam erradas, acabou! Não há mais dúvida”. Muita gente ainda tentou argumentar que isso se deu porque o dinheiro ficou empoçado nos bancos… Esquece! Não é isso o que a teoria quantitativa diz. Mas também a nova ortodoxia ficou profundamente abalada. Como disse e ressalto, todos acreditavam que, ao parar de baixar a taxa de juros enquanto a inflação continuava caindo, teríamos uma espiral deflacionária. Não tivemos. Pelo contrário. Quando os juros pararam de baixar, a taxa de inflação também parou de cair. Isso é um momento revolucionário. John Cochrane já era simpático à Teoria Fiscal do Nível de Preços. Trata-se de uma teoria altamente controvertida, mas tem muitas bases teó­ricas boas, a começar pelo próprio Cochrane, o Christopher Sims e o Woodford. Essa teoria diz que o que provoca a inflação é a perda de credibilidade fiscal a longo prazo. A rigor, não importa se o déficit fiscal é monetizado ou não ou como o déficit é financiado. Mas se o déficit é percebido como infinanciável, isso leva a um nível de preço elevado. Em última instância, portanto, a teoria diz que o nível de preço depende da percepção de viabilidade fiscal. Mas isso é um equilíbrio de longo prazo. No curto prazo, o Cochrane, então, sugeriu a tese que ele chamou de um “neofisherianismo”. Ou seja: no curtíssimo prazo, pode haver uma relação inversa entre taxa de juros e inflação. Mas, no médio e longo prazos, a relação entre inflação e taxa de juros nominal é positiva. Por quê? Para comprovar esse conceito, Cochrane pega a equação de Irving Fisher: a taxa de juros nominal pode ser decomposta em taxa real mais a expectativa de inflação. Todo o economista sabe que taxa real de juros não é influenciável por variáveis nominais. A taxa real de juros é muito perto da taxa real de crescimento potencial da economia. É a taxa de retorno da economia. Ela pode cair um pouco em um curto prazo, mas ela é um dado independente de fatores monetários.

JUROS COMO INSTRUMENTO DE CONTROLE DA INFLAÇÃO. O TACAPE QUEBROU?

Muitos questionam se a ideia de política monetária como instrumento de controle de preços não quebrou. Prefiro não tirar conclusões precipitadas. Isso, por enquanto, é uma conjectura. Uma conjectura que faz sentido lógico. Esta é a forma mais simples de ver tudo isso. Todo o trabalho do Cochrane aponta que, no modelo de equilíbrio geral dinâmico estocástico, o resultado é exatamente esse. Sempre se teve a ideia de que os bancos centrais estabilizavam uma inflação instável; e que essa estabilização vinha com a ação da Regra de Taylor. A inflação subia um pouco e bastava aumentar os juros em um nível proporcionalmente maior. Mas pode ser que, se os bancos centrais não fizessem nada, a inflação fosse muito mais estável. Ou seja: já existe também um questionamento à nova ortodoxia neokeynesiana, da ideia de metas de inflação e Regra de Taylor. E supondo que essa conjectura esteja certa, o que está se dizendo é o seguinte: o que ancora as expectativas é um Banco Central com metas e um Banco Central com credibilidade. Um Banco Central com metas e credibilidade não precisa mexer na taxa de juros. Mas se o mercado começar a perceber que o Banco Central não tem controle sobre a taxa de juros, como é que se pode acreditar que ele tem credibilidade? Vejamos: a taxa de inflação é igual à taxa nominal fixada pelo Banco Central menos a taxa real. Suponhamos, então, um determinado cenário: o Banco Central pode dizer que ele quer ter uma meta de inflação entre π2 e π1, digamos que entre 3% e 4%. Se ele põe a taxa nominal em 20%, por esta Equação de Fischer nós entendemos o seguinte: 20% menos a taxa real de juros – vamos supor que ela seja de 3,5% –, teremos, portanto, uma inflação de 16,5%. Nesse caso, acreditamos no que o Banco Central está nos dizendo ou no que ele faz? A taxa nominal determinada pelo BC é um sinalizador do quanto ele espera de inflação na verdade. Ele está dizendo que a meta de inflação é de 4%, mas, ao mesmo tempo, colocou a taxa nominal de juros em 20%… Não pode ser. Não existe isso. A economia entra em colapso porque todo mundo vende tudo. Acabou. Então, repito: em um caso como esse, acreditamos no que o BC diz ou no que faz? É absolutamente lógica a ideia de que, consciente ou inconscientemente, a taxa nominal de juros fixada pelo Banco Central seja percebida como o mais poderoso indicador da expectativa do agente mais bem informado sobre a inflação, que é exatamente o Banco Central. Isso significa que, se a taxa de juros for mantida em um nível sistematicamente alto, a inflação permanecerá sistematicamente alta, especialmente se a força do desemprego para mexer na inflação for muito pequena. Então, pouco importa. Isto, a meu ver, é de fato como a economia funciona nos dias de hoje.

UMA “NOVÍSSIMA ORTODOXIA” A CAMINHO?

O fato é que o mundo ainda subscreve a nova ortodoxia, de metas de inflação mais Regra de Taylor, apesar dos questionamentos que começam a surgir à sua efetividade. Caminhos para uma novíssima ortodoxia? Não sei. Por enquanto, meu ponto principal é que qualquer ortodoxia em matéria de economia é um equívoco. E, especificamente em matéria monetária e financeira, é um grande equívoco. Nada que seja tão dependente de arranjos institucionais pode ser congelado dentro de uma ortodoxia. Em um sistema financeiro muito pouco sofisticado, como dos séculos XVII ou XVIII, ter uma interpretação de que o aumento de moeda pressionava a inflação se aplicava. É aceitável pensar que uma excessiva transferência de ouro do Novo Mundo para a Europa – e ouro era percebido como moeda – provocasse aumento dos preços. À medida que a economia vai ficando mais complexa, essa aproximação da teoria quantitativa da moeda vai ficando completamente inapropriada. Esta é justamente a observação do extraordinário livro do Wicksell, “Interest and Prices”, de 1898, ao qual já me referi. Ele faz uma crítica à ortodoxia da teoria quantitativa da moeda, discussão esta que já havia ocorrido anteriormente na Inglaterra, primeiro entre os bulionistas e os antibulionistas e depois entre o Banking School e o Currency School. Nesse momento da história, os quantitativistas venceram, apesar de o Wicksell fazer uma crítica muito pertinente, extremamente inteligente.

Naquela época, ele já dizia que a moeda não precisava ser física. Tinha toda a razão. Pois bem, acelerando no tempo e chegando aos dias de hoje, a ortodoxia neokeynesiana também ficou desmoralizada. A discussão de que a macroeconomia e seus conceitos precisam ser revistos já está a todo vapor nos Estados Unidos. Olivier Blanchard, que também foi meu colega no MIT, e o Larry Summers estão entre os que lideram esse debate. A discussão sobre o “Fiscal theory of the price level” tem seus defensores e seus detratores. Mas, claramente, na academia nada foi posto no lugar ainda. E quando nada é posto no lugar, do ponto de vista de políticas públicas e dos bancos centrais, é melhor fingir que a antiga ortodoxia ainda está funcionando. Entre outros motivos, porque os conceitos nos quais as pessoas acreditam, especialmente os mercados financeiros, são muito importantes para a condução macroeconômica. Quando eu escrevi um artigo polêmico sobre taxas de juros, o Armínio Fraga me perguntou: “Mas, se estivesse no BC, você baixaria os juros?”. E eu disse: “Não”. As pessoas não entenderam ainda. Se eu baixasse a taxa de juros, subitamente os agentes financeiros iam achar que eu era um irresponsável. O que as pessoas acreditam é muito importante na formação de preços. Isso é o que o George Soros, em um livro muito interessante para o qual ninguém deu muita bola, chamou de “Theory of Reflexivity”. A combinação entre o que as coisas são de fato e como as pessoas acreditam é o que determina os mercados financeiros. De toda maneira, voltando ao ponto, o fato de uma ortodoxia ter sido “falsificada” não quer dizer que se possa abandoná-la até ter algo para colocar no lugar.

ETERNO DELAY

Como sempre, há um gap entre o que se discute lá fora e aqui dentro. Mas não somos só nós. Especialmente em economia, aquilo que não é discutido nos grandes centros, notadamente nas universidades da Inglaterra e, sobretudo, dos Estados Unidos, não é difundido. Ao estudar essas questões agora, eu fui cair em várias discussões sobre Banco Central e política monetária na Nova Zelândia. Já no início dos anos 2000, eles debatiam a ideia de que não se controla a quantidade de moeda e como isso funciona. Estava tudo lá. Só que isso não saiu da Nova Zelândia. E mesmo aqueles que estudam em universidades norte-americanas e voltam para seus países são reféns do monopólio dos temas que interessam, determinados pelos grandes centros. O que não passa pelos fóruns centrais não é validado como o tema premente do momento. O Brasil não conversa diretamente com a Nova Zelândia, mas apenas por meio dos seminários patrocinados pela academia norte-americana. Eu, inclusive, pensei em criar um fórum acadêmico, policy oriented, que escapasse da camisa de força daquilo que está sendo discutido nos grandes centros. É muito difícil. A crítica à nova ortodoxia está sendo feita lá agora. Ou seja: esse debate ainda se encontra na fronteira da academia. Vai demorar para chegar aqui. Até porque essa discussão ainda não é predominante nem mesmo nos Estados Unidos. Para virar um tema hegemônico, leva um tempo. A própria velha ortodoxia, da teoria quantitativa da moeda, só deixou de ser ensinada no início dos anos 2000, portanto mais de uma década após as primeiras discussões no ambiente acadêmico.

A CONTRAVOZ DO CORO

A prisão do pensamento hegemônico na academia captura todos que estão estudando nos grandes centros – além de atravessar oceanos. A carreira de um jovem professor depende da sua capacidade de publicar nas grandes revistas. Estas, por sua vez, são essencialmente norte-americanas, e os temas, tanto na sua forma quanto o fundo, são dados pelo pensamento vigente. Ou o economista escreve sobre aquele tema e daquela forma pré-determinada ou não será publicado. Quando eu decidi retornar ao Brasil, para a indignação do Rudi Dornbusch, meu orientador, eu estava interessado em estudar os nossos grandes temas nacionais. Minha decisão foi questionada: “Olha, assim você não vai pegar uma boa cadeira numa universidade top…”. Paciência! Já àquela altura eu tinha interesse em temas como inflação crônica, o que não era muito bem compreendido por meus professores. Quando eu defendi a moeda indexada, um deles disse “Como é que você, um brasileiro, vai ter uma ideia que ninguém teve?”. Nada foi muito diferente, por sinal, da resposta que encontrei no Brasil. No início da década de 80, quando publiquei dois artigos sobre moeda indexada na Gazeta Mercantil, todo mundo foi contra. Só quando Mario Henrique Simonsen elogiou é que começou a haver uma reação positiva. Não preciso ir tão longe. Agora, quando eu publico “Juros, moeda e ortodoxia”, chama a atenção o silêncio dos meus pares, da academia. Eu fui chamado para debater o livro na Casa das Garças, na companhia de macroeconomistas que eu considero os mais sofisticados do Brasil. Não vou dizer que houve uma unanimidade porque alguns mais jovens tiveram uma reação positiva. Mas parece que contestar o uso de juros altos como instrumento de combate à inflação é um pecado.

A FÉ CEGA NOS CÂNONES

A nova matriz econômica do PT repete exatamente o neodesenvolvimentismo estruturalista com ação do Estado de Roberto Simonsen. Uma repetição totalmente fora de época. Esse modelo teve algum sucesso nos anos 50, ainda que com o custo da inflação. Nada erra de tudo ou acerta de tudo. Alguns dos pontos do nacional desenvolvimentismo, como por exemplo o protecionismo da indústria nascente, fizeram sentido nos primórdios da consolidação da América Latina, de administração de economias defasadas. Mas foi prolongado muito além do necessário, levado a um paroxismo que causou perda de produtividade e de competição. É impressionante que a essa altura alguém tenha reproduzido isso, com o fechamento da economia, entre outros erros.

Portanto, não existem fórmulas prontas e eternas. A falta de reflexão crítica de tentar entender a realidade com espírito de curiosidade intelectual faz mal para todos os lados, tanto à esquerda como à direita, para quem quiser usar essas expressões antigas. É impressionante que em matéria de economia, tão dependente das circunstâncias, das instituições, dos hábitos, dos costumes, da forma como se dá o desenvolvimento dos mercados, da tecnologia, ainda hoje há alguém que queira se apegar a modelos definidos. Ter um diploma de PhD lá fora o credencia para posições na tecnocracia de alto poder, especialmente em matéria monetária no Banco Central – um posto ainda percebido como algo que precisa ser preservado de pressões políticas espúrias. Esse capital custou anos de estudo, dedicação etc. Quando o sujeito volta e para de estudar, sente-se ameaçado. Para não se sentir ameaçado, é preciso ter uma abertura e uma curiosidade intelectual, estar mais disposto a pensar livremente do que preservar sua posição de autoridade na matéria a qualquer custo. Somos obrigados a pensar. Só que a preguiça intelectual dá ao sujeito um estereótipo e, com isso, uma fórmula pronta. Essa simplificação com a polarização de estereótipos é uma preguiça intelectual. Todos me perguntam se sou a favor da independência do Banco Central. Sim, sou a favor da independência operacional do Banco Central, mas não de pôr isso na Constituição. Se eu disser “sim”, “Entendi, você é um dos nossos”. Se eu disser “não”, sou um perigo.

OS GRILHÕES DA MATEMÁTICA

A matemática engessou totalmente a teoria econômica. A pretensão de parodiar as ciên­cias exatas com a economia e a tentativa de formalização da metodologia levaram a uma esterilidade. O modelo de referência de equilíbrio geral de Arrow Debreu é instantâneo. Não só é um modelo instantâneo como não tem moeda. Nunca se consegue explicar a necessidade de moeda. Por que ela existe? É algo que não é possível de explicar no modelo de Arrow Debreu, que é a referência sofisticada da base da economia. Ou seja: ficou tudo amarrado pela matemática. Nós tentamos partir dos princípios microeconômicos para deduzir as equações agregadas macroeconômicas. Coisa que nunca ninguém conseguiu fazer. Mario Henrique Simonsen tentou escrever um livro de macroeconomia em que ele começava deduzindo assim e desistiu no meio do caminho. Tudo isso ficou pelo caminho. A bem da verdade, é preciso fazer uma ressalva. O avanço da microeconomia, com a combinação de técnicas estatísticas e da psicologia comportamental, trouxe progressos extraordinários. O uso dessas técnicas impôs uma abundância de dados em muitas áreas do comportamento humano. Portanto, nem todo o uso de técnicas matemáticas estatísticas é contraproducente.

A matemática, por sua vez, é uma linguagem muito eficiente para se verificar a consistência lógica de um argumento e também muito sucinta para se expor um argumento. Mas o aprisionamento ao formalismo da matemática vai empobrecendo a capacidade de se aprender uma realidade social. Na macroeconomia, a formalização excessiva – e isso passou ocorrer principalmente no último quarto do século XX para cá – foi profundamente esterilizadora da capacidade de explicação. A macroeconomia passou a ser realmente um exercício de “matematicazinha” aplicada. Quer fazer matemática? Vai fazer matemática de verdade e não submatemática aplicada, exatamente o que boa parte da macroeconomia passou a fazer. A matemática, por sinal, também passou a ser utilizada em excesso como instrumento de defesa de crítica externa. Em um artigo recente, o economista-chefe do Banco Mundial, Paul Romer, fez uma crítica devastadora e brilhante sobre o fato de que a econometria hoje não está estimando mais nada, mas servindo apenas para calibrar os modelos. Ou seja: o que se tem feito muito é um modelo aos dados e não checando o realismo do modelo vis-à-vis aos dados. Todos esses modelos macroeconométricos ficaram viciados.

DECOMPONDO OS JUROS SIDERAIS

Em 2004, eu, Persio Arida e Edmar Bacha publicamos o artigo intitulado “Crédito, juros e jurisdição: conjecturas sobre o caso brasileiro”, uma tentativa de questionar as taxas tão altas. Na ocasião, apresentamos o artigo em um seminário na Casa das Garças. O Olivier Blanchard veio ao Brasil, ouviu toda a nossa apresentação e disse: “O problema da taxa de juros no Brasil me parece mais simples do que isso. É uma questão de dominância fiscal”. O termo agora está em voga, mas, na época, era novidade. E o Olivier disse: “Vocês têm uma taxa de juros alta demais porque há uma percepção de inviabilidade, de sustentabilidade fiscal ao longo prazo. E o que está provocando essa inviabilidade fiscal ao longo prazo é a alta taxa de juros que vem sendo mantida”. Então, eu disse, já na ocasião, que se a taxa de juros baixasse, ao contrário do que se imagina, isso melhoraria a percepção fiscal do país e a inflação cairia. Nós, na época, dissemos nesse artigo que esse cenário se tratava de uma conjectura, e nada garantia que sairíamos de um equilíbrio para entrar em outro. O Olivier, na época, já tinha a intuição, que hoje eu subscrevo integralmente, acerca da dominância fiscal. A meu ver, hoje, não acho que a nossa conjectura sobre incertezas jurisdicionais fosse a principal explicação para os altos juros praticados no Brasil. Acredito que as taxas foram mantidas em patamares elevados por uma crença equivocada de que nós realmente precisávamos de taxas altas porque o resíduo inflacionário é grande e não tínhamos uma situação estável na balança de pagamentos. Portanto, como estávamos saindo de um pe­ríodo de inflação crônica depois do Real, ainda sem credibilidade fiscal, a taxa de juros foi defensivamente mantida muito alta. Em um primeiro momento talvez não houvesse alternativa. Eu só acho, hoje, que ela foi mantida muito alta por muito mais tempo do que deveria. Com toda certeza, a partir da crise de 2008, ela deveria ter sido substancialmente reduzida. Eu escrevi na época apontando esse equívoco. Foi um erro dos governos petistas manter a taxa de juros alta e aumentar os gastos públicos, sob o argumento de que estavam fazendo uma política anticíclica keynesiana, algo que não fazia sentido algum porque a recessão era externa e não interna. Claramente, deveriam ter baixado os juros. E não desconsidero a possibilidade de que essa taxa de juros elevada tenha sido um dos fatores de sustentação da inflação mais alta do que foi por muito tempo. Não quero aumentar a controvérsia do debate, mas quando o Banco Central, agora com Ilan Goldfajn, baixou a taxa de juros, a inflação caiu. Ninguém nunca falou nisso.

NEM TODO O CRESCIMENTO SERÁ PERDOADO

Na teoria econômica, o crescimento sempre esteve vinculado à ideia de aumento da renda e de maior bem-estar. Se havia crescimento, todos os demais indicadores subiriam juntos. Ou seja: sempre vivemos sob a égide do pensamento de que o avanço econômico torna a vida das pessoas melhor. Essa correlação se torna cada vez mais questionável, diante dos flagrantes dados que a desenfreada atividade econômica tem causado ao planeta e aos seus. O economista americano Robert J. Gordon, da Universidade Northwestern, costuma indagar: “O rápido crescimento a que nos acostumamos pode ser indefinidamente mantido?”. Sua conclusão é que não. Não há garantia de que o crescimento seja algo contínuo e perene. O desafio é encontrar uma maneira de assegurar a melhora progressiva da qualidade de vida, independentemente do crescimento econômico ou do aumento do consumo e sem ferir os limites impostos pelo meio ambiente. Até certo patamar de renda, o avanço da qualidade de vida é indissociável do crescimento econômico. Um estrato da população demasiadamente pobre só pode alcançar uma qualidade melhor ao aumentar sua renda. No entanto, a partir de um determinado nível, no qual as necessidades básicas estejam asseguradas, o aumento da renda não é necessariamente garantia de melhora da qualidade de vida. Em meados do século passado, quando a teoria neoclássica do crescimento estava sendo formulada, os limites físicos do planeta pareciam distantes o suficiente para serem ignorados. O crescimento sustentável de longo prazo era apenas o passível de ser mantido pelo aumento da produtividade. Hoje, a variável dos recursos naturais acrescenta uma restrição. Trata-se de uma restrição difícil de ser aceita pelos países avançados, viciados no crescimento, mas praticamente impossível de ser aceita pelos países que ainda estão longe de atingir os níveis de consumo e de produtividade da fronteira tecnológica. Racionar o crescimento, antes da convergência de todos, significaria congelar as profundas diferenças de padrão de vida no mundo de hoje. Mas, então, qual é o fator mais importante para a melhoria do bem-estar nos países que já saíram da pobreza absoluta? A resposta é: redução das desigualdades. Uma distribuição de renda mais equilibrada é o quesito determinante da melhora da qualidade de vida, do bem-estar, da felicidade, de um país. O triunfo do capitalismo de mercado como sistema produtor de riqueza ajuda a entender, em grande parte, a perda de importância do tema da distribuição de renda. No Brasil, assim como nas nações em desenvolvimento, de maneira geral, onde a desigualdade sempre foi e hoje ainda é extremamente alta, os refletores deslocaram-se do esforço de redução das desigualdades para a elevação do poder aquisitivo das camadas mais pobres da população.”

Depoimento a Claudio Fernandez e Kelly Nascimento | Edição 82, 2018

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